Profissionalização de Aux. de Enfermagem -  Caderno 7
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Profissionalização de Aux. de Enfermagem - Caderno 7


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médico continuou não dando importância à queixa da
\u201clouca\u201d e foi atender outros pacientes, garantindo que, se a igno-
rassem, a \u201cdor\u201d iria passar. Sua filha, inconformada com a demo-
ra e a falta de informações sobre a mãe, invadiu a enfermaria,
encontrando sua mãe morta, vítima de um infarto agudo do
miocárdio. Sem credibilidade por ser \u201clouca\u201d, morreu sozinha e
sem assistência.
Essa história serve como alerta para refletirmos sobre a dinâmica
de avaliar e cuidar adotada nos serviços de emergência, que faz deste
setor um lugar da unidade hospitalar cujo princípio básico de atendi-
mento é começar imediatamente a terapêutica dos transtornos que colo-
cam a vida em risco. E, apesar de ser um setor que exige rapidez e eficiência
no atendimento, não tem que ser desprovido de sensibilidade.
Mas que transtornos são esses? Os sociais? Os mentais? Os clínicos?
A estas perguntas, nenhum protocolo na área de emergência con-
segue responder, já que esses três transtornos estão entrelaçados e arti-
Distúrbio neurovegetativo \u2013
Distúrbio nervoso de fundo
emocional que se caracteriza
por agitação, confusão e an-
gústia.
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culados. Sendo assim, o diagnóstico precoce depende apenas do poder
de observação de cada profissional ao analisar uma determinada situa-
ção. Pode-se definir a observação como o ato de perceber, com todos
os órgãos do sentido, o mundo que nos rodeia, através do olhar atento
(visão), da percepção dos odores (olfato), do escutar além do que foi
dito (audição), do relacionar as sensações gustativas com transtornos
clínicos e psíquicos (gustação) e da reação ao toque (tato). Mesmo que
alguns destes sentidos não sejam usados rotineiramente por nós em
nosso trabalho, o importante é que cada profissional desenvolva a sen-
sibilidade como habilidade.
Por isso, uma das fases mais importantes para demonstração da
sensibilidade na emergência é a avaliação primária, que deve conside-
rar a singularidade de cada cliente, através da coleta de dados subjeti-
vos, objetivos e da história de doenças pregressas e atuais.
Quando a sensibilidade é deixada para segundo plano, normal-
mente a equipe se confunde diante de um transtorno mental que simu-
le sinais e sintomas de obstrução de vias aéreas, insuficiência cardio-
pulmonar, coma e choque, comuns nas síndromes de ansiedade, como
no pânico ou na dissociação.
É bom descartar todas as possibilidades de falência nos sistemas
orgânicos, sempre pensando na possibilidade dos transtornos mentais
que podem somatizar e simular quadros de angústia cardiorrespiratória.
Qualquer displicência pode induzir a equipe ao erro de desenvolver
procedimentos desnecessários que colocam o cliente em risco de vida.
Isto não é difícil de acontecer nos casos de pacientes com trans-
tornos do pânico, diagnosticado ou não. Chegam às emergências com
dor no peito, dificuldade de respirar, palpitação, dispnéia e aperto no
peito. Inicialmente, estes dados subjetivos e objetivos levam a equipe a
pensar em déficit respiratório com comprometimento do coração, su-
gerindo oxigenioterapia, monitorização cardíaca e respiratória e possí-
vel entubação.
Nestes casos, a equipe deve estar alerta à história clínica do paci-
ente e aos eventos relacionados aos sinais e sintomas apresentados.
Sempre que o poder de observação é superficializado e metódico, a
equipe pensa em tudo, faz manobras de ressuscitação dignas de um
\u201cPlantão Médico\u201d, mas não consegue perceber que o foco desta crise
está localizado nos transtornos da mente.
A ausência de uma avaliação correta e de sensibilidade pode acar-
retar em problemas para a equipe. Certa vez, em um hospital de emer-
gência, a equipe médica, diante de um quadro de dificuldade respirató-
ria, decidiu por uma traqueostomia. Este fato resultou em abertura de
inquérito pela família da paciente já que a mesma apresentava a síndrome
do pânico e a equipe, ironicamente, entrou em pânico.
