tornar se pessoa carl rogers
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tornar se pessoa carl rogers


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O que quer dizer isso? O que isso implica?
Vou me dedicar à análise destes dois pontos. Direi simplesmente, para concluir, que a afirmação parece
querer dizer e implicar coisas estranhas. A partir da minha experiência com meus clientes e das minhas
próprias investigações, acabei por chegar a conclusões que me teriam parecido muito estranhas dez ou quinze
anos atrás. Por isso, espero que considerem essas conclusões com um ceticismo crítico e que as aceitem
apenas na medida em que correspondam a uma verdade da sua própria experiência.
Direções tomadas pelos clientes
Procurarei esboçar com clareza algumas das inclinações e tendências que registrei no trabalho com os
clientes. Na relação com as pessoas, a minha preocupação era criar um clima onde se respirasse muita
segurança, calor, compreensão empática, na medida em que eu o pudesse criar com toda a sinceridade. Não
achei que fosse bom ou que auxiliasse intervir na experiência do cliente com diagnósticos ou explanações
interpretativas ou com sugestões e orientações. Por isso, as tendências a cuja formação assisti partem do
próprio cliente, mais do que de mim\u2019.
Por detrás das fachadas
Observei em primeiro lugar que, de uma forma característica, o cliente mostra tendência para se afastar, com
hesitações e com receio, de um eu que ele não é. Em outras palavras, mesmo que não saiba para onde se
encaminha, desvia-se de alguma coi
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sa. E, como é evidente, ao proceder desse modo, começa a definir, embora negativamente, o que ele é.
A princípio, isso pode exprimir-se simplesmente como o temor de mostrar o que é. Vejamos o que diz um
rapaz de dezoito anos, numa das primeiras entrevistas: \u201cEu sei que não sou assim tão exuberante e tenho
receio de que o descubram. É por isso que faço essas coisas... Qualquer dia descobrem que eu não sou assim
tão exuberante. Estou precisamente fazendo tudo para que esse dia seja o mais longínquo possível... Se me
conhecesse como eu me conheço (pausa). Não lhe vou dizer que pessoa eu penso realmente que sou. Há
apenas uma coisa com que eu não quero cooperar e que é esta... não melhoraria a sua opinião a meu respeito
saber o que eu penso de mim mesmo.\u201d
Está bem patente que, em grande parte, a expressão desse receio é tomar-se aquilo que ele é. Em vez de ser
simplesmente uma fachada, como sefosse apenas isso, toma-se cada vez mais ele mesmo, torna-se
especificamente uma pessoa com medo, que se esconde atrás de uma fachada porque olha para si mesma
como uma coisa feia demais para ser vista.
Para além do devia\u201d
Uma outra tendência do mesmo gênero surge no cliente que se desvia de uma imagem compulsiva daquilo
que ele \u201cdevia ser\u201d. Alguns indivíduos absorveram tão completamente dos pais a idéia de \u201cEu devo ser bom\u201d
ou \u201cEu tenho de ser bom\u201d que só na maior das lutas interiores são capazes de se afastar desse objetivo. É o
caso de uma jovem que, ao descrever as suas relações pouco satisfatórias com o pai, conta como
primeiramente desejara o seu amor: \u201cPenso que em tudo o que sentia em relação ao meu pai desejei realmente
estar em boas relações com ele... Queria ardentemente que ele se preocupasse comigo sem no entanto
conseguir o que realmente desejava\u201d. Ela sentia- se sempre obrigada a corresponder aos seus pedidos e a tudo
o que ele esperava dela, e isso \u201cacabava por ser muita coisa, por-
que uma vez feita uma coisa, havia outra e outra e outra, e eu realmente nunca podia acabar. Era uma espécie
de exigência sem fim\u201d. Ela sente que era como sua mãe, submissa e complacente, procurando corresponder
permanentemente às suas exigências. \u201cE na verdade eu não queria ser esse tipo de pessoa. Não acho que isso
seja uma maneira desejável de ser, mas julgo ter estado convencida de que, de certo modo, era assim que eu
tinha de ser para que se preocupassem comigo e gostassem de mim. Más quem haveria de gostar de alguém
assim tão sem graça?\u201d O terapeuta respondeu: \u201cQuem é que gostaria realmente de um capacho?\u201d Ela
prossegue: \u201cPelo menos não queria ser amada pelo tipo de pessoa que gostasse de um capacho!\u201d
Pois bem, embora essas palavras não nos digam nada do eu para o qual ela se encaminha, o cansaço e o
desdém da sua voz e das afirmações feitas mostram claramente que ela se afasta de um eu que tem de ser
bom, que tem de ser submisso.
