O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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e engana, diz a pessoa de 
fora (que é uma das outras pessoas). Para tirar a 
dúvida, deve ser examinado de novo, diz o médico 
(que também é uma das outras pessoas). “Ele está 
doente”, dizem a mulher e alguns poucos amigos. A 
explicação correta é que ele se está escondendo. 
Procura deixar a fábrica e seu corpo para outros, este 
é o ponto de vista fenomenológico, pois esconder-se 
significa deixar o corpo e o ambiente aos outros, mas 
de um modo escolhido livremente pelo paciente. 
 Se o paciente acredita em sua própria 
história, se nutre essa crença ao ponto de que 
ninguém consiga fazê-lo voltar para trás (sempre que 
o seu comportamento seja tal que ninguém possa 
duvidar da sua boa fé), então a sua história poderá 
logo ser considerada como exemplo de 
comportamento resultante de propósito inconsciente. 
Deixo por enquanto de indagar se este conceito pode 
ser mantido depois de análise mais rigorosa. Há 
certamente casos que, por outro lado, chamam a 
nossa atenção como ilustrativos de um compor-
tamento que resulta de um propósito inconsciente, 
quando, na realidade, referem-se apenas a 
ocultamento. Apresentarei ao leitor um exemplo 
deste último gênero e terminarei a lista com um 
exemplo que todo o mundo pode aceitar como 
imagem de comportamento resultante de propósito 
inconsciente. 
 Este exemplo, no qual se demonstra que o 
aparente resultado de um impulso inconsciente nada 
mais é que a ocultação de uma personalidade, é 
tirado, com grande prazer, de uma das primeiras 
obras de C. G. Jung. (") Pois o episódio explicado 
por Jung não é somente um caso belo e clássico, mas 
a explicação também mostra até que ponto um 
homem como Jung compreendeu muito cedo que 
nem tudo o que se apresentava com o rótulo de 
inconsciente tinha o direito de usar esse nome. A 
publicação remonta a 1913 e descreve o seguinte 
caso: Devido a perturbações neuróticas, sendo uma 
delas perda de consciência, uma jovem mulher 
consulta um psicoterapeuta. Aparentemente, o seu 
mal começou num momento muito bem determinado, 
pouco tempo antes da consulta ou seja quando, 
depois de visitar alguns amigos seus, na companhia 
de outras pessoas, ela estava voltando para casa, alta 
madrugada. De repente, uma carruagem puxada por 
cavalos surgiu por detrás do grupo de amigos. Todos 
os companheiros se afastaram, mas não a paciente; 
ela ficou no meio da rua e, quando os cavalos se 
aproximaram, saiu a correr na frente dos animais. O 
cocheiro praguejava e fazia estalar o chicote para que 
ela se afastasse do caminho, mas sem resultado; ela 
continuava correndo adiante dos cavalos e, no fim da 
rua, ao atravessar uma ponte, desmaiou. Teria caído 
no rio, se umas pessoas que atravessavam a ponte não 
a tivessem agarrado. A sua perturbação começou 
nesse momento; sofria de neurose de choque. 
 É justificado perguntar por que a paciente 
comportou-se de modo tão estranho aquela noite. Ela 
não sabe dar resposta a essa pergunta. Não é de 
temperamento medroso, como ficou demonstrado 
pelo estudo da sua vida. Teria havido qualquer coisa 
em seu passado, relacionado com cavalos? Orientada 
para esse caminho, a paciente declara que se lembra 
subitamente [Jung duvida que esse trauma tenha 
realmente acontecido; essa dúvida sempre se justifica 
quando o paciente partindo de um vácuo, lembra-se 
repentinamente de alguma coisa (p. 349 do artigo 
mencionado na nota anterior)] que, aos sete anos, 
testemunhara terrível acidente em que os cavalos 
tinham desempenhado o papel principal. Ao passear 
numa carruagem, os cavalos tinham repentinamente 
disparado. O cocheiro, temendo que os cavalos 
caíssem num precipício, pulou do carro e gritou para 
que a menina fizesse o mesmo; mal tinha ela pulado, 
os cavalos “mitsamt dem Wagen” (“juntamente com 
a carruagem”) se precipitaram no abismo. 
 Eis aí a explicação da sua neurose de choque. 
