tornar se pessoa carl rogers
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tornar se pessoa carl rogers


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a cabeça, desde sempre, com superstições, tabus, doutrinas e leis mal
compreendidas, e a sua ciência, os seus frigoríficos, as suas bombas atômicas. Mas eu não vou nisso;
entende,. eu.. a coisa não deu resultado. Eu penso que o que estou dizendo é isso, pois bem, eu não me
conformo, e é... bem, é justamente assim.
T: Sente neste momento que teve uma grande consciência de todas as pressões culturais.., nem sempre muito
consciente, mas \u201cexistiram tantas na minha viqa e agora desço mais profundamente em mim mesma para
saber o que verdadeiramente sinto\u201d e parece-me que presentemente está muito longe da sua civilização e isso
causa um certo receio, mas é ao mesmo tempo fundamentalmente bom. É isso...
C: Sim. Bem, nesse momento sinto que está tudo certo, realmente... Há ainda mais qualquer coisa... um
sentimento que começa a crescer; bem, que está quase formado. Uma espécie de conclusão, que eu vou deixar
de procurar algo de terrivelmente errado. Já não sei por quê. Mas, quero dizer, justamente... é esse tipo de
coisa. Estou quase dizendo a mim mesma aquilo que sei, aquilo que descobri.., estou praticamente segura de
que me desembaracei do medo e estou certa de que não recearei ter um choque.. ele até seria bem-vindo. Mas,
dado os lugares onde estive, o que aprendi, é preciso considerar também aquilo que não sei, é uma descoberta
que marcará urna data na minha vida. Entende?
E agora, sem qualquer espécie de desculpa ou tentativa de dissimulação, afirmo simplesmente que não sou capaz de
encontrar o que agora parece ser mau.
T: Surpreende-se com isso? À medida que for descendo cada vez mais profundamente em si mesma e for pensando no
que aprendeu e descobriu, torna-se cada vez mais forte a convicção de que, por mais longe que vá, não encontrará coisas
más e terríveis. Elas têm um caráter muito diferente.
C: Sim, é qualquer coisa desse tipo.
Nesse ponto, embora reconhecendo que a sua impressão vai contra o que ensina a sua cultura, sente-se obrigada a dizer
que o futuro de si mesma não é mau, nem terrivelmente defeituoso, mas é algo de positivo. Sob a camada de um
comportamento superficial controlado, sob a amargura e sob o sofrimento reside um eu que é positivo e que não sente
ódio. Creio que é essa a lição que os nossos clientes nos ensinam desde há muito tempo e que nós só tardiamente
aprendemos.
Se a ausência de ódio parece mais um conceito neutro ou negativo, vamos talvez deixar a Sra. Oak explicar-nos o seu
significado. Na sua trigésima nona entrevista, como sente que está próximo o fim da terapia, volta a referir-se a esse
aspecto.
C: Pergunto a mim mesma se devo esclarecer.., isso é claro para mim, e talvez seja isso o que realmente interessa, aqui, a
minha forte impressão sobre uma atitude sem ódio. Agora que nos situamos num campo racional, eu sei... isto parece
negativo. E contudo, na minha maneira de pensar, na minha.., não realmente de pensar, mas na minha maneira de sentir, e
também de pensar, sim de pensar também, é uma coisa muito mais positiva do que isso... do que o amor.., e a mim parece-
me mais fácil de realizar, muito menos limitativo. Mas.., compreendo que isto deva assemelhar-se a uma rejeição total de
muitas coisas, de muitas crenças, é talvez seja verdade. Não sei. Mas isso parece- me mais positivo.
T: Você é capaz de ver como isso pode parecer mais negativo para alguém de fora mas, para si, não parece tão restrito e
tão
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Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa
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possessivo, segundo creio, como o amor. É como se isso pudesse assumir os mais variados aspectos, ser mais
útil do que...
C: Sim.
T: ... qualquer destes termos mais restritos.
C: E como julgo que é. É mais fácil. Bem, de qualquer modo, é mais fácil para mim sentir deste modo. E não
sei. Parece- me que é como se eu tivesse encontrado um lugar onde não se é forçado a recompensar e onde se
é obrigado a castigar. É... muito importante. Parece-me precisamente estar a experimentar uma espécie de
liberdade.
