Profissionalização de Aux. de Enfermagem -  Caderno 4
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Profissionalização de Aux. de Enfermagem - Caderno 4


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melhores condições nos serviços de saúde.
É desejável e primordial que os as auxiliares de enfermagem
possam discutir sobre a falta de estrutura e organização dos serviços e
percebam que isso as penaliza porque são eles / esses profissionais
que mantêm um contato mais estreito e direto com a clientela, e en-
frentam de perto, seu sofrimento e suas reais necessidades.
Sabemos que é o auxiliar de enfermagem que responde de imedi-
ato pela falta de medicamentos; de materiais e equipamentos; pela au-
sência de vagas para internação e / ou atendimento e, por isso, é alvo
do descontentamento, percebe as angústias e os sofrimentos do que
procuram os serviços de saúde.
Fica clara a importância de discutirmos e estimularmos a partici-
pação da comunidade nos espaços onde se decide o uso dos recursos,
por exemplo, nos Conselhos Municipais e Distritais de Saúde. Hoje, no
Brasil, as possibilidades de participação são maiores em alguns casos,
como no Programa de Saúde da Família \u2013 PSF.
Precisamos reconhecer que a passividade não é a melhor forma
de encarar os problemas. Eles também interessam à comunidade e não
são fatalidades, isto é, não acontecem por obra do destino, ou porque
\u201ctem que ser assim\u201d.
É preciso desenvolver as discussões e trocar idéias com nossos
colegas. Se pudermos discutir em nossos espaços de trabalho, ótimo!
Se não, vamos tentar criar condições para que seja possível no futuro.
Podemos nos reunir nos sindicatos e em outros espaços corporativos.
Será também proveitoso contar com o apoio das pessoas que aten-
demos. E isso é possível se, ao mesmo tempo em que lutamos pela melhoria
das condições de trabalho, de remuneração e pela maior participação na
definição dos recursos, prestamos mais atenção na forma de receber e de
nos relacionar com a clientela. Os frutos de uma mudança de atitude fren-
te à clientela seriam o reconhecimento e a valorização de nosso trabalho .
É preciso responder a algumas perguntas que ficam no ar: se o
trabalho que realizamos foi uma escolha, quem ou o que nos obriga a
cuidar dos outros? Existem vários trabalhos que não requerem tanta
proximidade com as pessoas...
É importante que fiquemos atentos para a alegada \u201cfalta de tempo
para pensar nessas coisas\u201d. A falta de reflexão deixa nosso trabalho muito
mecânico, automático. Acaba sendo, ao mesmo tempo, causa e conseqüên-
cia de um sentimento de desvalorização do nosso trabalho, por nós mesmos.
Finalmente, chamamos sua atenção para o fato de que, se o pro-
fissional reconhece que atende mal, expõe seus preconceitos com rela-
ção à clientela e está revelando o seu descompromisso e descaso com
Passividade - Quietude, ato
de ficar passivo, quieto, não
fazer nada.
Penalizar - Punir, vitimizar,
castigar.
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PPPPP EEEEEAAAAARRRRROOOOOFFFFF
aqueles a quem deveria dedicar sua atenção. Revela seu desprezo e
desvalorização pelo outro.
Ao mesmo tempo, quando espera que a população obedeça, admite
uma relação de autoritarismo e de infantilização dos clientes. Ora, não
temos que esperar a obediência de ninguém. As pessoas que chegam até
nós, devem ser bem informadas e entender o que falamos, para avaliar se
concordam com as ações que propomos ou se discordam delas.
É possível que você nunca tenha parado para pensar nisso.
No entanto, há princípios básicos de cidadania que precisam ser
respeitados. As pessoas têm autonomia, isto é, têm independência, têm
liberdade para decidir o que querem para si, e têm o direito de serem
bem informadas, inclusive, para dizer não ao que estamos propondo.
Quando são privadas dessa autonomia, em geral, terão um acompa-
nhante para assumir as decisões (pais, filhos, irmãos, cônjuges).
Então, não há motivos para ficarmos aborrecidos pelo fato de
nossos clientes fazerem perguntas. Uma explicação que só use termos
técnicos em nada ajuda o seu questionamento sobre o medicamento
que lhe oferecemos, a necessidade de urinar na comadre, e não no vaso
sanitário, o seu pedido de informações sobre a realização ou o resulta-
do de exames.
