23035A Literatura Portuguesa. MOISES  Massaud
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em casa de proprietários-lavradores. Nos romances 
ambientados no Porto como \u201cUma Família Inglesa\u201d, 
a ação gira em torno da praça, onde pululam o 
grande e o pequeno comerciante, o guarda-livros, o 
rapaz dos recados, o caixeiro, o capitalista reforma-
do, o rico filho-família herdeiro de uma grande firma. 
 
 Quando nos transporta para a aldeia como em 
\u201cAs Pupilas do Senhor Reitor\u201d, \u201cA Morgadinha dos 
Canaviais\u201d, \u201cOs Fidalgos da Casa Mourisca\u201d, o am-
biente é mais convencional: a casa do lavrador a-
bastado, pintada de maneira muito vaga, com cores 
frescas, novas, e principalmente o coração dos me-
xericos da terra: a venda, onde se reúnem os lavra-
dores, o brasileiro, o morgado decadente, o candi-
dato a deputado e, de passagem, a beata da aldeia 
ou a criada do Senhor Abade, o ambiente burguês 
do proprietário ou ao solar do velho fidalgo. 
 
 Seus tipos são magistralmente caracterizados 
com uma leve formação caricatural e humorística, o 
que não exclui a ternura. 
 
 Júlio Dinis deu um passo decisivo na nossa pro-
sa de ficção ao criar em Portugal o gênero burguês 
e moderno por excelência, o romance \u201ccontemporâ-
neo\u201d, amparado certamente por um público que 
tivera tempo de amadurecer desde os primeiros 
ensaios do romance histórico. 
 
O TEATRO NA ERA ROMÂNTICA 
 
 O teatro português retorna no romantismo, gra-
ças ao esforço despendido por Garrett, a grande 
figura da época. Com seu dinamismo e imaginação 
reformou o gênero através de suas obras de feição 
nacional e de alto sentido patriótico, uma das quais 
é obra-prima da dramaturgia Portuguesa e européia, 
o Frei Luís de Sousa. 
 
VIII \u2013 REALISMO (1865-1890) 
 
 Nos anos seguintes a 1860, o Romantismo entra 
em declínio e sofre os primeiros ataques por parte 
da nova geração que surge, os rebeldes estudantes 
de Coimbra. 
 
 Em 1861, Antero de Quental funda a Sociedade 
do Raio, com cerca de duzentos estudantes de Co-
imbra, com o objetivo de instaurar a aventura do 
espírito no seio do convencionalismo acadêmico e 
político. Num gesto de ousadia, Antero em 1862, 
escolhido para saudar o Príncipe Humberto da Itália, 
exalta a Itália livre e Garibaldi, então ferido em com-
bate. 
 
 Empolgados pelas novas idéias revolucionárias, 
Teófilo Braga publica dois volumes de versos, a 
Visão dos Tempos e as Tempestades Sonoras, e 
Antero edita as Odes Modernas. 
 
 Enquanto isso, no ultra-romantismo, Pinheiro 
Chagas escreve o Poema da Mocidade e Castilho, 
seu mestre nas Letras, escreve em um posfácio 
onde exalta o fiel discípulo e critica os jovens de 
Coimbra, em especial Antero e Teófilo, afirmando 
que lhes falta talento e gosto refinado. 
 Estava armada a polêmica, que passou a cha-
mar-se Questão Coimbrã: uma intensa polêmica em 
torno do confronto literário entre os ultra românticos 
liderados por Castilho e os jovens estudantes de 
Coimbra, cujo líder era Antero de Quental, iniciada 
após a publicação do livro Poema da Mocidade, de 
Pinheiro Chagas, onde Castilho escreve um posfá-
cio ironizando os jovens de Coimbra com o título 
"Bom senso e Bom gosto". Os jovens reagem: Ante-
ro escreve o folheto "A Dignidade das Letras e as 
Literaturas Oficiais", Teófilo de Braga escreve o 
folheto "Teocracias Literárias". Ramalho Ortigão e 
Camilo Castelo Branco destacam-se na defesa de 
Castilho. Esta polêmica durou meses, com freqüen-
tes publicações críticas de ambos os lados, termi-
nou com a vitória dos ideais da Geração de 1870, o 
que provocou uma autêntica renovação cultural e a 
afirmação do realismo. 
 
 Mais tarde, este grupo com alguns acréscimos 
promove, em 1871, As Conferências Democráticas 
do Cassino Lisbonense, objetivando colocar Portu-
gal na modernidade, \u201cestudando as condições de 
transformação política, econômica e religiosa da 
sociedade portuguesa". 
 
