tornar se pessoa carl rogers
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tornar se pessoa carl rogers


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outros, que isso não faz necessariamente mal,
que na realidade \u201cuma pessoa sente-se bem\u201d quando tem alguém consigo nas lutas para enfrentar a vida \u2014 este
é talvez um dos mais profundos aprendizados que o indivíduo poderá encontrar, estando ou não em terapia.
A Sra. Oak descreve alguns aspectos da novidade e do nível não-verbal dessa experiência no fim da trigésima
sessão.
C: Estou tendo uma experiência de um novo tipo, um... provavelmente a única lição que vale a pena, um... eu
sei que tenho... eu sempre disse que o que sei não me ajuda aqui. O que eu quero dizer é que os
conhecimentos que adquiri não me servem de ajuda. Contudo, parece-me que o processo de aprendizagem
aqui foi de tal modo dinâmico, de tal maneira uma parte de... uma parte de tudo, ou seja, de mim, se eu não
tirar senão isso, é alguma coisa que... enfim, espanto-me se algum dia for capaz de expor em forma de
conhecimento o que aqui experimentei.
T: Em outras palavras, o que aqui aprendeu foi de um tipo completamente diferente e um nível muito mais
profundo, muito vital, muito real. E foi muito importante para si, mas a questão que coloca é esta: será que
poderei formar uma imagem intelectual clara do que se passou nesse nível de aprendizagem mais
profundo?
C: Hum... qualquer coisa assim.
Aqueles que pretendessem aplicar à terapia as chamadas leis da aprendizagem, extraídas da memorização de
sílabas sem sentido, fariam bem em estudar este excerto cuidadosamente. A aprendizagem tal como ocorre na
terapia é algo total, organísmico, freqüentemente não-verbal, que pode seguir ou não os princípios que regem
a aprendizagem intelectual de dados sem importância e sem qualquer relação com o eu. Isto, porém, é uma
digressão.
Concluamos esta seção reformulando os seus aspectos essenciais. Parece ser possível que uma das
características da terapia profunda ou significativa é que o cliente descobre que não é destrutivo admitir
plenamente na sua própria experiência o sentimento positivo que uma outra pessoa, o terapeuta, mantém em
relação a ele. Talvez uma das razões que tornam essa experiência tão dificil é que ela implica
fundamentalmente a aceitação desse sentimento: \u201cEu sou digno de que gostem de mim.\u201d É
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Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa
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este o ponto que vamos estudar na seção seguinte. De momento, pode se sublinhar que esse aspecto da terapia
é uma vivência livre e total de uma relação afetiva que se pode formular em termos gerais da seguinte
maneira: \u201cPosso permitir que alguém se preocupe comigo e posso aceitar plenamente sem qualquer reserva
esse interesse. Isto me permite reconhecer que eu também me preocupo e me interesso profundamente pelos
outros.\u201d
A afeição em relação a si mesmo
Nos vários artigos e pesquisas publicados sobre a terapia centrada no cliente, insistiu-se na aceitação de si
como sendo uma das direções e um dos resultados da terapia. Estabelecemos o fato de que, numa psicoterapia
bem-sucedida, as atitudes negativas em relação ao eu diminuem e as atitudes positivas aumentam. Medimos o
aumento progressivo da aceitação de si e estudamos p Gçscimento correlativo da aceitação do outro. Mas, ao
examiiiar essas fórmulas e ao compará-las com o nossos casos mais recentes, ficamos com a impressão de que
não são inteiramente verídicas, O cliente não apenas se aceita \u2014 expressão que pode arrastar consigo a
conotação de uma aceitação relutante e sem agrado do inevitável \u2014 mas chega a gostar de si verdadeiramente.
Não se trta de uma presunção ou de uma maneira de se afirmar: é mais uma satisfação tranqüila de ser quem
se é.
A Sra. Oak ilustra perfeitamente esse aspecto na trigésima terceira entrevista. É significativo que essa
entrevista se passe dez dias depois daquela em que foi capaz de admitir, pela primeira vez, que o terapeuta se
interessava realmente pelo seu caso? Sejam quais forem as nossas teorias sobre esse ponto, esse fragmento
traduz muito bem a alegria tranqüila de ser quem se é, ao mesmo tempo que a atitude de desculpa que, na
nossa cultura, as pessoas pensam que se deve ter em face de uma experiência desse gênero. Nos últimos
minutos da entrevista, sabendo que o seu tempo está prestes a terminar, ela diz:
C: Uma coisa que me incomoda.., eu vou ser breve porque posso em qualquer momento voltar a isso... um
sentimento que eu nem sempre posso repelir, O sentimento de estar completamente satisfeita comigo mesma.
