O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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O resultado foi uma patografia 
completamente nova, que pode ser chamada revolu-
cionária: Ueber Ideenflucht (Zurique, 1933, pág. 214; 
o trabalho apareceu primeiro em dois artigos, no 
Schweizer Archiv fiir Psychiatrie und Neurologie, 
1931-32). 
 Também este livro fora precedido por um 
trabalho filosófico, subscrito por um discípulo de 
Husserl, que abriu o caminho para uma nova e 
original descrição da existência humana em si. Trata-
se de M. Heidegger: Sein und Zeit (Halle, 1927, pág. 
438), livro que provocou completa mudança no 
mundo do pensamento da Europa Ocidental. O traba-
lho de Binswanger é conseqüência direta desta obra 
pioneira. Três períodos podem ser distinguidos, 
portanto, na história da psiquiatria fenomenológica. 
O primeiro período foi instaurado por Jaspers em 
1913 e os dois períodos seguintes por Binswanger, 
entre 1923 e 1933. Cada período foi precedido por 
nova reflexão sobre a natureza da existência humana, 
(por Dilthey, Husserl e Heidegger). Embora haja dis-
tinção muito clara entre os três períodos no que 
concerne ao nome fenomenologia, os dois últimos 
períodos se combinam tão harmoniosamente que o 
 
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sentido da palavra, como foi definido por Husserl, 
não precisa ser alterado. 
 A obra de Binswanger Ueber Ideenflucht faz 
parte dos raros trabalhos que têm alterado o aspecto 
da psiquiatria. Pode ser posto na categoria de 
Maladies mentales (1838), de Esquirol, da 5.a edição 
da Psychiatrie (1896), de Kraepelin, de 
Traumdeutung, de Freud (1900), de Dementia 
praeçox, oder Gruppe der Schizophrenien (1911), de 
Bleuler, de Symptomatische Psychosen (1911), de 
Bonhoeffer, de Psychopathologie (1913), de Jaspers, 
de Koerperbau und Charak-ter (1921), de 
Kretschmer, de Conceptions o/ modern Psychiatry 
(1940), de Sullivan. 
 Uns dez anos mais tarde, Binswanger 
escreveu a primeira patografia fenomenológica 
compreensiva de um paciente que sofria de uma 
forma atípica de esquizofrenia (ou, se preferem, de 
severa forma de histeria esquizóide): Der Fali Ellen 
West (Schweizer Archiv fiir Psychiatrie und 
Neurologie, 1945), logo acompanhada por mais três 
estudos também relativos à esquizofrenia: Wahnsrinr 
ais lebensgeschichtliches Phdno-men und ais 
Geisteskrankheit (Monaschrift fiir Psychiatrie und 
Neurologie, 1945); Der Fali Júrg Ziiná (Schweizer 
Archiv fiir Psychiatrie und Neurologie, 1947), e Der 
Fali Lola Voss (Schweizer Archiv fiir Psychiatrie 
und Neurologie, 1949). 
 O discípulo de Binswanger, Roland Kuhn, 
escreveu a primeira patografia fenomenológica de um 
paciente sexualmente perturbado: Analyse eines 
Mordversuches eines depressiven Fetischisten und 
Sodomisten an einer Dirne (Monatschrift fiir 
Psychiatrie und Neurologie, 1946); entrementes o 
muito conhecido psiquiatra Boss, também suíço, 
procurou formular uma completa patossexologia, 
baseada nos novos princípios: M. Boss, Sinn und 
Gehalt der sexuellen Perversionen (Berna, 1947, pág. 
130). 
 Hàfner foi o primeiro a escrever uma 
fenomenologia da psicopatia: H. Háfner, 
Psychopathen (Berlim, 1961), pág. 230). Na 
Holanda, Van der Horst e seus discípulos, fizeram 
séria tentativa para descrever toda a psiquiatria 
partindo de novos princípios (não somente 
fenomenológicos): L. van der Horst, Ânthropologisch 
Psychiatrie, (duas partes, Amsterdão, 1946, pág. 
790). 
 No campo da psicossomática (se é lícito 
empregar esta palavra numa conexão 
fenomenológica, sem mais explicação), Viktor von 
Weizsàcker abriu novos caminhos, com os seus 
colaboradores e discípulos. Von Weizsàcker, falecido 
há poucos anos, foi longo tempo chefe da clínica 
interna da Universidade de Heidelberg. Mencionarei 
dois livros de sua autoria: Stuãien zur Pathogenese 
(Wiesbaden, 1935, pág. 88 — estudo claro e conciso, 
quase que declaração de princípios, escrito em estilo 
acessível ao leigo) e o trabalho, muito mais consi-
derável: Fdlle und probleme (Anthropologische 
Vorlesungen in der medizinischen Klinik, Stuttgart, 
1947, pág. 203). 
