tornar se pessoa carl rogers
243 pág.

tornar se pessoa carl rogers


DisciplinaPsicologia Humanista446 materiais2.267 seguidores
Pré-visualização50 páginas
ilógico, famoso ou
desconhecido. Portanto, obrigado por ter me ajudado a redescobrir o \u2018Sê verdadeiro para ti mesmo\u2019, de
Shakespeare\u201d.
Pode-se dizer, portanto, que, de uma forma um pouco negativa, os clientes definem seus objetivos, suas
intenções, por meio da descoberta, na liberdade e na segurança de relações compreensivas, de algumas
direções que não querem seguir. Eles preferem não esconder, nem a si nem aos seus sentimentos, de si
mesmos ou de qualquer outra pessoa que seja para eles importante. Não querem ser o que \u201cdeviam\u201d ser, quer
esse imperativo venha dos pais, ou da sociedade, quer ele seja definido de uma forma positiva ou negativa.
Não querem moldar-se a si mesmos ou ao seu comportamento dentro de um modelo que seja do agrado dos
outros. Não querem, em outras palavras, escolher o que quer que seja de artificial, algo que lhes seja imposto
ou definido do exterior. Compreenderam que esses objetivos ou finalidades não têm valor, mesmo que por
eles tenham
vivido até agora.
A caminho da autodireção
Mas, o que implica de positivo a experiência dos clientes? Vou tentar descrever um certo número
das facetas que observei nas direções em que se movimentam.
Em primeiro lugar, o cliente encaminha-se para a autonomia. Isso significa que começa
gradualmente a optar por objetivos que
194
Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa
195
ele pretende atingir. Toma-se responsável por si mesmo. Decide que atividade e comportamentos significam
alguma coisa para si e os que não significam nada. Julgo que essa tendência para a autodireção está
amplamente ilustrada nos exemplos que dei.
Não gostaria de dar a impressão de que meus clientes tomam essa direção com alegria e confiança. Pelo
contrário. A liberdade para uma pessoa ser ela mesma é uma liberdade cheia de responsabilidade, e um
indivíduo procura atingi-la com precaução, com receio e, no início, quase sem confiança nenhuma.
Também não queria dar a impressão de que o cliente faz sempre escolhas criteriosas. Ser responsavelmente
autodirigido implica opções \u2014 e aprender das conseqüências. É essa a razão por que os clientes acham que se
trata de uma experiência austera, mas apaixonante. Como dizia um deles: \u201cTenho medo, sinto-me vulnerável
e sem qualquer apoio, mas sinto igualmente crescer em mim a força ou o pod\u2019er Esse modo de reagir é
habitual no cliente quando ele assume a autodireção da sua própria vida e do seu comportamento.
A caminho de ser um processo
A segunda observação é dificil deformular porque não dispomos de termos adequados. Os clientes parecem
encaminhar- se mais abertamente para se tornarem um processo, uma fluidez, uma mudança. Não ficam
perturbados ao descobrir que não são os mesmos em cada dia que passa, que não têm sempre os mesmos
sentimentos em relação a determinada experiência ou pessoa, que nem sempre são conseqüentes. Eles estão
num fluxo e parecem contentes por permanecerem nele. O esforço para estabelecer conclusões e afirmações
definitivas parece diminuir.
Um cliente declara: \u201cAs coisas certamente estão mudando porque nem mesmo posso prever mais o meu
próprio comportamento. Antes era capaz disso. Nesse momento não sei o que vou dizer a seguir. É um
sentimento e tanto... Estou mesmo surpreso
por ter dito essas coisas... Vejo coisas novas de cada vez. É uma aventura, é o que é no interior do
desconhecido... Estou começando a gostar disto, sinto-me satisfeito, mesmo a propósito dessas velhas coisas
negativas.\u201d Esse indivíduo começa a apreciar-se a si mesmo como um processo fluido, a princípio apenas na
sessão de terapia, mais tarde na sua vida. Não posso deixar de pensar na descrição que Kierkegaard faz do
indivíduo na sua existência real: \u201cUm indivíduo que existe está num processo constante de tornar-se.., e
traduz tudo o que pensa em termos de processo. Passa-se (com ele)... o mesmo que com o escritor e seu estilo;
só quem nunca deu nada por acabado, mas \u2018agita as águas da linguagem\u2019, recomeçando sempre, tem um
estilo. E é por isso que a mais comum das expressões assume nele a frescura de um novo nascimento\u201d (2, p.
