tornar se pessoa carl rogers
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tornar se pessoa carl rogers


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como pessoas separadas em todo seu direito, nessa
altura vejo que tendem a orientar-se em determinadas direções. E quais são essas direções que os seus
movimentos subentendem? As palavras que julgo descreverem com maior veracidade essa direção são:
positiva, construtiva, tendente à auto-realização, progredindo para a maturidade e para a socialização. Acabei
por me convencer de que quanto mais um indíviduo é compreendido e aceito, maior sua tendência para
abandonar as falsas defesas que empregou para enfrentar a vida, maior sua tendência para se mover para a
frente.
Não gostaria de ser mal compreendido. Não tenho uma visão ingenuamente otimista da natureza humana.
Tenho perfeita consciência do fato de que, pela necessidade de se defender dos seus terrores íntimos, o
indivíduo pode vir a se comportar e se comporta de uma maneira incrivelmente feroz, horrorosamente
destrutiva, imatura, regressiva, anti-social, prejudicial!
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Mas um dos aspectos mais animadores e revigorantes da minha experiência é o trabalho que levo a cabo com
indivíduos desse gênero, e a descoberta das tendências orientadas muito positivamente existentes neles todos,
e em todos nós, nos níveis mais profundos.
Permitam-me concluir essa longa lista com uma última descoberta, que pode exprimir-se de maneira breve
como segue: a vida, no que tem de melhoi é um processo que flui, que se altera e onde nada está fixo. É nos
meus clientes e em mim mesmo que descubro que a vida é mais rica e mais fecunda quando aparece como
fluxo e como processo. Essa descoberta provoca uma fascinação e, ao mesmo tempo, um certo temor. Quando
me deixo levar pelo fluir da minha experiência que me arrasta para a frente, para um fim de que estou
vagamente consciente, é então que me sinto melhor. Nesse flutuar ao sabor da corrente complexa das minhas
experiências, tentando compreender a sua complexidade em permanente alteração, toma-se evidente que não
existem pontos fixos. Quando consigo abandonar-me completamente a esse processo, é claro que não pode
haver para mim nenhum sistema fechado de crenças, nenhum campo imutável de princípios a que me agarrar.
A vida é orientada por uma compreensão e por uma interpretação variáveis da minha experiência. A vida é
sempre um processo de devir.
Penso que é possível agora ver claramente por que razão não existe filosofia, crença ou princípios que eu
possa encorajar ou persuadir os outros a terem ou a alcançarem. Não posso fazer mais do que tentar viver
segundo a minha própria interpretação da presente significação da minha experiência, e tentar dar aos outros a
permissão e a liberdade de desenvolverem a sua própria liberdade interior para que possam atingir uma
interpretação significativa da sua própria experiência.
Se existe uma verdade, este livre processo individual deverá, assim o creio, convergir para ela. E, dentro de
certos limites,
parece-me ter sido isto o que vivi.
Segunda Parte
Como poderei ajudar os outros?
Descobri uma maneira de trabalhar com as pessoas que parece fecunda em potencialidades
constitutivas.
Capítulo 2
Algumas hipóteses com relação à facilitação do crescimento pessoal
Os três capítulos que constituem a Segunda Parte abarcam um período de seis anos, de 1954 a 1960.
Curiosamente, eles transpõem um grande segmento do país dado o local onde foram apresentados \u2014 Oberlin,
Ohio; St. Louis, Missouri; e Pasadena, Cali/árnia. Também cobrem um período em que muita pesquisa vinha
se acumulando, de maneira que as afirmações proferidas de Jà rma experimental no primeiro trabalho são
firmnemente confirmadas ao tempo do terceiro trabalho.
Na seguinte palestra apresentada em Oberlin C\u2019ollege em 1954, tentava condensar no tempo mais breve
possível osprincípios fundamentais de psicoterapia que foram expostos de forma mais delongada etn meus
livros Counseling and Psycotherapy (1942) e Client Centered Therapy (1951). Interessa-me apresentar
a relação de facilitação, e os resultados, sem rejërir-me à descrição do processo por meio do quQi a
mudança ocorre, ou tnesmno a comentários sobre o mesmo.
