tornar se pessoa carl rogers
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especificadas, que o professor está dando sua última conferência, e, por isso,fala de si mesmo (que
espantQso comentário ao nosso sistema de educação em que um professor só se mostra a si mesmo de um
modo pessoal em tão duras circunstâncias!). Nessa conferência de Wisconsin exprimi de uma maneira mais
profunda do que na primeira as experiências pessoais e os temas filosóficos que se tornaram para mim mais
significativos. No presente capítulo harmonizei as duas exposições, tentando manter o caráter espontâneo
que revestia a sua apresentação original.
A reação a cada uma dessas exposições fez-me compreender como as pessoas desejam ansiosamente
conhecer algo da
pessoa que lhes fala ou que as ensina. Foi essa a razão por que
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Tornar-se pessoa Notas pessoais
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abri o livro com este capítulo, na esperança de que ele comunicará algo sobre mim, proporcionando, desse
modo, um enquadramento e uma maior significação aos capítulos que seguem.
Informaram-me que esperavam que eu falasse a esse grupo sobre a seguinte matéria: \u201cEste sou eu\u201d. Passei por
diferentes reações perante esse convite, mas aquela que gostaria de mencionar aqui como a principal foi a de
me ter sentido honrado e lisonjeado por um grupo querer saber quem sou eu, num sentido puramente pessoal.
Posso lhes assegurar que se trata de um convite único e sem precedentes e que vou tentar dar a essa pergunta
honesta uma resposta tão honesta quanto me for possível.
Dito isso, quem sou eu? Um psicólogo cujos interesses principais foram, durante muitos anos, os da
psicoterapia. Que é que isto significa? Não tenho a intenção de impor uma longa crônica do meu trabalho,
mas gostaria de extrair alguns parágrafos do prefácio do meu livro Client-Centered Therapy\u2019, para indicar o
que, subjetivamente, isso significa para mim. Nesse prefácio, eu procurava esclarecer o leitor sobre o
conteúdo da obra e escrevi o seguinte: \u201cDe que trata este livro? Permitam-me que tente dar-lhes uma resposta
de algum modo ligada à experiência vivida que esse livro procurou ser.\u201d
\u201cEste é um livro sobre o sofrimento e a esperança, a angústia e a satisfação presentes na sala de todos os
terapeutas. É sobre o caráter único da relação que o terapeuta estabelece com cada cliente, e, igualmente,
sobre os elementos comuns que descobrimos em todas essas relações. Este livro é sobre as experiências
profundamente pessoais de cada um de nós. E sobre um cliente no meu consultório, sentado perto da
escrivaninha, lutando para ser ele mesmo e, no entanto, com um medo mortal de ser ele mesmo \u2014 esforçando-
se para ver a sua experiência tal como ela é, querendo ser essa experiência, e, no entanto, cheio de medo
diante da perspectiva. É um livro sobre mim, sentado diante do cliente, olhando para ele, participando da luta
com toda a profundidade e sensibilidade de que sou capaz. É um
livro sobre mim, tentando perceber a sua experiência e o significado, a sensação, o sabor que esta tem para
ele. É sobre mim, lamentando a minha falibilidade humana para compreender o cliente e os ocasionais
fracassos em ver a vida tal como ela se mostra diante dele, fracassos que caem como objetos pesados sobre a
intricada e delicada teia do desenvolvimento que está ocorrendo.
É um livro sobre mim, alegre com o privilégio de ser o responsável pelo parto de uma nova personalidade \u2014
maravilhado diante do surgimento de um seljÇ uma pessoa, de um processo de nascimento no qual tive um
papel importante e facilitador. É sobre mim e o cliente, que contemplamos com admiração as forças
ordenadas e vigorosas que se evidenciam em toda a experiência, forças que parecem profundamente
arraigadas no universo como um todo. É um livro, creio eu, sobre a vida, a vida que se revela no processo
terapêutico \u2014 com a sua força cega e a sua tremenda capacidade de destruição, mas com um ímpeto primordial
voltado para o desenvolvimento, se lhe for oferecida a possibilidade de desenvolvimento.\u201d
Talvez isso lhes dê uma imagem daquilo que faço e do modo como me sinto com relação ao que faço. Julgo
que perguntarão como é que cheguei a essa ocupação e quais as decisões e as opções que, consciente ou
inconsciente, a isso me conduziram. Tentarei apresentar alguns dos aspectos mais importantes da minha
autobiografia psicológica, especialmente os que têm uma relação particular com a minha vida profissional.
