tornar se pessoa carl rogers
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tornar se pessoa carl rogers


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experimentada no momento mesmo em que
desaparece no interior da congruência.
seguinte passagem.
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Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa
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O construto pessoal correspondente dissolve-se no momento dessa experiência e o cliente sente-se separado
do seu quadro de referência anterior estável.
Julgo que essas duas características se tomarão claras por meio do exemplo seguinte. Determinado rapaz tinha
sentido dificuldade em precisar um certo sentimento desconhecido: \u201cAquilo que eu sinto é quase
exatamente... a minha vida tal como eu a vivia, tal como eu a via dominada pelo terror de qualquer coisa.\u201d
Conta como suas atividades profissionais lhe deram uma certa segurança e \u201cum pequeno mundo em que eu
estaria seguro, entende? E pela mesma razão (pausa). É como se eu o deixasse infiltrar-se, mas ligo-o
também a você e às minhas relações consigo e o que eu sinto é o medo de deixá-lo escapar. (O tom muda
como que para representar mais precisamente o seu sentimento.) Permita-me que o conserve. Tenho uma
verdadeira necessidade disso. Eu fico tão s tão atemorizado sem isso.\u201d
O terapeuta: \u201cHum, hum. Deixe que me agarre a isso porque se não ficaria com um medo terrível!.., é uma
espécie de súplica, não é?\u201d
O cliente: \u201cSim, é isso: não quer fazer isso por mim?, mais ou menos. Oh, isso é terrível! Quem? Eu?
Implorar?... É uma emoção que eu nunca senti com grande clareza \u2014 alguma coisa que nunca foi... (pausa)...
sinto-me tão confuso. Primeiro, é uma coisa tão extraordinária ter estas coisas novas surgindo diante de mim!
Isso me espanta sempre, e há esse mesmo sentimento de receio perante tudo o que se encontra em mim
(chora)... Eu não me conheço. Aqui está uma coisa que nunca percebera, de que não tinha a menor suspeita \u2014
haver uma coisa que eu queria ou uma maneira de ser que eu desejava.\u201d
Temos aqui uma tomada de consciência completa da sua súplica e um reconhecimento claro da discrepância
entre a sua experiência e o conceito que fazia de si mesmo. Contudo, essa vivência da discrepância existe no
próprio momento em que desaparece. Daqui em diante ele é uma pessoa que tem o sentimento de suplicar,
como tem muitos outros. Nesse momento,
essa descoberta dissolve os seus construtos pessoais e anteriores e ele sente-se liberto do mundo onde até
então vivera \u2014 uma sensação ao mesmo tempo maravilhosa e temível.
O momento da vivência integral torna-se uma referência clara e definida.
Os exemplos dados parecem indicar que o cliente não tem uma consciência muito nítida do que lhe aconteceu
durante esses momentos. Contudo, isso não parece ser demasiado importante porque esse acontecimento é
uma entidade, uma referência, a que se pode voltar sempre, se necessário, para explorálo mais profundamente.
Não se pode provar que os sentimentos de suplicar, ou de \u201cme amar a mim mesmo\u201d, que figuram nesses
exemplos, sejam exatamente como descritos. São, no entanto, sólidos pontos de referência a que o cliente
pode voltar até ter adquirido um conhecimento satisfatório da sua própria natureza. Talvez eles constituam um
acontecimento fisiológico bem definido, um substrato da vida consciente a que o cliente pode regressar para
novas investigações. Gendlin chamou-me a atenção para a qualidade significativa da vivência como ponto de
referência. Ele está tentando construir uma extensão da sua teoria psicológica a partir desta base (1).
A diferenciação da vivência é clara efundamen tal.
Como cada um desses momentos é um ponto de referência, uma entidade específica, não se pode confundir
com qualquer outro. O processo de diferenciação nítida constrói-se sobre ele e em referência a ele.
Nessa fase, já não há \u201cproblemas \u201c, exteriores ou interiores. O cliente está vivendo subjetivamente uma fase
do seu problema. Este não é um objeto.