Este último trabalho, Fálle und Probleme, 
compreendendo sessenta conferências, é um dos 
melhores estudos existentes no campo da patologia 
fenomenológica. Sendo também este trabalho de 
redação muito simples, de modo a não apresentar 
dificuldades aos estudantes não familiarizados com o 
assunto, posso recomendá-lo como uma introdução 
geral, não complicada mas profunda ao terreno da 
fenomenologia. Os pacientes estudados nesse livro, 
são quase todos portadores de defeitos internos; o que 
torna o livro de excepcional importância também 
para o médico de clínica geral e para o especialista 
em somatologia. 
Numerosos trabalhos foram publicados pela clínica 
de von Weizsâcker. Mencionarei apenas: H. 
Huebschmann, Psyche unã Tuberkulose 
(Stuttgart, 1952, pág. 284). Livros desse tipo 
levantam a questão da natureza do método usado 
na Medicina somática. Ao leitor que desejar 
clara resposta fenomenológica, recomendo o 
opúsculo de W. Metz: Het verschijnsel pijn. 
Methode en mensbeeld der geneeskunde 
(Haarlem, 1964). 
 Algumas palavras sobre as mudanças que 
se deram na França. Um trabalho de filosofia, 
muito significativo pelas suas conexões com o 
assunto aqui tratado, também apareceu naquele 
país, com grande repercussão. Trata-se de L'être 
et le néant, de J. P. Sartre, (Paris, 1943, pág. 
724), onde se nota facilmente a influência de 
Husserl e de Heidegger. O livro oferece 
excelentes exemplos de intuição 
fenomenológica. Especialmente os capítulos que 
tratam do olhar humano e do corpo, podem ser 
considerados dos melhores jamais escritos sobre 
um assunto fenomenológico. É bastante estranho 
que esse trabalho, até agora, tenha exercido 
pouca ou nenhuma influência sobre a psiquiatria 
francesa (que foi, aliás, bastante influenciada por 
um livro bem escrito, fácil de entender mas, em 
certo sentido, quase sem valor: G. Lanterni-
Laura, La psychiatrie phénoménologique, Paris, 
1963). Isto é tanto mais estranho porque a 
psicologia francesa foi muito influenciada por 
Sartre. Embora estejam fora do escopo deste 
livro, não posso deixar de mencionar os nomes 
de alguns psicólogos franceses, cujos trabalhos 
sofreram a coloração da filosofia sartriana: 
Merleau-Ponty, Jeanson, Mounier e (em grau 
menor) Georges Gusdorf. O livro deste último 
La ãécouverte de soi (Paris, 1948) é de 
significado incalculável para a nova psicologia 
(fenomenológica) . 
 
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 O trabalho de Gaston Bachelard merece 
menção especial. Não visivelmente influenciado 
pelas novas tendências da filosofia alemã e 
francesa, elaborou ele uma psicologia dos 
elementos fogo, água, ar e terra, que só poderia 
ter sido escrita por um fenomenologista. Os seus 
trabalhos me parecem ser de imediato valor para a 
psicopatologia. Entre essas publicações, indicarei as 
seguintes: La psychanalyse du feu, (Paris, 1938, pág. 
220), L'eau et les rêves, (Paris, 1942, pág. 265), Uair 
et les songes (Paris, 1943, pág. 306), La terre et les 
revertes de Ia volonté (Paris, 1948, pág. 407), La 
terre et les rê-veries du repôs, (Paris, 1948, pág. 
337), e, finalmente o trabalho que sintetiza os seus 
pontos de vista La poétique de Vespace (Paris, 1951, 
pág. 214). 
 Agora que com estes últimos autores me 
encontro no campo da psicologia fenomenológica, 
não deixarei de citar mais dois autores, que 
demonstram que a fenomenologia conduz a 
resultados excepcionais na psicologia: O. F. Bollnow, 
cujo livro sobre os estados de espírito apareceu em 
1943: Das Wesen der Stimmungen (Frankfurt, 1943) 
e o psicólogo holandês F. J. J. Buytendijk que, pela 
sua liderança pessoal e pelos seus numerosos e 
excelentes trabalhos prestou serviços excepcionais à 
psicologia holandesa. 
 O psicoterapeuta francês R. Desoille pode ser 
considerado um dos promotores de uma psicoterapia 
fenomenológica muito peculiar. Entre os seus 
trabalhos, é digno de nota o seguinte: