O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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com a seguinte 
diferença: o terapeuta, com a sua rotina metódica, 
consegue desenredá-lo das peculiaridades do seu 
comportamento. O paciente é posto em confronto 
com o seu distúrbio de contato. O paciente não 
transfere para o psicoterapeuta o afeto que tem para 
com o pai; semelhante coisa seria realmente impossí-
vel. A relação neurótica com o pai e a relação 
neurótica com 0 psicoterapeuta têm, porém, um 
aspecto comum, ou seja, a sua perturbação de contato 
em geral. O fato de estar em maus termos com seu 
pai é um mau efeito da sua perturbação geral de 
contato; é esse mesmo distúrbio que provoca as suas 
dificuldades de contato com o psicoterapeuta. 
 Poder-se-ia observar que, nessa ordem de 
raciocínio, grande responsabilidade é conferida ao 
paciente. Mas, quando o médico aceita o paciente 
para tratamento, nada mais faz que isso. Nada se 
pode fazer a respeito do passado como realmente 
aconteceu. O passado está terminado e ultrapassado 
e, além disso, o paciente é adulto. O pai e todas as 
pessoas que o rodeavam na infância já 
desempenharam seus papéis. E, se por um absurdo, 
pudéssemos conceber a possibilidade de mudar as 
condições da infância do paciente, ninguém desejaria 
provavelmente fazer qualquer mudança pois, nas 
circunstâncias da sua infância, ninguém encontraria 
os fatores capazes de explicar alguma neurose. Mais 
uma vez devo repetir que não se podem colher louros 
do passado, tal como foi. Assim mesmo, o terapeuta, 
ao propor um tratamento, durante a própria conversa 
explica ao paciente até que ponto a sua recuperação 
deve ser promovida por ele mesmo. É o paciente que 
carrega o fardo do seu passado. É ele que deve 
assinar outro papel ao seu passado. 
 O psicoterapeuta é a pessoa sob cuja 
orientação isto acontece; conhece o método, que é 
aceito pelo paciente. Assim pois, o paciente é que se 
torna responsável pela própria cura. Significa isto que 
ele deve ser considerado culpado pela sua neurose? 
Não, sem dúvida alguma. Significa que o terapeuta 
desempenha papel passivo no processo de recupera-
ção? Também não; nem é passivo, nem o paciente é 
culpado. O paciente caiu num impasse, sem qualquer 
culpa, devido apenas à sua natureza, o que não exclui 
a cura da sua condição neurótica. Está procurando 
levar a efeito a sua cura, dentro da sua própria 
existência. Nesse tratamento, ele modifica os papéis 
das pessoas que presidiram à sua infância. O 
terapeuta também toma parte nessa cura. Doença e 
cura se realizam juntamente com outras pessoas. 
Nessa descrição propositalmente neutra, nem o 
paciente, nem qualquer outra pessoa é culpada ou 
responsável. Os termos culpa e responsabilidade são 
enganadores, no que concerne à neurose e à 
psicoterapia. Em geral, essas palavras não se 
justificam em psiquiatria. É preferível não usá-las. 
Tampouco são necessárias no esquema deste 
capítulo, cuja conclusão é a seguinte: o paciente é o 
dono do seu tempo. 
A pessoa sã é algo mais que simples dono. É capaz 
de fazer alguma coisa com seu tempo, sem restrições 
neuróticas. Em sua existência as palavras culpas e 
responsabilidade são certamente válidas. 
 Tais são as conclusões a respeito do tempo, 
que convergiram para permitir algumas observações 
sobre culpa e responsabilidade, duas palavras 
freqüentemente mencionadas (muito facilmente e 
com pouca justificação) em conexão com a neurose. 
O próximo capítulo é dedicado a alguns assuntos 
particulares, até aqui apenas mencionados, que estão 
em contato imediato com a doença do paciente deste 
livro e que, além disso, não devem faltar num breve 
ensaio de Psicopatologia. 
