O paciente psiquiátrico   Van Den Berg
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O paciente psiquiátrico Van Den Berg


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que exista, dentro do 
corpo, algo parecido com uma alma inespacial, como 
conceber que essa alma, sem espaço nem matéria, 
possa afetar a matéria do corpo? Filósofos como 
Descartes e Leibniz meditaram em vão sobre isso. 
Dizer que uma coisa incorpórea possa influir 
materialmente sobre um corpo físico não é 
explicação válida. A idéia é até contraditória — é 
uma impossibilidade intrínseca. Foi Leibniz que 
chegou a esta conclusão, formulando, em 
conseqüência, a teoria de que, desde a criação, corpo 
e alma seguem seus caminhos separados, como dois 
sistemas divididos e fechados em si mesmos. Entre 
esses caminhos o Criador, desde o começo, teria 
estabelecido um paralelismo tão rigoroso que nós, 
iludidos pelas aparências, supusemos haver um 
contato continuo entre ambos. Para cada ato, não 
haveria uma decisão conduzindo para o fato, mas a 
decisão e o fato resultariam ambos, 
independentemente, de seqüências independentes de 
eventos, partindo da Criação; uma seqüência de 
eventos para o corpo e uma seqüência de eventos 
para a alma. 
 Ninguém mais acredita nessa teoria, nem 
naquela de Descartes, que julgava fosse a glândula 
pineal — situada no centro do cérebro — o lugar 
inimaginável e até mesmo oculto, onde o corpo e a 
alma estariam interligados 
 Deve o psiquiatra quebrar a cabeça com 
esses problemas filosóficos? A pergunta está mal 
formulada. O psiquiatra que fala de conversão já é 
filósofo, portanto não há razão para que deixe de se 
preocupar com a sua filosofia. É preciso compreender 
que não se pode falar de conversão, sem estar 
previamente convencido de que, além do corpo, 
existe a alma e que esta alma, situada dentro do 
corpo, mantém contato com este corpo. A não 
aceitação dessa filosofia terá como resultado a 
adoção de outra interpretação para o fato de que uma 
pessoa, mentalmente perturbada, se queixa a respeito 
de seu corpo. O próximo capítulo será dedicado à 
outra filosofia e à interpretação das queixas físicas 
que dela resultam. 
Mas, antes disso, um comentário sobre a 
irracionalidade da idéia de que o paciente converte. 
Se é fato que os distúrbios que provocam os males 
físicos do paciente, são de origem antes mental do 
que física, então o que leva o paciente a insistir sobre 
as suas dores físicas? Seria mais plausível que 
insistisse sobre os seus distúrbios mentais, relatando 
a seguir os respectivos efeitos sobre seu corpo. Mas o 
que ouvimos do paciente é história completamente 
diferente; fala de palpitações, tensão no estômago, de 
um círculo que aperta a cabeça, de fraqueza nas 
pernas e canseira nos braços. É verdade que, 
ocasionalmente, menciona sintomas que poderiam ser 
chamados mentais: sente nervosismo, ansiedade e 
irritação. Mas ele mede sua nervosidade pelo 
sentimento de agitação do seu peito, pela pressão na 
sua garganta e pelo tremor dos dedos, das mãos e de 
todo o corpo. Localiza sua ansiedade na região do 
coração. O que mais lhe desagrada é o mau gosto na 
boca e uma sensação de náusea na garganta. 
 Quase nos inclinamos a pensar que a 
conversão existe no sentido inverso: que o mal-estar 
físico é real, dele derivando o mental. Os mal-estares 
físicos não dão a impressão de serem mal-estares 
convertidos. Na descrição do paciente, a doença 
física é a mais real. 
 Vou abandonar agora este tema para observar 
que linha de raciocínio é seguida pelo psicoterapeuta, 
quando ouve o que o paciente pensa das outras 
pessoas. Pode ser dito de início que o psicoterapeuta, 
bem como os parentes do paciente, não está 
inclinado, via de regra, a acreditar no que diz o 
paciente. Não pode ser verdadeiro que quase toda a 
gente queira fazer-lhe mal. O paciente faz do 
próximo idéia errada. Deve estar enganado. Está 
errado quando pensa que todos os homens 
prejudicam a sua liberdade pessoal e que todas as 
mulheres são criaturas desprezíveis, que o perturbam 
com as suas atrações físicas. Como foi que o paciente 
 
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ficou apanhado por essa incompreensão? Para tal 
pergunta, o psicoterapeuta tem resposta decisiva. Diz 
que, na realidade, as dificuldades do paciente 
relacionam-se apenas com os seus pais. Em sua 
infância, alguma coisa não deu certo. A sua educação 
não foi verdadeira educação, foi antes obstáculo ao 
seu amadurecimento. As relações do paciente com 
seu pai tornaram-se tensas; esteve desde então 
combatendo o pai e ainda continua a fazê-lo, com a 
particularidade de ter agora transferido a cena do 
combate para as suas relações com os outros homens. 
