tornar se pessoa carl rogers
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tornar se pessoa carl rogers


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não o vejo claramente
ou completamente, já que continuo mudando minha compreensão e entendimento do mesmo. Espero que o
leitor aceite este como um quadro atual e experimental, não como algo final.
Uma razão para ressaltar a natureza experimental daquilo que disse é que desejo deixar claro que não estou
dizendo: \u201cIsto é o que você deve se tomar; aqui está uma meta para você.\u201d Ao invés disso, estou dizendo que
estes são alguns dos significados que observo nas experiências que meus clientes e eu compartilhamos.
Talvez este quadro de experiência dos outros possa iluminar ou dar mais sentido a algumas de suas próprias
experiências.
Tenho ressaltado que cada indivíduo parece estar fazendo uma pergunta dupla: \u201cQuem sou eu? \u201ce \u201cComo
posso tornar-
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Espero que esta ilustração dê uma noção da força que é vivenciada quando se é uma pessoa única, responsável
por si, e também o desconforto que acompanha essa assunção de responsabilidade. Reconhecer que \u201csou
aquele que escolhe\u201d e \u201csou aquele que determina o valor de uma experiência para mim\u201d constitui tanto uma
realização animadora quanto assustadora.
Desejo de ser um processo
Gostaria de ressaltar uma característica final desses indivíduos à medida que lutam para descobrirem a si
mesmos e tomarem-se eles mesmos. E a de que o indivíduo parece se mostrar mais satisfeito em ser um
processo ao invés de um produto. Quando ingressa na relação terapêutica, o cliente provavelmente deseja
alcançar algum estado fixo; ele deseja chegar ao ponto em que seus problemas serão resolvidos, ou onde será
eficiente em seu trabalho, ou.or1e seu casamento será satisfatório. Ele tende, na liberdade da relação
terapêutica, a abandonar essas metas fixas, e aceitar uma compreensão mais satisfatória de que não constitui
uma entidade fixa, mas um processo de tomar-se.
Um cliente, na conclusão da terapia, diz de uma maneira bastante perplexa: \u201cEu não encerrei a tarefa de
integrar-me e reorganizar-me, mas isso é somente confuso, não desencoraja- dor, agora que percebo que este é
um processo contínuo... É excitante, algumas vezes preocupante, mas profundamente encorajador sentir-se
em ação, aparentemente sabendo para onde você se dirige mesmo que não saiba sempre conscientemente
onde é isto.\u201d Pode-se ver aqui tanto a expressão de confiança no organismo, que já mencionei, como também
a percepção do eu como um processo. Aqui está uma descrição pessoal da sensação de aceitar-se como um
curso do tomar-se, e não como um produto acabado. Significa que uma pessoa é um processo fluído, não uma
entidade fixa e estática; um rio corrente de mudanças, não um bloco de material sólido; uma constelação de
potencialidades continuamente mutáveis, não uma quantidade fixa de traços.
140 Tornar-se pessoa
me eu mesmo?\u201d. Tenho afirmado que num clima psicológico favorável um processo de tomar-se ocorre; que o
indivíduo deixa cair as máscaras defensivas com as quais vinha encarando a vida, uma após a outra; que ele
vivencia plenamente os aspectos ocultos de si mesmo; que descobre nessas experiências o estranho que vinha
vivendo por detrás destas máscaras, o estranho que é ele mesmo. Tentei exibir o meu quadro dos atributos
característicos da pessoa que aflora; uma pessoa que está mais aberta a todos os elementos de sua experiência
orgânica; uma pessoa que está desenvolvendo uma confiança em seu próprio organismo como um
instrumento de vida sensível; uma pessoa que aceita o foco de avaliação como residindo dentro de si mesmo;
uma pessoa que está aprendendo a viver em sua vida como um participante em uma processo fluído, contínuo,
em que está constantemente descobrindo novos aspectos de si mesmo no fluxo de sua experiência. Estes são
alguns dos elementos que me parecem estar envolvidos em tornar-se pessoa.
