tornar se pessoa carl rogers
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tornar se pessoa carl rogers


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esses objetivos), coloquemos a única questão que pode fazer realmente progredir a ciência. E a
questão é esta: \u201cQual é a natureza deste processo? Quais parecem ser suas características intrínsecas, que
direção ou direções adota, e quais são, se é que existem, os pontos de chegada deste processo?\u201d. Quando
Benjamin Franklin observava a faísca que saltava da chave presa na corda do seu papagaio, não se preocupou,
felizmente, com a aplicação imediata e prática da sua descoberta. Pelo contrário, começou a perguntar que
processo básico tomavam possível um tal fenômeno. Embora muitas das respostas que surgiram estivessem
cheias de erros específicos, a busca era fecunda porque se fizera a pergunta adequada. Pela mesma razão,
peço insistentemente que se proceda da mesma maneira em relação à psicoterapia, e se procure com a mente
aberta descrever, estudar e compreender o processo básico em que se fundamenta a terapia, ao invés de falseá-
lo para que se adapte às nossas necessidades clínicas, aos nossos dogmas preconcebidos ou aos elementos
evidentes em qualquer outro domínio. Examinemo-lo pacientemente para saber o que ele é em si mesmo.
Tentei recentemente elaborar uma descrição da terapia centrada no cliente (3). Não vou repetir aqui essa
descrição, senão para dizer que dos dados provenientes da prática e da investigação parecem emergir certas
características persistentes no processo: aumento do discernimento quanto ao mundo interno da maturidade
dos comportamentos relatados, de atitudes mais positivas, à medida que a psicoterapia progride; alterações da
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Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa
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percepção e da aceitação de si; incorporação de experiências previamente negadas na estrutura do eu;
mudança de orientação da fonte de avaliação, passando do exterior para o interior; transformações na relação
terapêutica; alterações características na estrutura da personalidade, no comportamento e nas condições
fisiológicas.
Seja qual for a imperfeição de algumas dessas descrições, elas representam uma tentativa de compreensão do
processo da terapia centrada no cliente tal como ele é em si mesmo, como se revela na experiência clínica, na
gravação integral das entrevistas e em mais de quarenta estudos que se fizeram nesse campo.
Meu objetivo nesse capítulo é ir mais além desse material e formular algumas tendências da terapia que pouco
se enfatizou. Gostaria de descrever algumas das direções e dos pontos de chegada que parecem ser inerentes
ao processo terapêutico e que só recentemente começamos a distinguir com suficiente clareza; que parecem
representar ensinamentos muito significativos, mas sobre os quais ainda não existem trabalhos de
investigação. Procurando representar da maneira mais adequada estes elementos, vou buscar exemplos nas
entrevistas gravadas com uma cliente. Limitarei igualmente minha discussão aç processo terapêutico centrado
no cliente, pois cheguei à conclusão, embora relutante, de que é possível que o processo, as direções e os
pontos de chegada da terapia variem conforme as orientações terapêuticas.
