23035A Literatura Portuguesa. MOISES  Massaud
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modernidade); 
 
- Tirar Portugal de seu descompasso com a van-
guarda do resto da Europa. 
 
 Portanto, os traços marcantes da Geração Or-
pheu são as tendências futuristas (exaltação da 
velocidade, da eletricidade, do "homem multiplicado 
pelo motor"; antipassadismo, antitradição, irreverên-
cia). Agitação intelectual, "escandalizar o burguês", 
o moderno como um valor em si mesmo. 
 
 O primeiro número da revista Orpheu, publicado 
em Abril de 1915, causa grande polêmica graças a 
críticas violentas, encontradas nos poemas "Ode 
triunfal" de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fer-
nando Pessoa) e "Manucure" de Mário de Sá-
Carneiro. 
 
 O segundo e último número da revista foi lança-
do em julho de 1915, com conteúdos bem mais 
futuristas. O terceiro número chegou a ser planeja-
do, mas não foi editado por causa do suicídio de 
Mário de Sá-Carneiro, responsável pelos custos da 
revista. 
 
 Os orfistas foram influenciados pelos vários ma-
nifestos de vanguarda europeus e, apesar do pre-
coce desaparecimento da "Orpheu", a revista deixou 
uma rica herança, uma vez que surgiram várias 
outras revistas. 
 
 Ainda nesse primeiro momento do Modernismo 
português, surgiram as figuras de Aquilino Ribeiro e 
Florbela Espanca, nomes de destaque na Literatura 
Portuguesa, que não tiveram ligação com nenhum 
dos momentos modernistas. 
 
 Para o professor de Literatura Portuguesa Mas-
saud Moisés, esses dois poetas são enquadrados 
em um momento literário que classifica como "Inter-
regno". 
 
FERNANDO PESSOA 
 
 Nascido em Lisboa, Fernando Pessoa perdeu o 
pai aos cinco anos de idade. Em 1896, a família se 
transfere levada pelo segundo marido de sua mãe, 
para a cidade de Durban, na África do Sul. Lá, cursa 
o secundário, cedo revelando seu pendor para a 
literatura. Em 1903, ingressa na Universidade do 
Cabo. 
 Entra em contato com os grandes escritores da 
língua portuguesa. Impressiona-se sobremaneira 
com os sermões do Padre Antônio Vieira e a obra 
de Cesário Verde. 
 
 Para situar Pessoa na história da literatura oci-
dental, é necessário colocá-lo ao nível de Dante, 
Shakespeare, Goethe, Joyce. Ele é o único poeta 
português que pode comparar-se a Camões. 
 
 Apesar da obra de Fernando Pessoa representar 
uma literatura inteira, não teve, em vida, o reconhe-
cimento que merecia. 
 
 Viveu modestamente, em relativa obscuridade. 
Em vida, teve apenas dois livros publicados: alguns 
poemas em inglês e Mensagem. 
 
 Pessoa, em 8 de março de 1914, faz surgir seus 
heterônimos (cada um dos quais tem um estilo e 
uma atitude que os distingue dos demais), escre-
vendo de uma só vez, os 49 poemas de O Guarda-
dor de Rebanhos, de Alberto Caeiro. Escreve tam-
bém os seis poemas de Chuva Oblíqua, que assina 
com seu próprio nome. 
 
 Fernando Pessoa ortônimo (ele-mesmo), seguia 
os modelos da poesia tradicional portuguesa, usa o 
verso tradicional, rimado, admiravelmente musical. 
Poeta introvertido e meditativo, anti-sentimental, 
refletia inquietações e estranhezas que questiona-
vam os limites da realidade da sua existência e do 
mundo. 
 
 A temática de Pessoa ortônimo gira em torno da 
identidade perdida; da consciência do absurdo da 
existência, revela tensão sinceridade/fingimento, 
consciência/inconsciência, sonho/realidade, duali-
dade e oposição sentir/pensar, pensamen-
to/vontade, esperança/desilusão), anti-
sentimentalismo (intelectualização da emoção, es-
tados negativos (solidão, cepticismo, tédio, angús-
tia, cansaço, desespero, frustração), inquietação 
metafísica (dor de viver) e auto-análise. 
 