Dados subjetivos - Dizem res-
peito a tudo aquilo que não se
pode mensurar, como angús-
tia, palpitação, astenia, dor...
Dados objetivos - São dados
observáveis e mensuráveis,
tais como: sinais vitais, satura-
ção de oxigênio, sudorese,
ansiedade e agitação
psicomotora.
Não estamos aqui dizendo
que nestes casos deve-se
desconsiderar a dispnéia e a
taquipnéia. Mas convém
alertar que somente as mano-
bras de reanimação previstas
nos protocolos nem sempre
dão conta da complexidade
dos casos desencadeados a
partir de disfunções mentais.
Somatizar \u2013 Diz respeito aos
sintomas que se evidenciam
no corpo. Atenção.
Displicência \u2013 Descuido, ou
mesmo desleixo nas manei-
ras, no vestir, no proceder;
descaso, desmazelo, negli-
gência.
Plantão Médico - Seriado de
televisão que reproduz o aten-
dimento agitado de uma
grande emergência.
Traqueostomia \u2013 É um proce-
dimento de emergência e
consiste na abertura cirúrgica
da traquéia para facilitar/
permitir a entrada de ar para
os pulmões quando o pacien-
te apresenta dificuldade res-
piratória.
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PPPPP EEEEEAAAAARRRRROOOOOFFFFF
Para que essas histórias não façam parte do cotidiano dos nossos
locais de trabalho, passaremos a discutir sobre as diversas maneiras de
intervir em situações de crise, dando subsídios ao profissional para es-
colher as mais adequadas perguntas e comportamentos para realizar a
avaliação de usuários, que independem da história psíquica apresenta-
da. Apresentaremos, também os principais quadros de emergências psi-
quiátricas.
11.1 Caracterizando as intervenções diante
das crises
Pelos corredores das Unidades de saúde encontramos vários in-
divíduos que vivenciam uma crise, mesmo quando a apresentação da
sintomatologia é de natureza clínica. Qualquer contrariedade pode se
transformar em distúrbio nervoso de fundo emocional, trazendo danos
para o indivíduo e principalmente para aquelas pessoas que o cercam.
Isto nos faz defender que a emergência psiquiátrica deve estar integra-
da geográfica e funcionalmente à emergência clínica, e vice-versa.
Em qualquer circunstância, o ambiente ideal de atendimento de-
verá propiciar a segurança necessária para o usuário e a equipe de saú-
de. Nas salas não devem ter objetos perfurocortantes ou objetos que
podem se transformar em armas e serem usados contra o outro no mo-
mento da raiva.
Em alguns países economicamente dependentes de outros, como
o Brasil, são freqüentes os distúrbios mentais que se desencadeiam ten-
do como \u201cpano de fundo\u201d a pobreza. A distribuição desigual da renda e
do acesso ao trabalho, à moradia digna, ao lazer, à segurança, à alimen-
tação, à saúde e à educação contribuem para a desestruturação da men-
te humana.
Pode-se encontrar, nas emergências clínicas, alcoolistas em abs-
tinência; indivíduos com crise do pânico, buscando avaliação
cardiológica; suicídios por superdosagem de medicamentos; vítimas de
violência doméstica; e reação de estresse por estar desempregado ou
enlutado em decorrência de acidentes ou morte súbita. Enquanto que
nas emergências psiquiátricas são comuns as situações de psicoses, agi-
tação por drogas, indivíduos com descompensação de quadros
esquizofrênicos e maníacos.
A crise não escolhe umas pessoas e poupa outras; é universal.
Acomete ricos, pobres, negros, brancos, profissionais bem-sucedidos,
chefes de família e parlamentares, como também indivíduos que por
quaisquer causas estejam fragilizados nas relações com o mundo.
Nem a equipe de profissionais de saúde escapa do risco de desen-
volver algum transtorno mental. Quantas vezes notamos que nossos
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colegas de trabalho estão vivenciando momentos de angústia em famí-
lia, estão ingerindo medicamentos exageradamente e até estão se tor-
nando alcoólicos \u201csociais\u201d? Na verdade, todos nós podemos, de uma
hora para outra, entrar em crise, pois vivemos no mesmo mundo e
estamos suscetíveis às mazelas da modernidade.