É sempre bom ter em mente que o corpo com que estamos lidan-
do ou sobre o qual estamos falando, não nos pertence. Quando acha-
mos que a clientela precisa se submeter a nossas ações estamos, nova-
mente, diante dos ingredientes básicos da violência: poder, arrogância
e autoritarismo.
1.10 As coisas que a gente fala
Existem situações que, de tão presentes em nosso cotidiano, não
causam mais espanto ou constrangimento. As frases ditas nos espaços
hospitalares e ambulatoriais pelos profissionais de saúde (não impor-
tando a categoria a que pertençam) , podem ser muito duras. Podem até
arrepiar, por revelarem grosseiras que envolvem os preconceitos mais
escondidos!
Quem nunca ouviu falar durante um trabalho de parto ou um
aborto: \u201cna hora de fazer, você gostou, não foi?\u201d
Diante de uma mulher que engravidou outra vez: \u201cmas, outra
vez?\u201d ou \u201ca senhora não tem televisão em casa?\u201d
Diante de uma mãe segurando a criança para uma injeção: \u201csegu-
ra direito essa criança, mãe, ou ela vai ficar sem vacinar!\u201d
Diante de um alcoólatra: \u201clá vem aquele bêbado outra vez!\u201d
Diante de uma mulher ansiosa: \u201cisso é chilique\u201d
Cidadania - É a possibilidade
de os cidadãos exercerem
seus direitos civis e políticos,
nos diversos espaços e mo-
mentos de suas vidas.
A cidadania é mais aperfei-
çoada e melhor exercida, na
medida em que os cidadãos
participam das decisões de
seu país, de seu estado e de
sua cidade, votando nas elei-
ções e organizando-se em
seus espaços de atividades
(sindicatos, conselhos de clas-
se, associação de bairros,
conselhos de saúde e outros).
Você já pensou que as pesso-
as têm direito a recusar aquilo
que nós lhe oferecemos?
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 Ética Profissional
Diante de paciente cirúrgico: \u201cIsso não é nada, é lógico que o
senhor tem que sentir dor\u201d.
Diante de uma pessoa em estado terminal: \u201cpra que mudar o
decúbito? vai morrer mesmo\u201d.
Diante de um homossexual: \u201clá vem a amiguinha (homem) dele!\u201d
Certamente existem outros exemplos que você será capaz de lembrar.
O que parece claro é que os responsáveis por frases como as
citadas esquecem que, na situação em que se encontram, cada um des-
ses pacientes está fragilizado e submetido às normas dos serviços que
nós, profissionais de saúde, estamos impondo.
Certamente, não gostam do que ouvem; no entanto, muitas ve-
zes não reagem ou permanecem passivas uma vez que , na situação,
sentem-se desiguais, inferiorizados.
Não se deve esquecer também qual é a clientela que, em geral,
freqüenta os serviços de saúde. São mulheres. Mulheres que levam as
crianças, que vão às consultas de pré-natal, que vão dar à luz. Mulheres
que vão buscar o remédio que acabou. Os homens , quando vão aos
serviços de saúde, já estão sem condições de trabalhar , porque estão
doentes, ou são idosos.
A clientela a que fazemos referência corresponde, em geral, à
parcela da população desvalorizada socialmente. E nós, dentro dos
serviços de saúde, muitas vezes sem perceber, contribuímos para re-
forçar sua desvalorização.
1.11 Minha casa, meu castelo...
Também devem estar incluídas em nossa reflexão as experiências de
visita domiciliar, as situações de tratamento e \u201cinternação\u201d domiciliar.
Ao entrarmos na casa das pessoas , estamos penetrando na intimi-
dade de suas vidas. Somos estranhos àquele ambiente e é fundamental não
confundir nossa curiosidade com as ações de saúde que fomos ali realizar.
O objetivo de uma visita domiciliar pode ser a promoção de ações básicas
de saúde, mas também pode ocorrer para a realização de tratamentos.
Muitas vezes pertencemos ao mesmo bairro, à mesma comunidade, ou
temos até um relacionamento mais intenso com pessoas que visitamos.
Não devemos misturar nossa vida de relações pessoais com nosso trabalho
profissional. O que vemos, o que ouvimos e o que sabemos, pessoalmente
e profissionalmente, não pode