Profissionalização de Aux. de Enfermagem -  Caderno 7
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Profissionalização de Aux. de Enfermagem - Caderno 7


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derrubadas, muitas ve-
zes não somos capazes de identificar qual
foi a causadora do desastre, até porque uma
foi causando a queda da outra.
Com os fatores geradores do trans-
torno mental acontece algo muito pareci-
do. Precisamos compreender que nós, se-
res humanos, funcionamos como um todo,
ou seja, vários fatores influenciam ao mesmo tempo os nossos compor-
tamentos, as nossas escolhas. Por exemplo, se alguém desenvolve um
medo excessivo da violência atual, a ponto de recusar-se a sair às ruas,
ou até mesmo a atender o telefone, assistir televisão ou chegar ao portão
de casa, podemos pensar de imediato que há várias causas colaborando
para isso, como: a história de vida do indivíduo, se foi uma criança muito
protegida ou excessivamente exposta; os mecanismos fisiológicos que
atuam na resposta de medo; o próprio aumento da violência nos dias
atuais e a exploração que a imprensa faz disso; alguma perda de pessoa
querida em período recente. Tudo pode atuar ao mesmo tempo.
Esse é um conceito do qual ouvimos muito falar atualmente: o
de multicausalidade. Ou seja, várias são as causas que fazem com
que o indivíduo venha a desenvolver, em determinado momento de
sua história, um transtorno mental.
No entanto, muitas vezes é difícil trabalharmos com esse concei-
to em mente, pois não somos acostumados a avaliar situações como
um todo, além de ficarmos achando que se encontrarmos uma única
causa para o problema, o resolveremos mais depressa. Essa forma de
raciocínio é tão tentadora que existem até muitos especialistas que fi-
cam insistindo que a causa de tal transtorno mental é \u201capenas\u201d física ou
\u201capenas\u201d emocional. O que acontece é que, com isso, acabamos vendo
só um pedacinho do paciente e acabamos por não ajudá-lo a se ver por
inteiro, dificultando o processo de melhora. Felizmente, profissionais
com essa visão restrita estão ficando mais raros.
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 Saúde Mental
Assim, precisamos tornar nossa visão mais ampla. Quando nos
detemos a tentar conhecer mais as pessoas que estamos atendendo,
saber do que gostam, de onde vêm, como vivem, torna-se mais fácil
fazer uma idéia dos fatores que podem estar exercendo maior influên-
cia no momento atual de seu transtorno.
De forma simplificada, podemos dizer que três grupos de fatores
influenciam o surgimento da doença mental: os físicos ou biológicos,
os ambientais e os emocionais.
5.1.1. Fatores físicos ou
biológicos
O nosso corpo funciona de forma inte-
grada, isto é, os aparelhos e sistemas se comu-
nicam uns com os outros e o equilíbrio de um
depende do bom funcionamento dos outros.
Muitas vezes podemos achar difícil de
entender como sintomas tão \u201cemocionais\u201d
como sentir-se culpado ou ter pensamentos re-
petidos de morte ou ouvir vozes possam ter
também uma base orgânica, mas ela existe. O
envelhecimento, o abuso de álcool ou outras
substâncias são exemplos comuns. Em muitos casos essa base já pode
ser identificada e descrita pelos especialistas, em outros casos ainda não.
O que se sabe é que sempre que temos alguma emoção, seja ela
agradável ou desagradável, ocorrem uma série de trocas elétricas e quí-
micas em nosso cérebro, o que já constitui, por si só, um fator orgânico.
Podemos definir os fatores físicos ou biológicos como sendo as
alterações ocorridas no corpo como um todo, em determinado órgão ou
no sistema nervosos central que possam levar a um transtorno mental.
Dentre os fatores físicos ou biológicos que podem ser a base ou
deflagrar um transtorno mental, existem alguns mais evidentes, que
avaliaremos a seguir.
a) Fatores genéticos ou hereditários
Quantas vezes já ouvimos dizer que fulano \u201cpuxou\u201d o gênio do
pai? Ou que tem \u201cproblema de cabeça\u201d que nem a tia? Ou que é nervo-
so que nem a mãe?
Quando usamos essas expressões, estamos nos referindo às pos-
síveis heranças genéticas que possamos trazer em nosso comporta-
mento e forma de ser.