Capítulo 7
A psicoterapia considerada como um processo
No outono de 1956 tive a grande honra de receber da Associação Americana de Psicologia um dos três
primeiros prémios por contribuição científica. Havia no entanto uma obrigação ligada ao prémio, obrigação
que previa para um ano mais tarde que cada um dos premiados apresentasse um artigo para a Associação.
Resolvi que, em vez de dedicar um ano a uma nova tarefa, o melhor seria estudar o processo pelo qual a
personalidade se modifica. Assim fiz, mas, quando o outono se aproximava, compreendi que as idéias que
elaborara eram ainda pouco claras, provisórias, dificeis de apresenta,: Procurei, no entanto, transcrever as
confusas impressões que foram importantes para mim, das quais emergia um conceito de processo dijê rente
de tudo aquilo que antes vira com clareza. Quando terminei, verifiquei que escrevera um artigo demasiado
longo para poder ser entregue e, por isso, procedi a uma rçdução que lhe desse uma Jàrma mais breve, que
apresentei no 1ia 2 de setembro de 1957 na Convenção Americana de Psicologiã, em Nova York. Este
capítulo não é tão longo quanto a forma primitiva, nem tão abreviado quanto a segunda.
Se nos capítulos precedentes o processo terapêutico é encarado de um ponto de vista quase
exclusivamentefenomenológico, a partir do quadro de referência do cliente, este procura
142
Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa
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captar aquelas qualidades de expressão que podem ser observadas por outra pessoa e situa-se, portanto,
num quadro de re/&éncia externa.
A partir das observações con tidas neste capítulo, elaborou- se uma \u2018Escala do processo terapêutico \u201c que
pode ser experimentalmente aplicada a excertos de entrevistas gravadas, O método está ainda na fase de
revisão e aperfeiçoamento. Mesmo sob sua Jórma atual oferece, na opinião da maior parte dos especialistas,
uma fidedignidade aceitável e fornece resultados signficativos. Casos que, por outros critérios, foram
considerados bem-sucedidos apresentam nessa \u201cEscala do processo\u201d um movimento mais amplo do que os
casos menos bem-sucedidos. Do mesmo modo, e para nossa grande surpresa, verificouse que os casos bem-
sucedidos começam num nível mais elevado da Escala do que os casos em que a terapêutica não teve um
resultado tão bom. Evidentemente, não sabemos ainda com um grau suficiente de s\u2019gurança como ajudar
terapeuticamente os indivíduos cujo comportamento, quando se apresentam perante nós, é tiico dos estágios]
e 2 adiante descritos. Por isso, as idéias expressas neste capítulo, embora me tivessem parecido naquela
altura pobremente elaboradas e malformuladas, representam já uma abertura para novos e interessanjes
domínios dopensamento e da investigação.
O enigma do processo terapêutico
Gostaria que me acompanhassem numa viagem de exploração. O objetivo da viagem, a meta da
investigação, é procurar obter informações sobre o processo da psicoterapia, ou seja, o processo
através do qual a personalidade se altera. Devo apontar desde já que o objetivo ainda não foi
atingido e que tudo se passa como se a expedição tivesse avançado apenas alguns quilômetros no
interior da selva. No entanto, se me quiserem acompanhar, talvez sejam tentados a descobrir novas
vias de acesso que nos permitam avançar nas nossas investigações.
Minha razão pessoal para entrar numa tal exploração é muito simples. Da mesma maneira que muitos
psicólogos se interessaram pelos aspectos constantes da personalidade \u2014 os aspectos invariáveis da
inteligência, do temperamento, da estrutura da personalidade \u2014, também eu me interessei, desde há muito
tempo, pelas constantes que intervêm na modficação da personalidade. A personalidade e o comportamento se
modificam? Que existe de comum nessas alterações? Quais são os pontos comuns entre as condições que
precedem a modificação? Mas, e é o que sobretudo importa, qual é o processo pelo qual essas modificações
ocorrem?
Até pouco tempo atrás, tentamos sobretudo saber alguma coisa sobre esse processo pelo estudo dos
resultados. Temos à mão muitos fatos referentes, por exemplo, às alterações que ocorrem na autopercepção e
na percepção do outro. Não nos limitamos a medir