O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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ele está errado em sua opinião 
a respeito do seu coração e que tem falsa impressão 
das pessoas em volta dele. Voltarei sobre isso mais 
adiante. O que devo salientar aqui é a conclusão de 
que o paciente, no que se refere à sua memória do 
passado, diverge da opinião dos outros, tomando sua 
opinião divergente pela realidade, pela realidade da 
sua infância. 
A mesma situação se apresenta quanto ao seu 
futuro. Gostaríamos de dizer ao paciente que não se 
 
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deixasse enganar pelas suas concepções erradas; 
gostaríamos até de exortá-lo aos gritos para que 
abrisse os olhos e percebesse como o mundo é 
realmente, para que compreendesse as boas intenções 
das pessoas que estão em volta dele, para que 
percebesse como foi e está sendo bem educado e 
sentisse a saúde do seu corpo; se ele pudesse ao 
menos compenetrar-se de tudo isso, poderia esperar 
tudo do futuro, pois é jovem, inteligente, de boa 
estirpe e não desprovido de recursos. 
Teria fisionomia agradável, se não fosse o 
seu aspecto zangado e fúnebre, e possui modos 
encantadores. O futuro está aberto à sua frente. Mas, 
quando é perguntado a respeito, não tem plano algum 
para o futuro. Não sabe o que vai acontecer com ele e 
receia o pior. Todas as esperanças, tão boas, tão 
corretas e tão verdadeiras, são afogadas pelas suas 
lamentações; o futuro, diz ele, o está olhando de 
soslaio e sarcasticamente. 
 
3) Análise do problema. 
No parágrafo precedente, as queixas do 
paciente foram classificadas em quatro rubricas. Foi 
possível, de cada vez, estabelecer contradição entre a 
opinião do paciente e os fatos da realidade. Embora 
sendo verdade que nem todos os pacientes 
psiquiátricos chamam a atenção para essas quatro 
contradições mencionadas, não é raro que, ao 
ouvirmos a história de uma pessoa mentalmente 
perturbada, ouçamos pelo menos uma parte 
(geralmente grande parte) do que acima foi resumido. 
Já tenho salientado que não adianta pôr o paciente em 
confronto com essas contradições; isto é um fato bem 
conhecido pelos psiquiatras e pelos psicoterapeutas. 
Além disso, o paciente está cansado e enojado com 
esta espécie de discussão. Já ouviu inúmeras vezes 
dos parentes, amigos e conhecidos a afirmação de 
que as suas opiniões estão erradas. Essas discussões 
nunca lhe fizeram bem; pelo contrário, causaram-lhe 
irritação e mal-estar. Consulta então um 
psicoterapeuta a fim de ouvir uma resposta diferente. 
E ele consegue outra resposta, de acordo com a 
corrente de pensamento geralmente seguida pelo 
psicoterapeuta. 
Quando o paciente declara que as casas 
parecem estar na iminência de ruir e que as campinas 
não têm cor nem vida; em outras palavras, que o 
mundo parece diferente durante os momentos em que 
está apavorado, o psicoterapeuta não sente a menor 
tendência a compartilhar da crença de que as coisas e 
os próprios objetos mudaram. Continua a considerar 
corretas suas próprias observações e incorretas as do 
paciente. O paciente deve estar enganado; neste 
ponto o médico concorda com os parentes, amigos e 
conhecidos do paciente. Mas o psicoterapeuta não o 
diz abertamente. Não quer confrontar o paciente com 
o seu erro. Em primeiro lugar, porque sabe que o 
paciente não se dará por convencido. E, em segundo 
lugar, porque está ciente que essa declaração não 
contribuiria à melhora do doente. Mas, acima de 
tudo, porque, de certo modo, concorda com o 
paciente. Os parentes e amigos estão certos, mas o 
paciente também está. Alguma coisa realmente 
mudou; quanto a isto o paciente não está errado. Mas 
não foi o mundo exterior que mudou. Foi o próprio 
paciente, o sujeito, que se tornou mentalmente 
perturbado, o que significa que mudou. O paciente 
está enganado na localização da mudança. O 
psicoterapeuta acredita que o paciente transferiu o 
seu defeituoso estado de espírito para os objetos que 
percebe. Ou, para dizê-lo em palavras técnicas: o 
paciente projeta. Projeta sobre as coisas em volta 
dele tudo aquilo que, afinal, existe dentro de si. 
O conceito de projeção tem-se tornado 
familiar. Tanto assim que mal podemos — se é que 
podemos — compreender as dificuldades teóricas 
implícitas nesse conceito. E, de fato, ninguém foi 
ainda capaz de explicar de que modo a projeção se 
efetua. Seria necessário compreender que não há 
teoria aceitável para explicar de que maneira uma 
disposição de ânimo anormal, um distúrbio mental, 
isto é, alguma coisa dentro do paciente, possa sair 
dele, possa mover-se rumo a objetos do mundo 
externo, juntar-se e incorporar-se a eles, de tal forma 
que o paciente os perceba como realidade, perdendo 
simultaneamente a memória da realidade verdadeira. 
Porque uma coisa é certa: o mundo a que o paciente 
se refere, para ele é tão real quanto, para nós, o 
mundo em que vivemos. O seu mundo é, até mesmo, 
mais real que o nosso; pois, ao passo que podemos 
nos livrar do feitiço de uma paisagem depressiva, o 
paciente não é capaz de se liberar do seu lúgubre 
panorama. No caso que estamos estudando, o 
paciente chegou a isolar-se em seu quarto para evitar 
de ser perturbado pelos objetos que veria na rua. 
Pode este fato corresponder com o conceito de 
projeção? Assim que compreendemos o que significa 
a palavra projeção enfrentamos um enigma. 
Chegamos então às queixas sobre o estado 
físico. Nesse ponto o psicoterapeuta concorda, 
também, com os parentes e amigos do paciente. 
Compartilha da opinião de que o corpo do paciente 
está perfeitamente são. Mesmo que tenha tido, a 
princípio, algumas dúvidas, devidas à aparência 
sofredora do paciente, elas foram logo dissipadas 
pelos relatórios dos outros especialistas. Mesmo 
assim, o psicoterapeuta não presume que o paciente 
esteja usando de simulação ou sofrendo de doença 
imaginária. 
O paciente está realmente doente; ele sabe 
disso; mas a sua enfermidade não é aquela que ele 
pensa ter; não é um distúrbio físico, mas mental. Está 
colocando a sua enfermidade mental no lugar dos 
seus órgãos físicos. O psiquiatra dá a essa mudança o 
nome de conversão. O paciente converte. 
Eis uma segunda palavra que tem sido 
geralmente adotada em psiquiatria: conversão. Não é 
óbvio que esse conceito seja tão obscuro como o 
 
