tornar se pessoa carl rogers
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considerável do segundo estágio.
Espero que esse exemplo tenha indicado a forma como um indivíduo, numa determinada área das
significações pessoais, se torna cada vez mais maleável, mais fluente, num processo mais
movimentado, na medida em que se sente aceito. Talvez o exemplo ilustre igualmente o que
acredito, ou seja, que esse processo de uma maior mobilidade não é algo que possa acontecer em
minutos ou horas, mas em semanas e meses. E um processo de avanço irregular, por vezes de recuo,
por vezes parecendo estático quando abrange uma área maior, mas acaban d
por retomar sempre o seu curso.
O sexto estágio
Se consegui dar uma idéia da extensão e da natureza da maleabilidade crescente dos sentimentos,
das vivências e das
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construções em cada estágio, podemos então passar ao estágio seguinte, que surge, a quem o observa, como
crucial. Vou tentar explicar o que me parecem ser suas qualidades características.
Supondo que o cliente continua a ser plenamente aceito na relação terapêutica, os aspectos característicos do
quinto estágio tendem a ser seguidos por um estágio muito distinto e freqüentemente dramático. Caracteriza-
se do seguinte modo:
Um sentimento que antes estava \u201cbloqueado \u201c, inibido na sua evolução, é experimentado agora de um modo
imediato.
Um sentimento flui para o seu fim pleno.
Um sentimento presente é diretamente experimentado com toda a sua riqueza num plano imediato da
experiência e o sentimento com toda a sua riqueza num plano imediato.
Esse caráter imediato da experiência e o sentimento que constitui seu conteúdo.,so aceitos. Isto é algo real e
não uma coisa para ser negada, temida ou combatida.
Todas as asserções precedentes procuram descrever as diferentes facetas de um fenômeno que, quando ocorre,
é claro e bem definido. Seria necessário recorrer a exemplos gravados para comunicar plenamente essa
qualidade, mas tentarei dar um exemplo sem recorrer às grawições. Um extrato bastante longo tirado da
octogésima entrevista com um rapaz talvez nos possa dar uma idéia da forma como um cliente chega ao sexto
estágio.
Exemplo: \u201cPodia mesmo acontecer que eu tivesse uma espécie de ternura em relação a mim próprio... No
entanto, como seria eu capaz de ser terno, de me preocupar comigo mesmo, pois somos uma mesma e única
coisa? Contudo, sinto isso claramente... Sabe, é como quem cuida de uma criança. Você quer lhe dar isso e
aquilo... Posso compreender isso quando se trata de outra pessoa... mas nunca o poderia ver para... mim
próprio, que eu pudesse agir assim para comigo. Será possível que eu queira agora tomar realmente conta de
mim e que isso seja o principal objetivo da minha vida? Isto quer dizer que eu teria de
abordar o mundo como se eu fosse o guardião do bem mais precioso e mais ambicionado, que este eu estaria
entre esse eu precioso de que eu quero cuidar e o mundo todo... É quase como se eu me amasse a mim
mesmo \u2014 entende? \u2014 isso é estranho... mas é verdade.\u201d
O terapeuta: \u201cIsso parece ser um conceito estranho e dificil de compreender. Poderia significar: Eu
enfrentaria o mundo como se urna parte essencial da minha responsabilidade fosse cuidar desse indivíduo
precioso que eu sou... que eu amo.\u201d
O cliente: \u201cCom quem eu me preocupo... de quem eu me sinto tão próximo. Ora, aqui está mais uma coisa
estranha.\u201d
O terapeuta: \u201cIsso só parece esquisito.\u201d
O cliente: \u201cSim! E vai mesmo mais longe. A idéia de me amar a mim próprio e de me preocupar (os seus
olhos umedecem-se). Seria uma coisa muito bonita... muito bonita.\u201d
A gravação ajudaria a ver que se trata de um sentimento que ele nunca tinha sido capaz de deixar correr nele e
que era sentido nesse momento de forma imediata. É um sentimento que evolui para o seu fim pleno, sem
inibições. É experimentando com aceitação, sem qualquer tentativa para desviá-lo ou para negá-lo.
A experiência é vivida sub] etivamente e não como objeto de um sentimento.
