tornar se pessoa carl rogers
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tornar se pessoa carl rogers


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vivência.
Os clientes aprendem pouco a pouco que a experiência é um recurso amigável e não um inimigo a recear.
Penso num cliente que, perto do fim da terapia, quando uma questão o embaraçava, colocava a cabeça entre as
mãos e dizia: \u201cVejamos o que é que eu estou sentindo. Quero aproximar-me disso. Quero saber o que é\u201d. E
depois esperava, tranqüila e pacientemente, até poder discernir a natureza exata dos sentimentos que nele
ocorriam. Sinto muitas vezes que o cliente tenta ouvir a si mesmo. tenta ouvir as mensagens e as significações
que lhe são comunicadas a partir das suas próprias reações fisiológicas. Não tem mais tanto medo do que irá
descobrir. Não tarda a compreender que suas reações e experiências internas, as mensagens dos seus
sentimentos e das suas vísceras, são amigas. Começa a querer estar próximo das suas fontes internas de
informação mais do que permanecer fechado a elas.
Maslow, no seu estudo das pessoas a quem chama autorealizadas, nota essa mesma característica. Falando
desses indivíduos, diz: \u201cSua facilidade de penetração na realidade, sua maior aproximação da uma aceitação
parecida com a do animal ou com a da criança, e sua espontaneidade implicam uma consciência superior dos
seus próprios impulsos, dos seus próprios desejos, opiniões e reações subjetivas em geral\u201d (4, p. 210).
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Essa maior abertura ao que se passa no interior está associada a uma abertura semelhante à experiência da
realidade exterior. Maslow poderia estar falando de clientes que conheci quando diz: \u201cOs indivíduos auto-
realizados têm uma maravilhosa capacidade para uma apreciação constante, fresca e ingênua dos bens
fundamentais da vida, com fervor, prazer, encanto e mesmo êxtase, por mais gastas que estas experiências
possam parecer aos outros\u201d (4, p. 214).
A caminho de uma aceitação dos outros
Intimamente ligada a essa abertura à experiência, tanto interior como exterior, dá-se de um modo geral uma
abertura e uma aceitação das outras pessoas. À medida que um indivíduo se torna capaz de assumir sua
própria experiência, caminha em direção à aceitação da experiência dos outros. Ele aprecia e valoriza tanto
sua periência como a dos outros por aquilo que elas são. Para citarmos novamente Maslow, referindo-se aos
seus indivíduos auto-realizados: \u201cNinguém se queixa da água por ser úmida, nem das rochas por serem
duras... Como a criança olha para o mundo com uns grandes olhos inocentes e que não criticam, limitando-se
simplesmente a observar e a reparar no que se passa, sem raciocinar nem perguntar se poderia ser de outra
maneira, assim o indivíduo auto-realizado olha para a natureza humana tanto em si como nos outros\u201d (4, p.
207). Essa atitude de aceitação em relação ao que existe desenvolve-se no cliente ao longo da terapia.
Caminhando para a confiança em si mesmo
Outra forma de descrever esse padrão, que encontro em cada cliente, é dizer que, cada vez mais, ele confia
nesse processo que é ele mesmo, valorizando-o. A observação dos meus clientes fez-me compreender muito
melhor as pessoas criadoras. El Greco, por exemplo, deve ter compreendido, ao olhar para alguns de seus
trabalhos iniciais, que \u201cos bons artistas não
pintam assim\u201d. Mas confiava suficientemente na sua própria experiência de vida e em si mesmo para poder
continuar a exprimir as suas percepções pessoais e únicas. Era como se dissesse: \u201cOs bons artistas não pintam
assim, mas eu pinto\u201d. Num outro campo, Ernest Hemingway estava certamente consciente de que \u201cos bons
escritores não escrevem assim\u201d. Felizmente, porém, resolveu ser Hemingway, ser ele próprio, de preferência a
tornar-se qualquer outra concepção de bom escritor. Einstein parecia nunca pensar no fato de que os bons
fisicos não pensavam como ele. Mais do que a renunciar devido à sua inadequada preparação acadêmica em
fisica, preferiu simplesmente ser Einstein, com os seus pensamentos próprios, ser ele mesmo de uma maneira
tão verdadeira e tão profunda quanto possível. Não se trata de um fenômeno que ocorra apenas com o artista
ou com o gênio. Repetidas vezes vi alguns dos meus clientes, pessoas simples, adquirirem uma importância e
uma criatividade na sua esfera própria, à medida que ganhavam maior confiança no processo que neles se
desenvolvia e ousavam ter os seus próprios sentimentos, viver com valores que descobriram dentro de si e
exprimi-los na sua forma pessoal e única.