Parece-me evidente que em todos os exemplos dados seria grosseiramente inexato dizer que o cliente se
apercebe do seu problema como interior ou que o está discutindo como um problema interior. Carecemos de
uma forma de indicar que ele ultrapassou essa fase e que está, como é evidente, muito longe de perceber seu
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Tornar-se pessoa O processo de tornar-se pessoa
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problema como exterior. A melhor descrição parece ser afirmar que ele não percebe o seu problema nem o
põe em discussão. Vive simplesmente uma parcela do problema, conhecendo-o e aceitando-o. Demorei-me
longamente na definição do sexto estágio do processo contínuo porque o julgo particularmente importante.
Observei que esses momentos da vivência imediata, integral, assumida, são de alguma maneira irreversíveis.
Para retomar o conteúdo dos meus exemplos, o que observei e o que ponho como hipótese é que, com estes
clientes, todas as vezes que ocorrer uma nova experiência desse gênero, ela será conscientemente reconhecida
por aquilo que é: conforme os casos, uma tema solicitude para consigo mesmo, um cordão umbilical que faz
dele uma parte dos seus pais, ou a dependência de um rapazinho que implora. Pode-se notar de passagem que,
uma vez que a experiência se tornou plenamente consciente e aceita, ela pode ser enfrentada com eficácia,
como quakuer outra situação real.
O sétimo estágio
Nas áreas em que se atingiu o sexto estágio, já não é tão necessário que o cliente se sinta plenamente aceito
pelo terapeuta, embora isso ainda pareça ser de grande ajuda. No entanto, devido à tendência do sexto estágio
para ser irreversível, o cliente parece alcançar muitas vezes o sétimo e último estágios sem ter uma grande
necessidade da ajuda do terapeuta. Esse estágio ocorre tanto fora da relação terapêutica como dentro dela, e é
muitas vezes relatada mais do que vivenciada no decurso da sessão terapêutica. Vou procurar descrever
algumas das suas características como as julgo ter observado.
São experimentados novos sentimentos de modo imediato e com uma riqueza de detalhes, tanto na relação
terapêutica como fora a ela.
A experiência de tais sentimentos é utilizada como um claro ponto de referência.
O cliente procura com absoluta consciência utilizar esses pontos de referência para saber de uma forma mais
clara e mais diferenciada quem é, o que deseja e quais são as suas atitudes. Isto é verdade mesmo que os seus
sentimentos sejam desagradáveis ou provoquem temor.
Há um sentido crescente e continuado de aceitação pessoal desses sentimentos em mudança e uma confiança
sólida na sua própria evolução.
Essa confiança não assenta primariamente nos processos conscientes que ocorrem, mas antes na totalidade do
processo organísmico. Um cliente descreve a forma que para ele reveste a experiência característica de sexto
estágio, utilizando termos característicos do sétimo:
\u201cEm terapia, aqui, o que contava era sentar-me e dizer: \u2018é este o meu problema\u2019 e andar à volta disso durante
um tempo até que qualquer coisa venha à superficie através de um crescendo emocional, e a coisa está
resolvida parece diferente. Mesmo nessa altura não sou capaz de dizer precisamente o que se passou. Eu
expunha qualquer coisa, agitava-a, dava voltas:
depois, tudo ia melhor. É um pouco frustrante porque gostaria de saber exatamente o que está se passando...
É engraçado, porque sinto que, no fundo, não fiz grande coisa para isso. A única parte ativa que tomei
consistiu em estar alerta e em agarrar uma idéia quando ela passava... É uma espécie de sentimento como...
\u2018bem, o que é que eu vou fazer agora, uma vez que já vi o que acontece?...\u2019 Não se tem mão nisso, pode-se
falar e deixar correr. E, aparentemente, é tudo. No entanto, isso me deixa com uma sensação de insatisfação,
com a sensação de não ter feito nada. Isso fez-se sem o meu conhecimento e sem o meu acordo... O fato é que
não estou seguro da qualidade do reajustamento porque não consegui vê-lo ou verificá-lo... Tudo o que posso
fazer é observar os fatos verificar que olho para as coisas de um modo diferente, que sinto menos ansiedade,
que estou muito mais ativo. Em geral tudo vai melhor. Sinto-me muito
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