O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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depois da sua morte, Pensées 
sur Ia religion (1669), distingue o esprit de géométrie 
do esprit de finesse, distinção muito similar àquela 
feita por Düthey. — Seria interessante acompanhar a 
história dessa distinção nas atitudes e nos métodos 
científicos. Eu mencionaria então pensadores como J. 
G. Herder (1744-1803), Kierkegaard (1813-1855), 
Nietzsche (1844-1900), Max Scheler (1874-1928), 
Maine de Biran (1766-1824) e Henri Bergson (1859-
1941). Todos esses autores têm algo a ver com a 
preparação da psicologia fenomenológica; mas os 
assuntos tratados por esses autores conduzem ao 
campo da cultura filosófica, que foge ao alvo deste 
livro. 
 A pessoa que, pela primeira vez, introduziu 
na psiquiatria a distinção de Dilthey foi Karl Jaspers. 
Em seu artigo Kausale unã verstànãliche 
Zusammenhànge zwischen Schi-cksal und Psychose 
bei der Dementiá praecox (Schizophrenie) 
(Zeitschrift fúr die gesammte Neurologie und 
Psychiatrie, 1913), mostra que os dois métodos, 
quando aplicados ao estudo da esquizofrenia, 
conduzem a resultados satisfatórios, mas que 
somente os resultados do método descritivo podem 
ser chamados psicológicos. Jaspers então aplica, com 
muito sucesso, o novo método fenomenológico a 
todo o campo da Psicopatologia: Allgemeine 
Psychopathologie (Berlim, l.a edição 1913, pág. 338; 
várias reedições), livro este que, além do seu valor 
fenomenológico, pode ser considerado sem rival 
como sinopse do campo da Psicopatologia. 
 O exemplo de Jaspers foi seguido por muitos. 
Há numerosas publicações em que novos territórios 
foram abertos por meio do método fenomenológico. 
Mencionarei apenas alguns mais importantes: E. 
Kretschmer, Der sensitive Bezie-hungswahn (Berlim, 
1918), K. Birnbaum, Pychopatholo-gische 
Dokumente (Berlim, 1920), e H. C. Ríimke, Zur Phà-
nomenologie und Klinik des GlucksgefUhls (Berlim, 
1924). 
 Em poucas palavras, o processo que conduz a 
tão bons resultados nesses estudos, resume-se em que 
descreve, exata e exaustivamente, o que o paciente 
psiquiátrico experimenta e aquilo que lhe vai pela 
mente. Convém notar que, nesse meio tempo, o 
processo fenomenológico, neste sentido da palavra, 
não foi mais aplicado tão freqüentemente como antes. 
Foi Binswanger quem, em seu artigo Ueber 
Phaenomenologie (Zeitschrift fiir die gesammte 
Neurologie und Psychiatrie, 1923) deixou claro que 
importantes campos da atividade psicológica e 
psicopatológica ficariam inexplorados, se a 
fenomenologia fosse considerada apenas como 
descrição exata das experiências intrapsíquicas. Para 
documentar o seu ponto de vista, referiu-se ao 
trabalho de Edmund Husserl, que era então 
completamente desconhecido no mundo psiquiátrico: 
Logische Vntersuchungen (três partes, Halle, 1900-
1901), no qual este filósofo-psicólogo desenvolvia o 
importante trabalho do seu mestre Franz Brentano: 
Psychologie vom empirischen Standpunkt (três 
partes, Leipzig, 1874). Em seu livro, Husserl faz a 
distinção que já foi exaustivamente discutida nas 
páginas precedentes: a distinção entre percepção 
objetiva e categorial (nomes que não tinham sido 
usados, antes). A percepção objetiva, (ou melhor: 
geralmente válida) é a percepção da “investigação 
reflexiva”, a percepção do físico e do fisiólogo. Por 
outro lado, a percepção categorial é a percepção tal 
como acontece na vida de todos os dias, a percepção 
 
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do psicólogo, — que está perfeitamente disposto a 
examinar as coisas reflexivamente, mas que quer 
excluir a indiferença que acompanha tão facilmente o 
exame “reflexivo” ou “objetivo”. Na percepção 
categorial não há hiato entre o homem e o mundo; o 
mundo é o lugar de residência da natureza humana, e 
o lugar de residência é uma das particularidades da 
natureza. Lugar de residência também da doença. A 
fenomenologia se origina da percepção categorial e 
não, corno pretendia Jaspers, de uma (precisa) 
introspeção. O argumento de Binswanger resume-se 
no seguinte: o fenomenologista não deve dirigir o seu 
olhar “para dentro”, mas “para fora”. Para dizê-lo 
paradoxalmente: a verdadeira introspeção é feita por 
meio do sentido físico da vista; nós somos; nós 
estamos vendo a nos mesmos quando observamos o 
mundo — nestas frases o sentido de ver e observar 
concerne a percepção categorial e não a objetiva, 
distinção esta que não foi feita por Dilthey nem por 
Jaspers. 