Aos sete anos de idade, ela não fora capaz de 
 
" CG. Jung. Veroch ciner Darstellung der Eychoanalytlschen Theorie, 
Jahrbuch ítir Psycoanalytlsche und Psychopathologische Forschungen V, 
1913. 
 
 
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compreender, em toda sua inteireza, o choque e a 
ansiedade do trauma. O incidente ficou adormecido 
dentro da sua mente e somente se reativou quando, 
naquela noite memorável, ela ouviu o ruído dos 
cavalos a galope. O que tinha ficado inconsciente du-
rante dezoito anos, voltou repentinamente à 
consciência, embora só parcialmente, pois ela se 
assustou com o incidente do seu passado somente 
quando começou a falar com o terapeuta; foi somente 
aí que o susto surgiu, com o medo e a possibilidade 
de cair num precipício. 
 Mesmo que desejássemos conhecer mais a 
respeito desse caso, devemos admitir que a sua 
configuração é clássica e completa. Um trauma 
infantil, um período sem sintomas, seguido por um 
trauma insignificante mas que causou reação 
exagerada, originando-se então os sintomas. O 
aspecto que preocupava Jung era o período decorrido 
entre o sétimo e o vigésimo quinto ano da paciente. O 
trauma tinha ficado certamente inconsciente durante 
todos esses anos, de acordo com a explicação, mas é 
de se perguntar o que implica a suposição de que 
alguma coisa encerrada durante tanto tempo ressurja 
subitamente como resultado de um incidente insig-
nificante. Pode-se presumir que a fórmula os cavalos 
de agora são os cavalos de então quebrou o sigilo? 
Por que nada aconteceu durante esses dezoito anos? 
Jung não se dá por satisfeito e investiga o que 
aconteceu imediatamente antes do momento do 
choque. Onde tinha ela estado, aquela noite, e o que 
ali se passara? Fora visitar um casal que dava uma 
festa de despedida, porque a mulher estava de partida 
para urna estância de cura, onde ia tratar de uma 
doença nervosa. Para contar exatamente a verdade, 
aquela mulher acabava de embarcar no trem e o 
grupo de amigos que a acompanhara à estação estava 
de volta quando ocorreu o acidente com os cavalos. 
Jung deixa de acreditar na significância dos cavalos a 
galopar. Suspeita que deve existir outra conexão e 
encontra, eventualmente, a verdadeira explicação, 
que pode ser resumida como se segue: A paciente 
sabia que, se alguma coisa lhe acontecesse, seria 
levada de volta para a casa de onde saíra há pouco. 
Ali ficaria a sós com o esposo da mulher que acabara 
de embarcar. E foi justamente o que sucedeu. Depois 
do acidente, foi levada para aquela casa e confiada 
aos cuidados daquele marido; depois disso, 
aconteceram as coisas que costumam acontecer entre 
um homem e uma mulher, que se conhecem e 
demonstram interesse recíproco. Existia namoro 
anterior entre ambos? Realmente, ele já a beijara 
antes — e esta informação revelou uma das causas da 
doença nervosa da sua esposa. E onde ficaram os 
cavalos do incidente ocorrido quando ela tinha sete 
anos? Estes foram trazidos para a cena a fim de que 
ela pudesse utilizá-los como esconderijo. A paciente 
apresentou ao terapeuta (a pedido dele) um pedaço de 
realidade sem valor, a fim de reter outra realidade. 
Também confiou a ele um corpo escapando do 
precipício, a fim de preservar outro corpo, o corpo 
que caiu quando ela se esqueceu de defender a sua 
virtude. Fraude ou ocultamento, seja qual for a 
palavra preferida, é fora de dúvida que o inconsciente 
pouco ou nada tem a ver com a sua história. Jung não 
quis usar a palavra inconsciente em relação com este 
caso. Só podemos concordar com ele. Quando uma 
conexão inconsciente é usada para servir de ligação 
com o passado, o paciente está procurando 
esconder-se. Há exceções para essa regra, mas são 
raras. 
 Por outro lado, não será possível pôr em 
relevo, na história da paciente, conexões que se 
possam chamar de inconscientes? É certo que essas 
conexões existem. Em primeiro lugar: a paciente 
precisa de um velho passado para poder escapar de 
um presente