Curiosamente, muitos indivíduos descobrem que se sentiam compelidos a se verem como maus e é desta idéia
de si que se afastam. Um jovem descreve perfeitamente esse movimento, ao dizer: \u201cNão sei onde é que fui
buscar essa impressão de que ter vergonha de mim era um maneira apropriada de sentir... Ter vergonha de
mim era precisamente como tinha de ser... Havia um mundo onde ter vergonha de mim mesmo era a melhor
maneira de sentir... Se somos qualquer coisa que muitos desaprovam, a única forma de termos qualquer
respeito por nós é termos vergonha dessa parte de nós que é reprovada...
\u201cAgora, porém, recuso-me terminantemente a pensar como antigamente... É como se eu estivesse convencido
de alguém ter dito: \u2018A maneira como tem de ser é ter vergonha de si
\u2014 então, seja assim!\u2019. Admiti semelhante coisa durante muito tempo, dizendo: \u2018De acordo, eu sou assim!\u2019.
Agora faço frente a quem quer que seja e digo: \u2018Não me importo com o que você diz. Eu não vou ter
vergonha de mim!\u2019...\u201d. É claro que esse jovem está abandonando o conceito de si como vergonhoso e
mau.
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Para além do que os outros esperam
Outros clientes se percebem fugindo daquilo que a cultura espera que eles sejam. Na nossa civilização
industrial atual, por exemplo, como Whyte destacou com tanta firmeza no seu recente livro (7), existem
enormes pressões para levar as pessoas a terem as características do \u201chomem da organização\u201d. Assim, uma
pessoa deve ser um membro completo do grupo, deve saber subordinar a sua individualidade às necessidades
do grupo, deve tomar-se \u201co homem bem desenvolvido que é capaz de se entender com homens bem
desenvolvidos\u201d.
Num estudo recentemente levado a cabo sobre os valores dos estudantes no nosso país, Jacob resume suas
conclusões com as seguintes palavras: \u201cO principal resultado do ensino superior sobre os valores dos
estudantes é provocar uma aceitação gerando um con4unto de normas e de atitudes características dos
universitário\u2019s da comunidade americana... O impacto da experiência universitária é... socializar o indivíduo,
refiná-lo, poli-lo e \u2018moldar\u2019 seus valores de modo a que se integre confortavelmente nas fileiras dos
diplomados americanos\u201d (1, p. 6).
Em oposição a essas pressões a favor do conformismo, observei que, quando os clientes são liwes para serem
como quiserem, mostram tendência para se irritar e para discutir essa tendência da organização, da
universidade ou da cultura, para os moldarem segundo um determinado modelo. Um dos meus clientes afirma
com grande animação: \u201cProcurei durante muito tempo conformar-me com o que era significativo para as
outras pessoas e que não tinha, efetivamente; qualquer sentido para mim! E no entanto, num certo nível,
sentia-me muito mais do que isso.\u201d Desse modo, ele, como outros, tendem a se afastar daquilo que é esperado.
Para além de agradar aos outros
Observei que muitos indivíduos se formaram procurando agradar aos outros, mas que, quando são livres, se
modificam.
Assim, um homem de profissão liberal, vendo retrospectiva- mente o processo que atravessara, escreve perto
do fim do tratamento: \u201cSenti afinal que tinha simplesmente de começar a fazer o que queria e não o que eu
pensava que devia fazer. sem me preocupar com a opinião dos outros. Foi uma completa reviravolta de toda
minha vida. Sempre sentira que tinha de fazer as coisas porque era o que esperavam de mim ou, o que era
mais importante, para que os outros gostassem de mim. Tudo isso acabou! Penso a partir de agora que serei
precisamente o que sou \u2014 rico ou pobre, bom ou mau, racional ou irracional, lógico ou