O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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do seu isolamento. 
Entre essas duas condições encontra-se toda espécie 
de variantes, acessíveis tanto pelas descrições do 
 
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neurótico quanto por aquelas do esquizofrênico. A 
neurose e a esquizofrenia são, de fato, os dois pólos 
da Psicopatologia. O conhecimento íntimo dessas 
duas doenças domina todo o terreno psicopatológico. 
 A Psicopatologia é a ciência da solidão e do 
isolamento. Importante aspecto dessa ciência, 
diretamente ligado com a solidão e o isolamento, 
ainda não foi aqui discutido: é o assunto do 
inconsciente. Este assunto é muitas vezes confundido 
com outro, ligado a ele mas perfeitamente discernível 
dele, e que se chama ocultação; e como este último 
leva à introdução do primeiro, começarei pelo 
segundo. 
 Nas relações com outras pessoas, podemos 
silenciar sobre alguma coisa, podemos ter um 
segredo, podemos procurar esconder algo das vistas 
de outra pessoa; podemos enganá-la, confundi-la e 
ludibriá-la. Podemos, em suma, esconder-nos dentro 
do contato. Que significa isto, 
fenomenológicamente? A pergunta não é destituída 
de significado, pois a fenomenologia, pela sua ênfase 
na revelação do homem pelas coisas, cria a impressão 
de não deixar lugar para a existência individual, 
secreta e intencionalmente oculta. Talvez seja 
interessante voltar ao exemplo do homem que espia 
pelo buraco da fechadura. O leitor estará lembrado 
desse exemplo, tirado de Sartre. Pelo buraco de uma 
fechadura, um homem está olhando intensamente 
para uma cena que não se destinava a ser vista por 
ele. Está sozinho, pensa que ninguém o está 
observando e está absorto no que está vendo. A 
última parte desta frase deve ser entendida quase que 
literalmente. O homem já não está ali, onde se 
encontra fisicamente agachado, mas desapareceu pelo 
buraco da fechadura. Pelo menos, no que se refere a 
ele individualmente. No que concerne à testemunha 
que (imaginemos) está a observar secretamente o 
homem, há realmente um homem colado à porta, 
mesmo que a testemunha possa facilmente pensar 
que o homem está absorto naquilo que está vendo. 
Ninguém pode ficar curvado tanto tempo, a não ser 
que tenha abandonado seu corpo. É isto que o homem 
fez; largou do seu corpo e sumiu para dentro do 
aposento onde há tanta coisa para ver. A sua 
condição, todavia, é crítica. Ele pode ser observado e, 
de fato, está sendo observado. Assim que isto chega à 
sua atenção (isto é, quando ouve um barulho), ele 
sente-se sem defesa. A testemunha está olhando para 
um corpo que o homem deixou atrás de si e onde não 
consegue reentrar, devido à reprovação suscitada 
pelo seu ato. Como lhe vai ser possível recapturar 
o seu corpo? Abandonando o quarto, mas isto não é 
bastante; ele tem que combater a testemunha e livrar-
se do poder que a testemunha exerce sobre o seu 
corpo. Ele pode fazer isto olhando fixamente para a 
testemunha, como fazemos num compartimento de 
vagão ferroviário, (") quando um estranho ali 
 