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conceito de projeção? Vejamos o que esta palavra 
implica. O arrazoado é este: o ser humano consiste de 
duas partes, o corpo e a alma. As duas partes são 
diferentes uma da outra. Ao contrário da alma, o 
corpo é visível e retalhável, é uma coisa. A alma, de 
acordo com a opinião geral, está contida dentro desta 
coisa. É difícil dizer exatamente em que lugar. 
Falharam todos os esforços para descobrir a 
localização da alma. No entanto, determinados 
órgãos são necessários para a existência da vida 
mental. O coração é um deles. O cérebro é ainda mais 
indispensável. E, quanto ao cérebro, é especialmente 
a sua parte central que tem sido relacionada com o 
que se designa por alma. Verdade é que ainda não se 
sabe como é feita a conexão. Ao dissecar esses 
órgãos, nunca foram encontrados pensamentos, 
desejos ou recordações; nunca se localizou o medo, a 
esperança, o amor ou o ódio. Nada que se pudesse 
chamar de alma foi encontrado dentro do corpo. Mas 
isto não nos surpreende, pois não é verdade que 
tínhamos partido da suposição de que a alma é 
invisível e não pode ser dissecada? Neste caso, ela 
não ocupa espaço. Mas então deve ser errado 
presumir que a alma se encontre dentro do corpo. 
Aquilo que não ocupa espaço não pode estar dentro 
ou fora de coisa alguma. A suposição de que o 
homem tem um corpo e uma alma e que esta alma, 
que não ocupa espaço, está contida dentro do corpo 
tridimensional é, afinal de contas, bastante obscura. 
O conceito de que as dificuldades mentais se 
expressam fisicamente é a transposição de um hiato 
metafísico. Ninguém sabe exatamente o que significa 
esta concepção. 
Todavia, supondo