tornar se pessoa carl rogers
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tornar se pessoa carl rogers


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indivíduo.
A experiência está determinada pela estrutura do passado.
Exemplo: \u201cSuponho que a compensação que sempre procurei foi, mais do que tentar me comunicar com as
pessoas ou ter boas relações com elas, compensar, bem, como direi, ficar num nível intelectual.\u201d Aqui a
cliente começa a reconhecer a maneira como a sua experiência presente está determinada pelo passado. Suas
afirmações ilustram igualmente o distanciamento da vivência a este nível. É como se ela mantivesse sua
experiência à distância.
Os construtos pessQajs são rígidos, não reconhecidos como construtos, mas concebidos como fatos.
Exemplo: \u201cNunca posso fazer nada direito... não posso acabar nada.\u201d
A diferenciação das signficações pessoais e dos sentimentos é muito limitada e global.
Exemplo: A citação precedente é uma boa ilustração \u2014 \u201cNunca posso\u201d é um aspecto de diferenciação em
branco-e- preto, como o é igualmente o emprego de \u201cdireito\u201d num sentido tão absoluto.
As contradições podem ser expressas, mas com um pequeno reconhecimento delas enquanto contradições.
Exemplo: \u201cEu quero aprender, mas fico olhando para a mesma página durante uma hora.\u201d
Como comentário a esse segundo estágio do processo pode-se dizer que um determinado número de clientes
que vêm voluntariamente à terapia estão nessa fase, mas nós (e provavel ment
os terapeutas em geral) conseguimos obter um grau muito modesto de resultados favoráveis ao trabalhar com
eles. Parece ser essa pelo menos a conclusão do estudo de Kirtner (5), conclusão aceitável embora o seu
quadro de referência conceitual seja um pouco diferente no nosso. Sabemos muito pouco sobre a forma como
uma pessoa nesse estágio acaba por experimentar-se a si mesma como \u201caceita\u201d.
Terceiro estágio
Se a leve maleabilidade e o início do fluxo no segundo estágio não forem bloqueados e o cliente se sentir sob
esses aspectos totalmente aceito tal qual é, dá-se uma maior maleabilidade e fluência da expressão simbólica.
Eis algumas das características que parecem acompanhar aproximadamente esse ponto do contínuo:
Há um fluir mais livre da expressão do eu como um objeto.
Exemplo: \u201cEsforço-me muito para ser perfeito com ela \u2014 entusiasta, amigável, inteligente, falador \u2014 porque
quero que ela goste de mim.\u201d
Há também uma expressão das experiências pessoais como se tratassem de objetos.
Exemplo: \u201cE depois, ainda tem esse negócio de saber o quanto você se sente preparada para o casamento, e se
a sua vocação profissional é importante, e isso é o que você realmente é nesse ponto, isso limita os contatos
que possa ter.\u201d Nesse caso, o eu da cliente é um objeto tão longínquo que essa reação devia antes situar-se
entre o segundo e o terceiro estágio.
Há igualmente expressão sobre o eu como um objeto refletido, que existe primariamente nos outros.
Exemplo: \u201cSou capaz de me sentir sorrindo com suavidade como a minha mãe ou sendo teimoso e seguro de
mim como
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Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa
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meu pai às vezes é \u2014 deslizo para a personalidade seja de quem for, mas que não é a minha.\u201d
O cliente exprime e descreve sentimentos e signficados pessoais que não estão presentes.
Habitualmente, como se evidencia, são comunicações sobre sentimentos passados.
Exemplo: \u201cHavia tantas coisas que eu não podia dizer às pessoas, tantas coisas más que eu fiz. Sentia-me tão
vil e tão mau!\u201d
Outro exemplo: \u201cE o que agora sinto é precisamente o que me lembro de ter sentido quando era criança.\u201d
Há uma aceitação muito reduzida dos sentimentos. A maior parte dos sentimentos é revelada como algo
vergonhoso, mau, anormal, ou inaceitável de outras maneiras.
Manifestam-se s\u2019en?iÁentos e, nesse caso, algumas vezes são reconhecidos como tais.
A experiência é descrita como passada, ou como algo afastado do eu.
Os exemplos precedentes ilustraip estas asserções.
Os construtos pessoais são rígidos, mas podem ser reconhecidos como construtos e não como fatos
exteriores.