 
CCAAPPÍÍTTUULLOO IIIIII 
CCOONNSSIIDDEERRAAÇÇÕÕEESS 
CCOOMMPPLLEEMMEENNTTAARREESS 
 Na primeira parte deste livro, os males do 
paciente foram classificados sob títulos que mais se 
adaptavam ao seu relato. Havia quatro grupos de 
males: os referentes aos objetos (concernentes ao 
ambiente material, ao mundo — como é geralmente 
chamado nas publicações fenomenológicas), os 
referentes ao corpo, os relativos às relações com 
outras pessoas e aqueles relacionados com o passado 
 
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e o futuro. Para cada um desses grupos, parecia 
existir uma palavra apropriada: projeção, conversão, 
transferência e mitificação ou falsificação de 
memória. Essas palavras são claras e práticas e, no 
tocante às teorias que representam, aproximam-se 
muito da doutrina filosófica que pretende ser a vida 
humana a existência de um sujeito sem história, 
vivendo num corpo estranho, rodeado de objetos 
estranhos, entre os quais se encontram outros 
sujeitos, todos sem história e contidos do mesmo 
modo em corpos estranhos. 
 Esta imagem não corresponde com a vida 
como a conhecemos; a teoria implícita nessas quatro 
palavras continua obscura. É obscuro como um 
sujeito destaca algo de si mesmo e remove esta coisa 
imaterial de modo a ligá-la, finalmente, a um objeto 
material. Igualmente obscura é a idéia de que um 
sujeito anima um corpo, que um sujeito troca outros 
sujeitos uns pelos outros e que um sujeito falsifica o 
seu passado. 
 É muito notável, outrossim, a quantidade de 
coisas que estas mesmas palavras negam. A palavra 
projeção nega o que o paciente percebe. A palavra 
conversão nega o que o paciente sente fisicamente. O 
termo transferência nega o que o paciente encontra 
em outras pessoas e o vocábulo mitificação denega o 
que o paciente relembra. Quatro vezes não, no que se 
refere aos males do paciente. Não lhe resta senão 
sofrer dentro do domínio chamado sujeito, do qual 
não se sabe o que contém. 
 Finalmente, há a dificuldade consistente em 
que, com estas quatro palavras, desaparece a 
diferença entre o estado normal e o patológico, 
porque, a mantermos esses vocábulos, teremos de 
aceitar que toda pessoa projeta, converte, transfere e 
mitifica, visto que ninguém vive entre objetos sem 
nome, num corpo anônimo, cercado de bonecos e 
provido de um passado fixado por engramas. Cada 
um de nós vive num mundo ordenado, encarnado, 
humano e histórico. Não pode ser de outra forma. Em 
patologia, a ordem, a encarnação, a humanidade e a 
história têm um padrão diferente, cada vez, embora 
cada padrão possa esclarecer cada- um dos outros 
padrões. Todos os paciente mentalmente perturbados 
são seres humanos. 
A única diferença que as quatro palavras poderiam 
deixar subsistir é que as projeções, conversões, 
padrões de transferência e de falsificação de memória 
das pessoas mentalmente sãs não atraem nossa 
atenção, ao contrário daquelas do paciente 
psiquiátrico. A razão disto é que a pessoa 
mentalmente sã encontra a mesma espécie de 
projeções, conversões, padrões de transferência e de 
falsificação de memória entre os seus semelhantes 
mentalmente sãos, enquanto a pessoa mentalmente 
perturbada está isolada com as suas projeções, 
conversões etc. Em fenomenologia, esta conclusão é 
considerada de excepcional significância. O paciente 
psiquiátrico está sozinho. Tem poucas amizades, ou 
talvez nenhuma. Está isolado. Sente-se solitário. 
Pode manter-se afastado durante uma conversação. 
Às vezes, nenhuma conversação com ele é possível. 
Parece estranho, misterioso, às vezes inescrutável. A 
variedade não tem fim — mas a essência permanece 
a mesma. O paciente psiquiátrico está isolado. Daí 
é que vem o seu mundo diferente. As casas se in-
clinam para a frente, as flores não têm graça. É por 
isso que o seu corpo também parece diferente. Dói-
lhe o coração e as suas pernas estão fracas. Daí o seu 
passado diferente. A sua educação falhou. Daí as suas 
dificuldades com as outras pessoas, sendo que este 
último mal engloba todos os outros. Está isolado, está 
solitário. A solidão é a essência da sua doença, seja 
qual for o diagnóstico. Assim pois a solidão é o fator 
essencial da psiquiatria. Se a solidão nunca ocorresse 
na existência humana, poder-se-ia admitir que os 
distúrbios