A direção geral
Vou procurar indicar concisamente o que é que está implicado nesse padrão de movimento que observei nos
meus clientes, cujos elementos venho tentando descrever. Parece indicar que o indivíduo se move em direção
a ser, com conhecimento de causa e numa atitude de aceitação, o processo que ele é de fato em profundidade.
Afasta-se do que não é, de ser uma fachada. Não procura ser mais do que é, com todos os sentimentos de
insegurança e os mecanismos de defesa que isso implica. Não tenta ser menos do que é, com os sentimentos
implícitos de culpabilidade ou depreciação de si. Está cada vez mais atento ao que se passa nas profundezas
do seu ser fisiológico e emocional e descobre-se cada vez mais inclinado a ser, com uma
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precisão e uma profundidade maiores, aquilo que é da maneira mais verdadeira. Um cliente, sentindo a
direção que está tomando, pergunta a si mesmo com espanto e incredulidade, durante uma entrevista: \u201cVocê
quer dizer que se eu realmente fosse como eu sinto que sou, tudo estaria certo?\u201d A sua própria experiência e a
de muitos outros clientes faz tender para uma resposta positiva. Ser realmente o que é, eis o padrão de vida
que lhe parece ser o mais elevado, quando é livre para seguir a direção que quiser. Não se trata simplesmente
de uma escolha intelectual de valores, mas parece ser a melhor descrição do comportamento hesitante,
provisório e incerto através do qual procede à exploração daquilo que quer ser.
Alguns mal-entendidos
Para muitas péoas a trajetória de vida que eu me esforcei por descrever parecer estar longe de ser satisfatória.
Desde que isso corresponda a uma efetiva diferença de valores, eu a respeito enquanto diferença. Descobri,
porém, que às vezes uma atitude dessas é devida a certos mal-entendidos. Gostaria de esclarecê-los na medida
do possível.
Isto implica fixidez?
Para alguns, ser o que se é é permanecer estático. Eles vêem um tal objetivo ou valor como sinônimo de estar
fixo ou imutável. Nada pode estar mais longe da verdade. Ser o que se é é mergulhar inteiramente num
processo. A mudança encontra-se facilitada, e provavelmente levada ao extremo, quando se assume ser o que
verdadeiramente se é. Na realidade, é a pessoa que nega os seus sentimentos e as suas reações que procura
tratamento. Essa pessoa tentou durante muitos anos modificar-se, mas encontrou-se fixada em
comportamentos que lhe desagradam. Foi apenas ao tomar-se mais no que é, que pôde ser mais o que em si
mesma negaram e encarar assim qualquer mudança.
Isso implica maldade?
Uma reação ainda mais habitual em relação a essa trajetória de vida que se descreveu é que ser o
que realmente se é significaria ser mau, descontrolado, destrutivo. Significaria largar uma espécie
de monstro no mundo. É uma opinião que conheço muito bem, pois a encontro em quase todos os
meus clientes:
\u201cSe eu ousasse deixar correr os sentimentos que represei aqui dentro, se por qualquer hipótese eu
vivesse esses sentimentos, seria uma catástrofe.\u201d É esta a atitude, expressa ou não expressa, de
quase todos os clientes recém-chegados que experimentam os aspectos desconhecidos de si
mesmos. Mas sua vivência na terapia contraria esses receios. O indivíduo descobre pouco a pouco
que pode ser a sua irritação, quando essa irritação é sua verdadeira reação, e que, aceita ou
transparente, essa irritação não é destrutiva. Descobre que pode ser o seu receio e que saber que tem
medo não o dissolve. Descobre que pode ter pena de si e que