Profissionalização de Aux. de Enfermagem -  Caderno 7
124 pág.

Profissionalização de Aux. de Enfermagem - Caderno 7


DisciplinaCurso416 materiais336 seguidores
Pré-visualização40 páginas
Saúde Mental
como uma imposição divina, uma interferência dos deuses. Por con-
seqüência, o modo como a sociedade a encarava tornava-se ambí-
guo, pelo fato de que tanto poderia ser o enfermo um portador, ou
intérprete da vontade divina, como também um castigado pelos
deuses ou um endemoninhado.
Desta forma o tratamento não poderia ser aplicado de maneira
diferente. Este tinha como objetivo controlar, apaziguar ou expulsar
estas forças \u201cdemoníacas\u201d.
Na Grécia Antiga, mesmo que os distúrbios mentais fossem
encarados ainda com origens sobrenaturais, procurou-se em causas
somáticas a origem dos distúrbios mentais. Neste novo pensamen-
to, a doença era causada pelo desequilíbrio interno, originado pelos
humores corporais. A melancolia, por exemplo, era descrita como
um quadro de tristeza causado pela \u201cbílis negra\u201d do fígado.
Também neste modelo surge, pela primeira vez, a descrição da
histeria, que curiosamente era atribuída ao deslocamento do útero
(histero), por falta de atividades sexuais.
Pode parecer engraçado, mas acreditava-se que movendo-se pelo
corpo, o útero poderia atingir o cérebro, causando dispnéia, palpitação
e até desmaios. Recomendava-se então, como terapêutica, o casamen-
to para viúvas e moças, além de banhos vaginais com ervas para atrair
o útero de volta ao seu local de origem.
Voltemos agora às imagens dos filmes aos quais já assistimos.
Qualquer filme que trate da vida de Jesus apresenta soldados armados
com escudos e lanças e que são os responsáveis pela crucificação. Es-
tes soldados pertenciam ao Império Romano. Pois bem! No Império
Romano, o tratamento dos transtornos mentais adquiriu novas idéias,
que defendiam uma maior relação individual entre o médico e o porta-
dor de transtornos mentais, e se diferenciava as alucinações das ilu-
sões, recomendando-se que o tratamento da primeira doença fosse re-
alizado em salas iluminadas, devido ao medo que o portador de aluci-
nações tinha da escuridão.
Ao contrário da concepção grega, que atribuía à migração do útero
a causa da histeria, Galeno, em Roma, afirmava que a retenção do lí-
quido feminino pela abstinência sexual causava envenenamento do
sangue, originando as convulsões. Assim, a histeria não tinha uma cau-
sa sexual-mecânica, como afirmava o paradigma grego, mas uma causa
sexual-bioquímica.
Entretanto, para o eminente médico romano, não apenas a reten-
ção do líquido feminino era a causa dos distúrbios psíquicos. Para o
alívio das mulheres da época, e das de hoje, o homem também tinha as
suas alterações mentais oriundas da retenção do esperma. Desta for-
ma, as relações sexuais e a masturbação, para Galeno, serviriam de
alívio para as tensões.
O tratamento era um conjunto
de métodos que variavam de
rituais mágicos, exorcismo e
até supliciação (tortura) dos
doentes, empregados por
homens a quem se atribuía a
capacidade de manter um
inter-relacionamento com o
sobrenatural, criando explica-
ções dentro de suas respecti-
vas crenças. Ainda hoje, esses
tratamentos são utilizados por
algumas pessoas ou grupos
no Brasil. Você já ouviu falar,
viu ou vivenciou algum caso
desse?
Ainda hoje não é raro, quan-
do uma mulher mostra-se
irritada ou mal humorada,
dizerem que \u201cé falta de casa-
mento\u201d. Isto acontece na sua
cidade?
Ambígua \u2013 É toda situação
em que se apresenta duas
faces ou versões, neste caso
como enviado de Deus ou do
demônio.
Causas somáticas \u2013 É todo dis-
túrbio cuja origem é orgânica.
Humores - Substância orgâni-
ca líquida ou semilíquida,
como por exemplo: bile, san-
gue, esperma.