 Com a Questão Coimbrã, estava definida a crise 
de cultura que inicia o Realismo em Portugal. 
 
POESIA DA ÉPOCA DO REALISMO 
 
 A poesia do Realismo retoma o prestígio lírico de 
Bocage e Camões seguindo várias direções: a po-
esia "realista", a poesia do quotidiano, a poesia 
metafísica e a poesia de aspiração parnasiana. Sem 
se confundir com o Parnasianismo, teve caráter 
revolucionário, serviu como arma de combate, de 
ação, em suma, poesia "a serviço" da causa realis-
ta. Entre os poetas destacam-se Guerra Junqueiro, 
Gomes Leal, Antero de Quental, Teófilo Braga e 
outros. 
 
 
A POESIA METAFÍSICA: ANTERO DE QUENTAL 
 
 Contrapondo-se à poesia, a poesia metafísica ou 
transcendental busca responder às indagações que 
a consciência do homem formula: "que sou?", "por 
que sou?", "de onde vim?", "para onde vou?", "que é 
que vale?", "por que a morte?", etc. Nessa época, 
esse gênero de poesia encontra o seu mais alto 
representante, Antero de Quental, porém continua 
presente em Fernando Pessoa, Mário de Sá-
Carneiro, José Régio, Miguel Torga e outros. 
 
 Para Moisés, \u201ca poesia metafísica nasceria sem-
pre como uma via de escape à angústia geográfica 
histórica e cultural em que vive o homem português, 
encurralado num território diminuto entre o continen-
te europeu e o Oceano Atlântico, a sonhar glórias 
perdidas no século XVI\u201d. 
 
 De educação católica e de família conservadora, 
de caráter profundamente religioso, sofreu um pro-
fundo abalo ao encontrar-se num meio onde pene-
travam idéias e leituras que confrontavam sua cren-
ça tradicional. 
 
 Crente na razão e na justiça, como o tinha sido 
na fé, questionou e promoveu marchas e protestos 
contra a academia, a sociedade, a literatura. 
Apostilas Solução - Professor Educação Básica \u2013 PEB II 
 
 
Bibliografia para Língua Portuguesa 107 
 A publicação de seus primeiros versos confirma-
lhe o renome e insinua-lhe um caminho para o futu-
ro. Publica em 1865 uma obra intitulada Odes Mo-
dernas, em cujo prefácio declara que \u201ca Poesia é a 
voz da Revolução\u201d e o poeta é o arauto do futuro 
que, juntamente com as Tempestades Sonoras e a 
Visão dos Tempos, de Teófilo Braga, publicadas no 
ano anterior, desencadeiam a revolução literária 
chamada Questão Coimbrã. 
 
 Em 1871, organiza as Conferências do Casino 
Lisbonense e nos anos seguintes, procura instalar 
em Portugal o pensamento socialista. Desiludido, 
afasta-se do convívio social, imerso em seu drama e 
na meditação das idéias igualitárias que idealizara 
concretizar, já sentindo os sintomas duma misterio-
sa moléstia que o acompanhará até o fim dos dias. 
Antero viveu uma vida torturada procurando concili-
ar idéias opostas, entretanto não obteve resultados 
concretos uma vez que sua vocação seguia para a 
contemplação ou para a especulação metafísica, e 
não para o combate ativo. 
 
 Suicida-se em 11 de setembro de 1891, com 
dois tiros na boca, desalentado, deprimido, sentindo 
fechadas as portas que o conduziria de regresso 
aos mitos da infância. 
 
 Antero cultivou a poesia e a prosa polêmica e 
filosófica. No primeiro caso, temos: Odes Modernas 
(1865), Primaveras Românticas. Versos dos Vinte 
Anos (1871), Sonetos Completos (1886), Raios de 
Extinta Lux (1892). No segundo, seus escritos estão 
coligidos em três volumes: Prosas (1923, 1926, 
1931). Para a compreensão do caso anteriano, ain-
da possuem interesse as Cartas de Antero de 
Quental (1921), as Cartas Inéditas de Antero de 
Quental a Oliveira Martins (1931) e as Curtas a An-
tonio de Azevedo Castelo Branco (1942). 
 
 Segundo Moisés, a poesia de Antero é para sen-
tir e compreender ao mesmo tempo, pois só assim, 
vendo as duas formas de conhecimento fundidas, é 
possível entender e julgar seu autor, um dos maio-
res ícones poéticos de Portugal, ao lado de Ca-
mões, Bocage e Fernando Pessoa. 
 
 
A PROSA REALISTA. O ROMANCE 
 
 No Realismo, o romance abandona o esquema 
do Romantismo, segundo o qual