Quanto à sua mãe, o paciente teve que se defender, 
em sua infância, contra o seu excesso de indulgência 
e a sua influência muito dominadora. Não conseguiu 
liberar-se da mãe, como não conseguiu livrar-se do 
pai. Mas, do mesmo modo que na luta contra o pai 
(transferida em luta contra outras pessoas), ele 
desistiu de lutar contra a mãe. Em vão, porque 
ninguém pode deixar atrás de si coisa tão inacabada. 
Tem de continuar a luta, e é o que está fazendo. Mas 
em vez de lutar para se livrar da mãe, ele combate 
todas as mulheres que encontra. Transporta as 
emoções destinadas à sua mãe para outras mulheres. 
Tornou-se vítima da transferência. 
 Aqui encontramos uma terceira palavra, que 
se tornou lugar-comum em psiquiatria: transferência, 
a transmissão de sentimentos — e de todas as 
dificuldades de contato que os acompanham — de 
uma pessoa para outra, sendo a primeira pessoa 
aquela com quem o paciente está realmente em 
dificuldades, enquanto a segunda nada tem a ver com 
essas complicações. O psicoterapeuta presencia 
impressionantes exemplos de transferência. Às vezes, 
ele próprio vem a ser a pessoa a quem o paciente 
transfere as suas emoções. Mais cedo ou mais tarde, 
o paciente em tratamento passa a nutrir para com o 
médico, sentimentos que deveriam ser dirigidos a 
outras pessoas. O psicoterapeuta é odiado, sem ter 
dado motivo algum para isso; ou é amado, sem que 
haja razão concreta para o amor. O tratamento 
explica geralmente os motivos que levam o paciente 
a agir desse modo. Em seu ódio, por exemplo, ele 
deixa transparecer particularidades do seu passado 
contato com o pai, a mãe, o irmão ou a irmã. Seu 
amor é uma cópia do amor transviado ou insatisfeito 
que nutriu para com uma das personagens da sua 
infância. Aquilo que ficou inacabado antes, continua 
agora no consultório do terapeuta. O psicoterapeuta 
não se preocupa com isso. Sabe que esta é a maneira 
pela qual o paciente encontra a cura. Aceita a 
transferência — embora não seja em forma concreta; 
isto é, a transferência de ódio nunca chega a vias de 
fato, e a de amor, a um abraço. Mas, fora disso, tudo 
é permitido. O terapeuta oferece ao paciente a 
oportunidade de expressar os seus afetos de 
antigamente e de se livrar das incompreensões em 
que se viu enleado. A história afetiva do sujeito, que 
não chegara a termo nos períodos anteriores, é trazida 
para conclusão no consultório do médico. O 
tratamento do paciente parece consistir apenas no 
tratamento da transferência. Assim o terapeuta nunca 
pode pôr em dúvida a realidade da transferência 
 O paciente fica bom; não é isto prova da 
correção da opinião do médico? Independentemente 
desta evidência, a pergunta justifica-se para 
comprovar a verdade dos argumentos teóricos que 
servem de base ao conceito de transferência. De fato, 
até mesmo um conceito que resulte satisfatório na 
prática, pode ser baseado em erro. Para comprovar 
esta teoria, vou partir do exemplo seguinte. 
Durante a infância, um paciente começou a 
odiar a sua mãe, porque ela jamais lhe dava a menor 
liberdade. Agora, odeia a todas as mulheres. A linha 
de raciocínio é a seguinte: o paciente transfere para 
outras mulheres o ódio que sente pela mãe. Esta 
estrutura de pensamento pressupõe que um afeto, ou 
seja, o ódio, possa ser desligado do seu objeto. Deve 
existir então alguma coisa