17
PPPPP EEEEEAAAAARRRRROOOOOFFFFF
Deixando de lado a questão das flutuações dos líquidos seminais,
a verdade é que foi graças aos romanos que, pela primeira vez, surgiu
uma concepção diferente com relação aos doentes mentais. Foram cri-
adas leis em que se detalhava as várias condições, tais como insanidade
e embriaguez, que, se presentes no ato do crime, poderiam diminuir o
grau de responsabilidade do criminoso. Outras definiam a capacidade
do doente mental para contratar casamento, divorciar-se, dispor de seus
bens, fazer testamento e até testemunhar.
Com o fim do Império Romano, em 476 d.C., iniciou-se um perí-
odo que a História denominou de Idade Média. Foi também o período
em que o cristianismo expandiu-se. Muitos chamam a Idade Média de
\u201cIdade das Trevas\u201d, mas não é pela falta de energia elétrica, que ainda não
havia sido descoberta, e sim devido ao fato de todo pensamento cultural
estar ligado às idéias religiosas. Isso fez com que todas as descobertas no
campo científico e nos outros campos do conhecimento humano progre-
dissem muito lentamente.
Neste período, o conceito de doença mental que surgiu foi a de
uma doutrina dos temperamentos, isto é, do estado de humor do paci-
ente. \u201cMelancolia\u201d era o termo utilizado com freqüência para descre-
ver todos os tipos de enfermidades mentais.
Mas afinal, o que eles chamavam de melancolia?
Constantino Africano, fundador da Escola de Salermo, descre-
veu os sintomas de melancolia como sendo a tristeza - devido à perda
do objeto amado -, o medo - do desconhecido -, o alheamento - fitar o
vazio - e a culpa e temor intenso nos indivíduos religiosos. São Tomás
de Aquino descreveu a mania - fúria patológica -, a psicose orgânica -
perda de memória - e a epilepsia, além de comentar também sobre a
melancolia. Mas Aquino acreditava que a causa e o tratamento da do-
ença mental dependiam fortemente da influência dos astros sobre a
psique e do poder maléfico dos demônios.
Apesar de todas essas concepções científicas, seguindo o pensa-
mento religioso da época, a possessão da mente de uma pessoa por um
espírito maligno, e suas alterações verbais e de comportamento, retornou
como a principal causa dos distúrbios mentais, como havia sido em
épocas anteriores.
Desta forma, muitos dos portadores de alienações mentais en-
contraram a \u201ccura\u201d para seus males nas fogueiras e nos patíbulos de
suplícios. Aos doentes mentais que escapavam a essa \u201cterapêutica\u201d
imposta pelas idéias religiosas da época, o abandono à própria sorte foi
o que restou. Assim, os poucos esforços como os empreendidos duran-
te o governo do imperador romano Justiniano, para que os portadores
de transtornos mentais tivessem direito a tratamento juntamente com
outros enfermos em instituições próprias, foi abandonado.
Durante todo o período da Idade Média, as epidemias como a \u201cpeste
negra\u201d aliadas à \u201clepra\u201d causavam grande medo na população. Quando
Ainda hoje é comum dizer
que alguém é \u201cde lua\u201d quan-
do queremos nos referir a
uma pessoa que muda cons-
tantemente de humor.
! Por mais estranhas que essas
teorias possam parecer, ainda
na atualidade ouvimos falar que
o esperma acumulado sobe ao
cérebro, transformando-se em
algo semelhante ao queijo, ou
que a menstruação pode \u201csubir
à cabeça\u201d, ocasionado altera-
ções de comportamento.
Psique \u2013 Palavra de origem
grega que, neste contexto,
significa \u201cmente\u201d.
Patíbulos de suplícios \u2013 É a
denominação figurada dos
locais em que se realizam
manobras de tortura e castigo,
como surras, banhos gelados,
sangrias e tantas outras.
18
 Saúde Mental
estes \u201cflagelos\u201d começaram a se dissipar, achava-se que uma nova ameaça
pairava sobre a população: os \u201cloucos\u201d, criminosos e mendigos.
Se por um lado, realmente liberta de muitos preceitos religiosos a
ciência pode caminhar um pouco mais livremente, para os portadores
de enfermidades mentais novas nuvens tempestuosas se aproximavam.
Para uma sociedade que iniciava um processo de produção capi-
talista, a existência de indivíduos portadores de transtornos mentais,
ou de alguma forma \u201cinúteis\u201d à nova ordem econômica (tais como os
\u201cloucos\u201d, os criminosos e os mendigos), andando livres de cidade em
cidade tornava-se uma ameaça.
Os antigos \u201cdepósitos de leprosos\u201d, cuja ameaça já não se fazia
tão presente, abriram suas portas para