 A repercussão do artigo de Binswanger 
lembra a que teve em 1913 o artigo de Jaspers. 
Começaram logo a aparecer publicações 
fenomenológicas, atribuindo o novo sentido à palavra 
fenomenologia. O sentido de elucidação da 
existência pré-reflexiva. Também isto foi discutido 
nas páginas precedentes. 
 É importante não confundir estas duas 
formas de fenomenologia: a de Dilthey-Jaspers e a 
de Husserl-Binswanger. 
 O novo enfoque, versando sobre a descrição 
de condições de existência normais e perturbadas, é 
examinado principalmente nos seguintes trabalhos: L. 
Binswanger, Lebensfunk-tion und innere 
Lebensgeschichte (Monatschrift fiir Psychiatrie und 
Neurologie, 1928) e E. Straus, Geschehnis und Er-
lebnis (Berlim, 1930, pág. 129). 
Não posso estender-me sobre os trabalhos que 
contém investigações fenomenológicas do homem 
normal e do homem perturbado, do espaço e do 
tempo. No que concerne ao tempo: V. E. von 
Gebsattel, Zeitbezogenes Zwangsdenken in der Me-
lancholie (Nervenarzt, 1928) e E. Straus, Das 
Zeiterlebnis in der endogenen Depression und in der 
psychopathischen Versti-mmung (Monatschrift fiir 
Psychiatrie und Neurologie, 1928). Uma vez mais, 
estes dois psiquiatras publicaram, independentemente 
um do outro, artigos sobre o espaço (visto pelo neu-
rótico com obsessões), novamente com os mesmos 
resultados. V. E. con Gebsattel, Die West des 
Zwangskranken (Monatschrift fúr Psychiatrie und 
Neurologie, 1938) e E. Straus, Ein Beitrag zur 
Pathologie der Zwangserscheinungen (Monatschrift 
fiir Psychiatrie und Neurologie, 1938). Algum tempo 
antes o segundo tinha publicado um artigo muito 
interessante, no qual encarava uma fenomenologia 
geral do espaço: E. Straus, Die Formen des Ràum-
lichen (Nervenarzt, 1930). O tema desse trabalho foi 
mais tarde elaborado em forma de livro, que hoje 
pode ser considerado padrão no assunto: E. Straus, 
Vom Sinn der Sinne, (Berlim, 1935, pág. 314, 
reeditado e ampliado em 1956, pág. 425). Como 
indica o título do livro, o autor procura formular nova 
psicologia dos sentidos, a qual, como se pode 
esperar, consiste numa nova psicologia do mundo 
(perceptível). 
 F. Fischer foi o primeiro autor que aplicou a 
fenomenologia de Husserl-Binswanger ao grupo de 
distúrbios esquizofrênicos. 
 Mencionarei somente duas entre as suas 
numerosas publicações. A primeira trata da 
Psicopatologia do tempo e a segunda tem por assunto 
o espaço e o paciente esquizofrênico: F. Fischer, 
Zeitstruktur und Schizophrenie íZeit-schrift fiir 
gesammte Neurologie und Psychiatrie, 1929) e Ueber 
die Wandeungen des Raumes im Aufbau der schizo-
phrenen Erlebniswelt (Nervenarzt, 1934). 
 Completamente à parte, inclusive pelo fato 
de ter o autor vivido muitos anos em Paris, temos o 
livro ainda muito pouco conhecido de E. Minkowski, 
que faz sério esforço, louvável em muitos aspectos, 
para compreender a Psicopatologia partindo dos 
distúrbios de percepção do tempo: E. Minkowski, Le 
temps vécu (Paris, 1933, pág. 401). Antes disso, o 
autor publicara um trabalho que, embora não escrito 
numa tradição estritamente fenomenológica, é de 
natureza inegavelmente fenomenológica: E. 
Minkowski, La schizophrenie (Paris, 1927, pág. 268). 
 Em 1933 apareceu um livro que demonstrou 
até que ponto os autores dos trabalhos mencionados 
acima deixaram de tirar todas as conseqüências das 
observações fundamentais de Husserl. Foi novamente 
Binswanger que removeu os resíduos do modo de 
pensar dos físicos, tão firmemente arraigados na 
Psicopatologia.