Outra vez a técnica Q2. Saí daqui uma vez e impulsivamente tirei o meu primeiro cartão, \u201ceu sou uma
personalidade atraente\u201d; olhei para o cartão com uma certa consternação, mas deixei-o lá, isto é,
honestamente era isso exatamente o que eu pensava, enfim, isto aborreceu-me e agora compreendi o que se
passa. De tempos em tempos, tenho como que um sentimento agradável, nada superior, mas precisamente...
não sei... mas agrada-me. É muito nítido. E isso aborreceu- me. No entanto, admiro-me... raramente me
lembro das coisas que aqui disse, mas perguntei a mim mesma por que é que estava convencida e ao mesmo
tempo refletia sobre o que senti, quando magoada... é o que sinto quando ouço alguém dizer a uma criança
\u201cnão chores\u201d. Sempre pensei: não está certo, se ela chora é porque tem um desgosto, deixem-na chorar. Pois
bem, esse sentimento de satisfação que eu tenho... comecei recentemente a sentir que é... algo de muito
parecido. E... nós não nos opomos a que as crianças se sintam satisfeitas consigo mesmas. É... quer dizer,
não é realmente vaidade. E... talvez seja assim que as pessoas devam sentir.
T: Você quase se censurou por experimentar esse sentimento e, apesar de tudo, vai mais longe e consegue ver
os dois aspectos da realidade: se uma criança tem vontade de chorar, por que é que não há de chorar? E se
quer sentir-se satisfeita consigo mesma, não terá o pleno direito de se sentir satisfeita consigo mesma? E isso
parece estar relacionado com o que está dizendo, que me parece ser uma apreciação de si mesma que
experimenta de tempos em tempos.
C: Sim, sim.
T: \u201cSou realmente uma pessoa bastante rica e interessante.\u201d
C: Algo de semelhante a isso. E então digo a mim mesma:
\u201cA nossa sociedade nos obriga a dar voltas e o perdemos\u201d. E volto às minhas idéias sobre as crianças. Talvez
elas sejam mais ricas do que nós. Talvez nós... foi alguma coisa que nós perdemos quando crescemos.
T: Talvez elas tenham uma sabedoria que nós perdemos...
C: Deve ser isso. Acabou o meu tempo.
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O processo de tornar-se pessoa
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Tornar-se pessoa
Ela atinge nesse ponto, como muitos outros clientes, a realização, hesitante e constrangida, de que passou a gostar de si.
apreciar-se, estar contente consigo mesma. Temos a impressão de uma alegria espontânea, livre, de uma joie de vivre
primitiva, qualquer coisa de análogo às cambalhotas de um cabrito no prado ou dos saltos graciosos de um golfinho nas
ondas. A Sra. Oak tem a impressão de que se trata de uma coisa natural ao organismo, à criança recém-nascida, algo que
perdemos ao longo do processo do nosso crescimento.
Esse caso apresentou já um sinal precursor de tal sentimento, num incidente que talvez torne mais clara a sua natureza
fundamental. Na nona entrevista, a Sra. Oak revela com certo embaraço algo que sempre guardou para si. O fato de ela ter
tido dificuldade em exprimi-lo manifestou-se por ela ter feito preceder a confissão de uma pausa muito longa, que durou
alguns minuto..Depois falou:
C: Sabe, é completamente idiota, mas eu nunca disse isso a ninguém (ri nervosamente) e isto me fará bem. Durante anos,
talvez desde a minha juventude, tinha eu provavelmente dezessete anos, sentia o que designava para mim mesma como
\u201craios de sanidade\u201d. Nunca disse istoa ninguém (outro riso embaraçado) e, no entanto, nesses momentos, sentia-me
perfeitamente sã. E muito consciente da vida. E sempre com uma terrível preocupação, e uma grande tristeza, por ver até
que ponto nos enganávamos no caminho. É precisamente a sensação que tenho de tempos em tempos