Estar frente a frente com uma pessoa perturbada e em conflito, que está procurando e esperando
ajuda, sempre constituiu para mim um grande desafio. Será que eu disponho do conhecimento, dos
recursos, da força psicológica, da habilidade \u2014 ou do que quer que seja necessário para ajudar este
indivíduo?
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Tornar-se pessoa Como poderei ajudar os outros?
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Por mais de vinte e cinco anos venho tentando responder a esse tipo de desafio. Isso fez com que recorresse a
todos os elementos de minha formação profissional: os rigorosos métodos de medição de personalidade que
aprendi pela primeira vez no Teacher\u2019s Coliege, Colúmbia; os insights e métodos psicanalíticos freudianos do
Instituto para Orientação da Criança, onde trabalhei como interno; os desenvolvimentos contínuos na área de
psicologia clínica, com a qual estou estreitamente associado; a exposição mais breve ao trabalho de Otto
Rank, aos métodos de trabalho social psiquiátrico, e outros recursos demasiado numerosos para serem
mencionados. Porém, mais do que tudo, isto significou um aprendizado contínuo a partir de minhas próprias
experiências e daquela de meus colegas do Centro de Aconselhamento, à medida que tentamos descobrir por
nós mesmos meios eficazes de trabalhar com pessoas perturbadas. Gradualmerrte, desenvolvi uma maneira de
trabalhar que se origina dessa experiência, e que pode ser testada, refinada e remodelada por experiências e
pesquisas adicionais.
Uma hipótese geral
Uma maneira breve de descrever a mudança que se efetuou em mim seria dizer que nos primeiros anos de
minha carreira profissional eu me fazia a pergunta: Como posso tratar ou curar, ou mudar essa pessoa? Agora
eu enunciaria a questão desta maneira: Como posso proporcionar uma relação que essa pessoa possa utilizar
para seu próprio crescimento pessoal?
Foi quando cheguei a colocar a questão desta segunda maneira que percebi que o que quer que tenha
aprendido é aplicável a todos às minhas relações humanas, não só ao trabalho com clientes com problemas. É
por esta razão que sinto ser possível que os aprendizados que tiveram significado para mim em minha
experiência podem ter algum significado para você em sua experiência, já que todos nós estamos envolvidos
em relações humanas.
Talvez devesse começar por um aprendizado negativo. Fui me dando conta de maneira gradual de
que não posso oferecer ajuda a esta pessoa perturbada por meio de qualquer procedimento
intelectual ou de treinamento. Nenhuma abordagem que se baseie no conhecimento, no treinamento,
na aceitação de algo que é ensinado, se mostra útil. Estas abordagens parecem tão tentadoras e
diretas que, no passado, fiz uso de muitas delas. É possível explicar uma pessoa a si mesma,
prescrever passos que devem conduzi-la para frente, treiná-la em conhecimentos sobre um modo de
vida mais satisfatório. Porém tais métodos se mostram, em minha experiência, fúteis e
inconseqüentes. O máximo que podem alcançar é alguma mudança temporária, que logo
desaparece, deixando o indivíduo mais do que nunca convencido de sua inadequação.
O fracasso de quaisquer destas abordagens através do intelecto me forçou a reconhecer que a
mudança parece surgir por meio da experiência em uma relação. Dessa forma, estou tentando
afirmar de forma muito breve e informal, algumas das hipóteses essenciais relativas a uma relação
de ajuda que pareceu angariar confirmação crescente tanto a partir de experiência quanto de
pesquisa.
Posso enunciar a hipótese geral em uma sentença, como se segue. Se posso proporcionar um certo
tipo de relação, a outra pessoa descobrirá dentro de si a capacidade de utilizar esta relação para
crescer, e mudança e desenvolvimento pessoal ocorrerão.
A relação
Mas o que estes termos significam? Deixe-me tomar separadamente as três frases principais nesta
sentença e indicar algo do significado que elas encerram