" N. do trad.: É oportuno lembrar que, na Europa, os vagões de passa-
geiros são geralmente divididos em «compartimentos> ou «cabinas», cuja 
penetra. O espreitador procura expulsar a testemunha 
do campo da sua visão. O mais provável é que não 
saiba o que fazer e que procure esconder-se. Poderá 
alegar, talvez, que ouviu ruídos suspeitos dentro do 
quarto. 
 Ao dizer isto, ele cria, do outro lado da porta, 
um aposento que não existe em sua própria mente, 
mas que ele quer inculcar na mente da testemunha. 
Pode acontecer que o espreitador consiga criar o novo 
aposento com tanta convicção que será capaz de se 
estender em detalhes e que talvez esses detalhes 
sejam tão convincentes que a testemunha lhe dê 
crédito. 
 Este exemplo demonstra o que significa a 
ocultação no sentido fenomenologico. No momento 
em que é descoberto, o espreitador não está em lugar 
algum. O quarto foi afastado dele. O quarto 
“derramou-se sobre a outra pessoa”. A descrição que 
Sartre dá ao que está acontecendo ao corpo do 
espreitador é muito adequada (modernamente, 
diríamos “é muito plástica”); o corpo do espia “fica 
frio sob o olhar da outra pessoa”. Isto significa que a 
testemunha tem o espreitador em seu poder; pois os 
próprios movimentos deste são controlados por ele. O 
espreitador necessita desenvolver grande esforço para 
poder recuperar-se (física e mentalmente), pois seus 
movimentos estão tolhidos. O seu corpo já não lhe 
pertence, é propriedade da testemunha. Mas onde 
está, então, o espia? A bem dizer não está no quarto 
nem no seu corpo porque está na iminência de 
desmaiar. Está em condições de desmaiar — 
devido à sua ausência — o que às vezes se dá 
realmente. Mas este homem não desmaia. Recupera-
se, endireita-se e olha desembaraçado para a 
testemunha, começando a sua defesa. Conta a sua 
história, o que significa que deixa o quarto para a 
testemunha, mas determina que espécie de quarto vai 
ser. Se não for cuidadoso, poderá mesmo começar a 
acreditar na história que conta. Neste caso, ele 
também possui este novo quarto, embora de modo 
inautêntico. Mas, geralmente, as coisas não vão 
longe. O espreitador deixa o quarto para a 
testemunha, determina que espécie de quarto é, e 
larga tudo nesse ponto.Acontece a mesma coisa com 
o seu corpo, pois corpo e coisas são interligados. O 
espreitador deixa o seu corpo à testemunha, mas 
determina que espécie de corpo será. Seus olhos, suas 
mãos, sua inteira atitude refletem o quarto aban-
donado. 
 Mais um exemplo de ocultamento, desta vez 
de natureza mais patológica. Também este exemplo é 
bem conhecido pelo leitor. — Um operário cai da 
escada, quebra a perna, fica de cama por um certo 
tempo, tem alta do hospital, mas a sua perna continua 
a doer e ele não retoma o seu trabalho. É fora de 
dúvida que isto parecerá fraude para quem esteja fora 
 
porta se abre para um corredor lateral, ao contrário dos carros americanos 
e brasileiros, onde não há separação em compartimentos e onde a 
circulação se faz pelo centro do vagão. 
 
 
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do assunto; e também para o operário, mas cora esta 
particularidade que este, mais ou menos, ou talvez 
completamente, acredita em seu próprio engano, de 
modo que talvez seja preferível substituir a palavra 
“engano” por outra. Ele se oculta com tanta força (e 
com tanta necessidade) que lhe é impossível voltar 
para trás. Um psicoterapeuta talvez fosse capaz de 
ajudar o paciente a voltar para trás, mas isto está fora 
do assunto. O que aconteceu foi o seguinte: este 
operário trabalhava num ambiente de relações muito 
tensas. Sem dúvida, queixou-se muitas vezes das 
condições em que trabalhava e provavelmente, 
sempre que lhe foi possível, usou de linguagem 
ofensiva para com as pessoas relacionadas com o seu 
trabalho. Se tivesse sido interrogado, antes do 
acidente, teria certamente pintado um quadro 
lamentável do seu trabalho; é pouco provável que nos 
pintasse o mesmo quadro depois do seu acidente. 
Com toda a certeza, já prefere nada falar a respeito 
do seu trabalho. Fala apenas do seu corpo. Antes do 
acidente, falava sobre a fábrica e silenciava quanto ao 
seu corpo. Depois do acidente, fala do seu corpo e 
nada diz sobre a fábrica. Qual é o motivo dessa in-
versão? 
 Em primeiro lugar: a fábrica. Queixava-se 
dela e hoje não mais a menciona. Quando perguntado 
a respeito das suas condições de trabalho, relata uma 
história mais ou menos sem cor. Deixa a fábrica para 
outras pessoas. Passemos agora ao seu corpo: a 
princípio não o mencionava; agora não se cansa em 
falar dele. Queixa-se de um corpo que está 
perfeitamente são. Mas este corpo, que poderia estar 
são, está proibido de estar são em relação com as 
outras pessoas. Deixa-o ficar doente para as outras 
pessoas. O operário mente