79). Julgo que esta é uma excelente descrição da direção em que o cliente se move, para ser um processo de
possibilidades nascentes, mais do que para ser ou para tomar- se qualquer objetivo cristalizado.
A caminho de ser
Isto implica igualmente ser uma complexidade do processo. Talvez um exemplo possa ajudar nesse aspecto.
Um dos nossos terapeutas, para quem a psicoterapia também fora de grande ajuda, veio ter comigo
recentemente para discutir as suas relações com um cliente muito dificil e muito perturbado. Reparei com
interesse que ele não vinha discutir o cliente, salvo de passagem. Ele queria sobretudo ter certeza de que
estava claramente consciente da complexidade dos seus próprios sentimentos no relacionamento \u2014 seus
sentimentos calorosos para com o cliente, suas ocasionais frustrações e irritações, sua simpatia para com o
bem-estar do cliente, seu receio de que o cliente se tomasse psicótico, sua preocupação com o que os outros
pensariam se o caso não se resolvesse bem. Percebi que sua atitude central era de que, se pudesse ser, de uma
forma absolutamente aberta e transparente, todos os seus sentimentos comple A
196
Tornar-se pessoa Uma filosofia da pessoa
197
xos na relação, às vezes inconstantes e contraditórios, tudo iria bem. Se, pelo contrário, ele fosse apenas uma
parte dos seus sentimentos e outra parte fachada ou defesa, estava certo que a relação não seria boa. Notei que
esse desejo de ser tudo de si mesmo em cada momento \u2014 toda a riqueza e toda a complexidade, sem nada
esconder para si mesmo e sem nada temer de si mesmo \u2014 era um desejo comum a todos aqueles que pareciam
mostrar muito dinamismo na terapia. Não é necessário acrescentar que é um objetivo dificil, se não
impossível em sentido absoluto. No entanto, uma das mais evidentes tendências nos clientes é assumir toda a
complexidade do seu eu em mutação em cada momento significativo.
A caminho de uma abertura para a experiência
\u201cSer o que realmente se é\u201d implica ainda outros componentes. Um deles: quealvezjá tenha sido sugerido, é a
tendência do indivíduo para viver numa relação aberta, amigável e estreita com a sua própria experiência. Isso
não acontece facilmente. Muitas vezes, quando o cliente se apercebe de uma nova faceta sua, inicialmentè a
rejeita. É apenas quando vivencia um aspecto de si mesmo negado até então; num clima de aceitação, que
pode tentar assumi-lo como uma parte de si mesmo. Eis como se exprime um cliente um pouco impressionado
depois de ter vivenciado o aspecto dependente e infantil de si próprio:
\u201cÉ uma emoção que nunca senti claramente \u2014 uma emoção que nunca havia sentido!\u201d. Ele não é capaz de
tolerar a experiência dos seus sentimentos infantis. Mas, pouco a pouco, começa a aceitá-los e a assumi-los
como uma parte de si mesmo, para viver ligado a eles e neles quando se manifestam.
Um outro rapaz, com um grave problema de gagueira, abre-se perto do fim do tratamento a alguns dos seus
sentimentos escondidos. Diz ele: \u201cEra uma luta terrível. Nunca o tinha compreendido. Acho que foi muito
penoso atingir esse nível. Quer dizer, estou começando a senti-lo agora. Oh, o terrível
sofrimento.., era terrível falar... Quer dizer, eu queria falar e, então não queria... Eu sinto \u2014 acho que eu sei \u2014 é
pura e simplesmente uma tensão \u2014 uma tensão terrível \u2014 uma pressão, é esta a palavra, uma pressão enorme era
o que eu sentia. Começo apenas agora a sentir isso depois de todos este anos... é terrível. Custa-me retomar o
fôlego, eu sufoco todo. Sinto-me como que apertado interiormente (começa a chorar). Nunca compreendi
isso, nunca soube o que era\u201d (6). Ele está se abrindo a sentimentos interiores que evidentemente não são
novos para ele, mas que até então não tinha experimentado plenamente. Agora que pode permitir-se
experimentá-los, eles serão menos terríveis para ele e será capaz de viver mais ligado à sua própria