O cliente, nas suas palavras, pode se afastar o suficiente da sensação a ponto de sentir sobre ela, como no
exemplo anterior. No entanto, a gravação mostra bem o caráter periférico dessas palavras em relação à
experiência que está fazendo consigo e na qual está vivendo. A melhor expressão desse fato em suas palavras
é: \u201cOra, aqui está mais uma coisa estranha.\u201d
O eu como objeto tende a desaparecer
O eu, nesse momento, é esse sentimento. Ele existe no momento, com uma consciência de si reduzida, mas
principalmente com uma consciência reflexiva, como Sartre a designa. O eu
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é, subjetivamente, no momento existencial. Não é alguma coisa que se percebe.
A vivência, nesse estágio. assume a qualidade de um processo real.
Exemplo: Um cliente, um homem que se aproxima desse estágio, diz que se sente receoso a propósito da
fonte de um grande número de pensamentos secretos. E prossegue: \u201cOs pensamentos mais próximos da
superficie são borboletas. Por baixo há uma corrente mais profunda. Sinto-me muito afastado dela. A corrente
mais profunda é como um grande cardume que se desloca debaixo d\u2019água. Eu vejo os peixes que surgem na
superficie e estou sentado com a minha linha de pesca numa mão, com um anzol na ponta \u2014 tentando encontrar
algo melhor do que esse anzol ou, melhor ainda, uma forma de mergulhar nessa corrente. É.l4ma coisa que
me mete medo. Vem-me à cabeça a idéia deque quero ser eu próprio um peixe.\u201d
O terapeuta: \u201cQuer mergulhar na corrente e deixar-se levar.\u201d
Embora o cliente não esteja vivenciando ainda plenamente a evolução no interior de um processo e, portanto,
não possa servir completamente de ilustração\u2019 desse sexto estágio do contínuo, ele o prevê de uma maneira
tão clara que sua descrição revela o sentido profundo desse estágio.
Uma outra característica desse estágio do processo é a maleabilidadefisiológica que o acompanha.
Os olhos úmidos, as lágrimas, os suspiros, o relaxamento muscular são freqüentemente evidentes. Há muitas
vezes outros sintomas fisiológicos concomitantes. Proporei de bom grado a hipótese de que nessas ocasiões,
tendo meios para o observar, descobriríamos uma melhoria da circulação e da condutividade dos impulsos
nervosos. Pode indicar-se um exemplo da natureza \u201cprimitiva\u201d de algumas dessas sensações através da
Exemplo: O cliente, um rapaz, exprimira o desejo de que seus pais morressem ou desaparecessem: \u201cÉ um
pouco como se eu quisesse vê-los desaparecer, como se desejasse que eles nunca tivessem existido... E tenho
de tal maneira vergonha de mim próprio que quando eles me chamam eu vou logo! A sua presença é ainda
muito forte. Não sei. É qualquer coisa dc visceral quase que posso sentir isso dentro de mim\u201d (e começa a
gesticular puxando o umbigo, como se quisesse se arrancar).
O terapeuta: \u201cEles realmente prendem-no pelo cordão umbilical .\u201c
O cliente: \u201cÉ engraçado como é real o que sinto... É como uma sensação de queimadura, mais ou meflos, e
quando eles dizem alguma coisa que me deixa ansioso, sinto isso exatamente aqui (apontando). Nunca pensei
nisso assim.\u201d
O terapeuta: \u201cTudo se passa como se, quando há uma perturbação nas relações entre vocês, tivesse
precisamente a impressão de uma tensão no umbigo.\u201d
O cliente: \u201cSim, é como se fosse aqui. E é tão dificil definir o que sinto aqui.\u201d
Nesse caso, o indivíduo está vivendo subjetivamente no sentimento da dependência em relação aos seus pais.
Todavia, seria bastante inexato afirmar que ele se apercebe desse sentimento. Está nele, experimentando-o
como uma tensão no seu cordão umbilical.
Nessa fase, a comunicação interior é livre e relativamente pouco bloqueada.
Creio que isto é perfeitamente ilustrado com os exemplos citados. De fato, como cada um desses exemplos
mostra, o momento crucial é um momento dc integração, no qual a comunicação entre os diferentes focos
internos já não é necessária porque se tornou una.
A incongruência entre a experiência e a consciência é vivamente