O nome \u201cgenético\u201d vem da palavra genes, que são grandes mo-
léculas que existem dentro de nossas células contendo informações
Qualquer alteração no corpo
como um todo é chamada de
sistêmica.
Herança genética é tudo aqui-
lo que \u201cpassa\u201d do pai e da
mãe para os filhos através de
códigos que vêm inscritos em
nossas células.
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PPPPP EEEEEAAAAARRRRROOOOOFFFFF
sobre como nosso corpo deve se organizar. As informações contidas
nos genes são muitas e não são todas que utilizamos; algumas ficam
guardadas.
Em Psiquiatria, os fatores genéticos ou hereditários têm sido muito
falados ultimamente, muitas vezes em programas de televisão, sempre
caracterizados como grandes descobertas. Isso porque embora popular-
mente sempre se diga que a pessoa com transtorno mental o herdou de
alguém da família, há muito tempo os cientistas tentam identificar se
essa \u201cherança\u201d veio através do corpo ou do ambiente em que a pessoa
foi criada. Atualmente, os avanços da Medicina têm permitido identifi-
car alguns genes que possam ter influência no desenvolvimento de trans-
tornos mentais.
No entanto, é importante deixar claro que quando se fala de fato-
res genéticos em Psiquiatria, estamos falando de tendências, predispo-
sições que o indivíduo possui de desenvolver determinados
desequilíbrios químicos no organismo que possam levá-lo a apresentar
determinados transtornos mentais.
Ainda assim, é uma grande armadilha acreditarmos que aí está
\u201ctoda\u201d a causa da doença mental, pois passamos a acreditar que a solu-
ção do problema só estará neste ponto e deixamos de prestar atenção
em todos os outros aspectos da pessoa que atendemos em sofrimento
mental.
Dessa forma, a constituição genética precisa ser vista como uma
\u201cfacilidade orgânica\u201d para desenvolver um determinado transtorno
mental, mas não há garantias de que, ao longo da vida do sujeito, tal
fato ocorrerá, visto que dependerá de outros fatores para que tal \u201cten-
dência\u201d de fato se manifeste.
Em alguns filmes de ficção do futuro, vemos pessoas tendo car-
tões magnéticos contendo informações sobre seu genoma (o \u201cmapa\u201d
de seus genes), utilizados como carteira de identidade. Os cientistas
afirmam que isto não está tão longe de acontecer. Imaginamos até que
seja possível, mas esperamos que até lá a sociedade tenha evoluído o
suficiente para não usar de forma preconceituosa tais informações. Ou
talvez venhamos a descobrir que todos nós temos uma ou outra altera-
ção genética que possa nos predispor ao transtorno mental.
b) Fatores pré-natais
As condições de gestação, dentre eles os fatores emocionais, eco-
nômicos e sociais, o consumo de álcool, drogas, cigarro e de alguns
tipos de medicação podem prejudicar a formação do bebê, gerando pro-
blemas futuros que poderão comprometer sua capacidade adaptativa
no crescimento e desenvolvimento, podendo facilitar o surgimento da
doença mental.
Os genes se organizam den-
tro de estruturas que se cha-
mam cromossomas (tudo isso
ainda dentro de cada célula
do nosso corpo). Em cada célula
existem 46 cromossomas, orga-
nizados em pares. Todas as
células de nosso organismo
possuem os mesmos 46
cromossomas, menos as células
germinativas, ou seja, os óvulos
e os espermatozóides. Essas
células contêm somente 23
cromossomas, apenas a meta-
de das outras células do corpo.
Quando ocorre a fecundação,
os cromossomas de uma e
outra célula germinativa
(espermatozóide e óvulo) se
unem, formando pares, so-
mando um total de quarenta
e seis, dando início ao novo ser.
Quando os cromossomos se
unem, os genes neles contidos
formam diferentes combina-
ções, o que faz com que filhos
dos mesmos pais tenham ca-
racterísticas diferentes.
Há casos nos quais a influên-
cia genética é determinante
de um problema. Por exem-
plo, a existência de um tercei-
ro cromossoma no par 21 ge-
rará, sem dúvida, a Síndrome
de Down, que trará uma situa-
ção de atraso mental para
esse indivíduo. Isso nos infor-
ma que esse indivíduo terá
uma adaptação mais difícil