Os meus primeiros anos
Fui educado numa família extremamente unida onde reinava uma atmosfera religiosa e moral muito estrita e
intransigente, e que tinha um verdadeiro culto pela virtude do trabalho duro. Fui o quarto de seis filhos. Meus
pais tinham por nós um grande afeto e nosso bem-estar era para eles uma preocupação constante.
Controlavam também o nosso comportamento, de
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Tornar-se pessoa Notas pessoais
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uma maneira ao mesmo tempo sutil e afetuosa. Eles consideravam \u2014 e eu aceitava essa idéia \u2014 que nós éramos
diferentes das outras pessoas: nada de álcool, de danças, de jogos de cartas ou de espetáculos, uma vida social
muito reduzida e muito trabalho. Tive uma enorme dificuldade em convencer meus filhos de que, para mim,
mesmo as bebidas não-alcoólicas tinham um aroma de pecado e lembro-me do meu leve sentimento de culpa
quando bebi meu primeiro refrigerante. Passávamos um tempo agradável reunidos em família, mas não
convivíamos. Tornei- me assim uma criança solitária que lia incessantemente e não tive, ao longo de todos os
meus anos de colégio, senão dois encontros com moças.
Tinha eu doze anos quando meu pai comprou uma fazenda onde fomos viver. As razões disso foram duas:
primeiro, meu pai, que se tomara um negociante próspero, procurava um hobby; segundo, e creio que mais
importante, foi o fato de os meus pais pretenderem afastar os seus filhos adolescentes das \u201ctentações\u201d da vida
da cidade.
Na fazenda interessei-me por duas coisas que tiveram provavelmente uma influênci&real no meu trabalho
futuro. Ficava fascinado pelas grandes borboletas noturnas (estavam então em voga os livros de Gene
Stratton-Porter) e tornei-me uma autoridade na bela Luna, no Polyphemus, na Cecropia e nos outros
lepidópteros que habitavam nossos bosques. Capturava com muito trabalho as borboletas, cuidava das larvas,
conservava os casulos durante os longos meses de inverno, experimentando assim algumas das alegrias e das
frustrações do cientista quando procura observar a natureza.
Meu pai resolvera organizar a sua nova fazenda numa base científica e, para isso, adquirira um grande número
de livros sobre agricultura racional. Entusiasmava os filhos a ganharem independência, encorajando-os a
lançarem-se por si sós em empreendimentos lucrativos. Por isso, tanto meus irmãos como eu tínhamos muitas
galinhas e, vez por outra, tratávamos de carneiros, de porcos ou de vacas desde que nasciam. Tomei-me
assim um estudioso da agricultura científica e só recentemente percebi que foi esse o caminho que me
conduziu a uma compreensão fundamental da ciência. Não havia ninguém para me dizer que a obra de
Morison, Feeds and Feeding, não era um livro para um adolescente de catorze anos e, por isso, mergulhei nas
suas centenas de páginas, aprendendo como se conduzem as experiências, como se comparam grupos de
controle com grupos experimentais, como se tomam constantes as condições, variando os processos, para que
se possa estabelecer a influência de uma determinada alimentação na produção de carne ou na produção de
leite. Aprendi como é dificil verificar uma hipótese. Adquiri desse modo o conhecimento e o respeito pelos
métodos científicos através de trabalhos práticos.
A graduação e a pós-graduação
Comecei a faculdade em Wisconsin estudando agricultura. Uma das coisas de que me lembro melhor era a
veemência de um professor de agronomia quando se referia ao estudo e à aplicação dos fatos. Ele insistia na
futilidade de um conhecimento enciclopédico em si mesmo e concluía: \u201cNão sejam um vagão de munições;
sejam uma espingarda!\u201d
Durante meus dois primeiros anos de faculdade,