T: Rum. Rum. Quando se fica livre da necessidade de recompensar ou de castigar, parece que todos se tornam
mais livres.
C: E isso (pausa). Estou preparada para algumas depressões pelo caminho.
T: Não está á espera que tudo caminhe por si.
C: Não.
Esta seção é .ftistória \u2014 muito resumida \u2014 da descoberta feita por uma cliente de que, quanto mais cavava em si
mesma, menos tinha a recear; que em vez de descobrir algo de terrivelmente errado, descobria gradualmente
um centro do seu eu que não pretendia nem recompensar nem castigar os outros, um eu sem ódio, um eu
profundamente socializado. Ousaremos generalizar a partir desse tipo de experiência e afirmar que, se
penetrarmos até a nossa natureza organísmica, chegaremos à conclusão de que o homem é um animal positivo
e social? É esta a sugestão que nos oferece a nossa experiência clínica.
Ser o seu próprio organismo, a sua própria experiência
O fio condutor que percorre quase todo o material apre sentado nesse capítulo é que a psicoterapia (pelo
menos aquela centrada no cliente) é um processo pelo qual o homem se torna seu próprio organismo \u2014 sem
deformação, sem se iludir sobre si mesmo. O que é que isto significa?
Falamos aqui de alguma coisa que se situa no nível da ex-
palavras e que, se só for apreendido no nível verbal, será, por isso mesmo, deformado. Talvez, se
empregarmos diversas fórmulas descritivas, consigamos um eco, por fraco que seja, na experiência do leitor
que o leve a dizer: \u201cAh, agora percebo. pela minha própria experiência, o que é que ele quer dizer\u201d.
A terapia parece ser um regresso às percepções sensoriais de base e à experiência visceral. Antes da terapia, o
indivíduo é levado a perguntar a si mesmo, muitas vezes sem qualquer intenção: \u2018O que é que os outros
pensam que eu devia fazer nessa situação?\u201d, \u201cO que é que os meus pais ou a minha cultura pretendem que eu
faça?\u201d, \u201cO que é que eu penso que é necessário fazer?\u201d. O indivíduo age assim constantemente segundo as
formas que seriam impostas ao seu comportamento. Isso não significa necessariamente que ele atue sempre de
acordo com as opiniões dos outros. Pelo contrário, o indivíduo pode procurar agir de forma a contradizer o
que os outros esperam dele. Ele age todavia sempre em função do que os outros esperam (muitas vezes reage
a expectativas introjetadas dos outros). Durante o processo terapêutico, o indivíduo acaba por perguntar a si
mesmo, a propósito de áreas cada vez mais vastas da sua experiência: \u201cComo é que eu vivencio isso?\u201d, \u201cO
que é que isso significa para mim?\u201d, \u201cSe eu me comporto dc determinada maneira, como é que eu simbolizo a
significação que isso terá para mim?\u201d. Ele acaba por chegar a uma maneira de agir em função do que se
poderia chamar um realismo \u2014 um realismo que oscila entre as satisfações e as insatisfações que a sua ação lhe
trouxer.
Talvez ajude aqueles que, como eu, têm tendência para pensar em termos concretos e clínicos, poder
esquematizar algumas dessas idéias em que se formula o processo vivido pelo paciente. Para um, isso pode
querer dizer: \u201cPensei que não devia ter senão amor pelos meus pais, mas descobri que sentia ao mesmo tempo
amor e um ressentimento amargo. Talvez eu seja uma pessoa capaz de sentir livremente ambas as coisas,
amor e ressentimento\u201d. Para um outro cliente, o aprendizado pode ser:
periência, de um fenômeno que não se traduz facilmente em
\u201cPensei que era apenas mau e sem valor. Agora, tenho por vezes
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Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa
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a impressão de ter muito valor; noutros momentos penso que não tenho muito valor nem muita utilidade.
Talvez eu seja uma pessoa que tem uma experiência variável do que vale\u201d. Para um outro: \u201cPensei que
ninguém poderia realmente gostar de mim por mim mesmo. Agora sinto a afeição de uma outra pessoa por
mim. Talvez eu seja uma pessoa que pode ser amada pelos outros, talvez eu seja essa pessoa\u201d. Para outro
ainda: \u201cEducaramme de forma a sentir que não devia apreciar a