Exemplo: \u201cSentia-me de tal maneira culpado durante a minha juventude que julgava merecer ser sempre
castigado fosse pelo que fosse. Se julgava que não merecia ser castigado por uma coisa, sentia que o merecia
por outra.\u201d Obviamente, o cliente vê a situação como o modo como construiu a experiência, e não como um
fato estabelecido.
Outro exemplo: \u201cSempre sinto medo quando há afeto envolvido porque isso implica submissão. Detesto isso,
mas acho que identifico as duas coisas e que se alguém manifesta afeição por mim isso significa que devo
aceder a tudo o que essa pessoa quiser.\u201d
A diferenciação dos sentimentos e dos signicados é um pouco mais nítida, menos global do que nas fases
precedentes.
Exemplo: \u201cJá o disse várias vezes, mas agora realmente sinto isso. Será de admirar o fato de ter me sentido
tão infeliz nessas condições, vistas as sujeiras que me fizeram? E, por outro lado, também não fui um anjo,
bem sei.\u201d
Há um reconhecimento das contradições da experiência.
Exemplo: O cliente explica que, por um lado, espera fazer alguma coisa de grande e, por outro, sente que
pode facilmente fracassar.
As opções pessoais são muitas vezes vistas como ineficazes.
O cliente \u201cdecide\u201d fazer uma coisa, mas descobre que o seu comportamento não está de acordo com essa
decisão.
Julgo evidente que muitas das pessoas que vêm à procura de ajuda psicológica se situam aproximadamente
nesse terceiro estágio. Podem permanecer aí durante muito tempo, descrevendo sentimentos que não sentem
no momento e explorando seu eu como um objeto, antes de estarem preparadas para passar à próxima fase.
Quarto estágio
Quando o cliente se sente compreendido, bem-vindo, aceito tal como é nos vários aspectos da sua experiência,
no nível do terceiro estágio, dá-se então uma maleabilidade gradual de seus construtos e uma fluência mais
livre dos sentimentos, características de movimento no contínuo. Podemos tentar captar algumas
características dessa descontração e designá-las como o quarto estágio do processo.
O cliente descreve sentimentos mais intensos do tipo \u201cnão-presentes-agora
Exemplo: \u201cPois bem, eu era realmente \u2014 tocou-me profun damente.\u201d
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Os sentimentos são descritos como objetos no presente.
Exemplo: \u201cFico desanimado por me sentir dependente, porque isso quer dizer que não acredito em mim.\u201d
Os sentimentos são por vezes expressos no presente, outras vezes surgem como que contra os desejos do
cliente.
Exemplo: Um cliente, depois de relatar um sonho onde aparecia um espectador perigoso, porque observava os
seus \u201ccrimes\u201d, diz ao terapeuta: \u201cBem, não tenho confiança em você\u201d.
Há uma tendência para experimentar sentimentos no presente imediato, mas que é acompanhada de
desconfiança e de medo perante essa possibilidade.
Exemplo: \u201cSinto-me preso por alguma coisa. Devo ser eu! Não encontro outra explicação. Não posso atribuir
isso a ninguém. Há este nó... em alguma parte, dentro de mim... Isso me dá vontade de fica?Ióuco \u2014 e gritar \u2014 e
fugir!\u201d
Há pouca aceitação dos sentimentos, embora já se manifeste alguma aceitação.
Os dois exemplos precedentes indicam que o cliente manifesta uma suficiente aceitação da sua, experiência
para enfrentar sentimentos que lhe metem medo. A sua aceitação, porém, é pouco consciente.
A experiência está menos determinada pela estrutura do passado, é menos longínqua e surge mesmo, por
vezes, com um ligeiro atraso.
Os mesmos dois exemplos anteriores ilustram muito bem esta maneira menos rigidamente determinada de
enfrentar a experiência.
Surge uma maleabilidade na forma como a experiência é construída. Ocorrem algumas descobertas de
construtos pessoais; dá-se um reconhecimento definitivo do seu caráter de construções; começa a pôr-se em
questão a sua validade.
Exemplo: \u201cIsso é engraçado. Por quê? Ora, porque é um pouco estúpido da minha parte... sinto-me um pouco
inquieto, um pouco embaraçado com isso... e um pouco impotente (a sua voz adoça-se e ele fica triste). O
humor foi minha defesa toda a vida;