A vivência do eu potencial
Um dos aspectos do processo terapêutico que se toma evidente em todos os casos pode designar-se como a
consciência da experiência ou mesmo como \u201ca vivência da experiência\u201d. Empreguei nesse ponto a expressão
\u201cvivência do eu\u201d, embora essa expressão não seja completamente exata. Na segurança da relação com um
terapeuta centrado no cliente, na ausência de qualquer ameaça presente ou possível contra o eu, o cliente pode
permitir-se examinar diversos aspectos da sua experiência
exatamente da mesma maneira que os sente, tal como os apreende através do seu sistema sensorial e visceral,
sem os distorcer para adaptá-los ao conceito existente de eu. Muitos desses aspectos revelam-se em extrema
contradição com o conceito de eu e não poderiam normalmente ser experimentados plenamente, mas, nessa
relação de confiança, o cliente pode permitir que se manifestem na consciência sem sofrerem uma
deformação. Seguem então muitas vezes o seguinte esquema: \u201cEu sou isso e aquilo, mas experimento esse
sentimento que não tem qualquer relação com aquilo que sou\u201d; \u201cGosto dos meus pais, mas sinto um
surpreendente rancor em relação a eles, de tempos em tempos\u201d, \u201cRealmente não valho nada, mas às vezes
tenho a impressão de ser melhor do que qualquer um\u2019. Assim, de início, a expressão é: \u201cSou um eu que é
diferente de uma parte da minha experiência.\u201d Mais tarde, isso se transforma num esquema provisório:
\u201cTalvez eu seja alguns eus muito diferentes, ou talvez o meu eu encerre mais contradições do que aquelas que
eu imaginava.\u201d Mais tarde ainda, o esquema é: \u201cTinha certeza de que eu não podia ser a minha experiência \u2014
era demasiado contraditória \u2014 mas agora começo a acreditar que posso ser o todo da minha experiência:\u2019
Talvez possa fazer compreender algo da natureza desse aspecto da psicoterapia, utilizando excertos das
entrevistas com a Sra. Oak. A Sra. Oak, dona de casa, casada, perto dos quarenta anos, tinha dificuldades
conjugais e com a família quando veio se tratar. Ao contrário de muitos clientes, interessava-se viva e
espontaneamente pelos processos que sentia desenrolarem-se dentro de si, e as entrevistas gravadas contêm
muito material, conforme seu próprio quadro de referência, sobre sua percepção do que estava acontecendo.
Tinha assim tendência para exprimir o que parece estar implícito em muitos clientes, mas que estes não
formulam verbalmente. É essa a razão pela qual a maior parte dos excertos nesse capítulo foram tirados desse
caso.
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O processo de tornar-se pessoa
Tornar-se pessoa
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No início da quinta sessão, ela descreve a sua tomada de consciência do que vínhamos discutindo.
Cliente: Tudo isso é muito vago. Mas quer saber a idéia que me ocorre constantemente: para mim todo esse processo é
exatamente como se estivesse examinando peças de um quebra-cabeça. Agora parece-me que estou examinando os
fragmentos que não querem dizer realmente grande coisa. Provavelmente tenho- os simplesmente na mão, mas sem
conseguir sequer ver o desenho. É isto o que me ocorre constantemente. E acho isso interessante, porque a verdade é que
detesto quebra-cabeça. Sempre me irritaram. Mas é isso o que sinto. Quer dizer que pego nos pedacinhos (ela gesticula
durante a conversa para ilustrar suas afirmações) que não têm absolutamente nenhum sentido, exceto o fato de sentir que
os tenho simplesmente na mão sem ver onde os colocar, mas só por pegá-los penso que eles devem se encaixar em algum
lugarfr aqui.
Terapeuta: Pois bem, de momento é esse o processo, está precisamente sentindo a textura, a forma e a configuração dos
diferentes elementos, com uma vaga idéia de fundo de que, de fato, isso se deve trrumar de alguma maneira, mas a maior
parte da atenção está concentrada sobre: \u201cQual é a sensação que isso me provoca? Qual é a sua textura?\u201d
C: É isso. É como uma coisa fisica. Um, um...
1\u2019: Não é capaz de descrevê-lo sem usar as mãos. Um sentimento real, quase sensorial...
C: É isso mesmo. De novo é, é um sentimento de ser muito objetiva e, contudo, nunca estive tão próxima de mim mesma.
T: Assim como se estivesse fora de você olhando-se e, ao mesmo tempo, de alguma forma estando mais próxima de si do
que...
C: Hum... Sim... e, no entanto, pela primeira vez em muitos meses não estou pensando nos meus problemas. De fato não
estou, não estou trabalhando neles.
T: Tenho a impressão de que não está de nenhum modo trabalhando na resolução dos \u201cmeus problemas\u201d. Não é esse o
sentimento, de modo algum.
C: Está certo. Está certo. Suponho que o que eu realmente queria dizer era que não estou procurando reunir o
quebra-cabeça, como, como alguma coisa de que eu tivesse que ver no desenho. Talvez, pode ser que eu, de
fato, esteja gostando desse processo de sentir. De qualquer modo, com certeza estou aprendendo alguma
coisa.
T: Pelo menos, há uma impressão de que aquilo que conta no imediato é