 Autor de Mensagem, um conjunto de poemas de 
inspiração ocultista e épico-messiânica, de exalta-
ção ao sebastianismo denota certo desalento, uma 
expectativa ansiosa de ressurgimento nacional, 
revela uma faceta misteriosa e espiritual do poeta, 
manifestada também nas suas incursões pelas ci-
ências ocultas. É o único livro publicado pelo autor 
nas vésperas da sua morte, em 1934. 
 
 Os heterônimos são concebidos como individua-
lidades distintas da do autor, com biografia e horós-
copo próprios. Traduzem a consciência da fragmen-
tação do eu, reduzindo o eu \u201creal\u201d de Pessoa a um 
papel que não é maior que o de qualquer um dos 
seus heterônimos na existência literária do poeta. 
 
 Alberto Caeiro é o Mestre, inclusive do próprio 
Pessoa ortônimo. Nasceu e morreu em Lisboa, tu-
berculoso, embora tenha vivido a maior parte de sua 
vida no campo, numa quinta no Ribatejo, onde fo-
ram escritos quase todos os seus poemas. Para 
Caeiro, \u201co único sentido íntimo das coisas é não 
terem sentido íntimo nenhum\u201d, o poeta nega qual-
quer forma \u201cde religiosidade, qualquer coisa em si\u201d. 
Não desempenhava qualquer profissão e teria ape-
nas a instrução primária. 
Apostilas Solução - Professor Educação Básica \u2013 PEB II 
 
 
Bibliografia para Língua Portuguesa 111 
 Caeiro era, segundo ele próprio, \u201co único poeta 
da natureza\u201d, procurando viver a exterioridade das 
sensações e recusando a metafísica, isto é, recu-
sando saber como eram as coisas na realidade, 
conhecendo-as apenas pelas sensações, pelo que 
pareciam ser. Adotou o verso livre. 
 
 Caeiro escreve numa linguagem simples com o 
vocabulário limitado de um poeta camponês pouco 
ilustrado. Procura perceber as coisas como elas 
são, sem refletir sobre elas e sem atribuir a elas 
significados ou sentimentos humanos. Em perfeita 
consonância com sua busca de simplicidade e es-
pontaneidade. 
 
 São da sua autoria as obras O Guardador de 
Rebanhos, O Pastor Amoroso e os Poemas Incon-
juntos. 
 
 Ricardo Reis nasceu no Porto, foi educado num 
colégio de jesuítas, ou seja, recebeu uma educação 
clássica (latina), formado em medicina nunca exer-
ceu a profissão. Dedicou-se ao estudo do helenis-
mo, isto é, o conjunto das idéias e costumes da 
Grécia antiga e adota Horácio como seu modelo 
literário. Sua formação clássica reflete-se em sua 
obra (nível formal, temas tratados) e na própria lin-
guagem que utiliza, de um purismo exacerbado. 
 
 Apesar de ser formado em medicina, não exerci-
a. Dotado de convicções monárquicas, emigrou 
para o Brasil após a implantação da República. Ca-
racterizava-se por ser um pagão intelectual lúcido e 
consciente (concebia os deuses como um ideal 
humano), limitava-se a viver o momento presente, 
evitando o sofrimento (\u201cCarpe Diem\u201d) e aceitando o 
caráter efêmero da vida. 
 
 Álvaro de Campos nasceu em Tavira e era um 
homem viajado, formado em engenharia mecânica 
e naval na Escócia e, numas férias, fez uma viagem 
ao Oriente (de que resultou o poema \u201cOpiário\u201d). 
Viveu em Lisboa, dedicou-se à literatura, intervindo 
em polêmicas literárias e políticas. É da sua autoria 
o \u201cUltimatum\u201d, manifesto contra os literatos instala-
dos da época. Até com Pessoa ortônimo polemizou. 
Defensor ferrenho do modernismo era o cultor da 
energia bruta e da velocidade, da vertigem agressi-
va do progresso, sendo a Ode Triunfal um dos me-
lhores exemplos, evoluindo depois no sentido de um 
tédio, de um desencanto e de um cansaço da vida, 
progressivos e auto-irônicos. Representa a audácia 
suprema a que Pessoa se permitiu (experiências 
futurista e até no campo da ação político-social). 
 
 A trajetória poética de Álvaro de Campos está 
compreendida em três fases: a primeira, da morbi-
dez e do torpor, é a fase do "Opiário" (oferecido a 
Mário de Sá-Carneiro e escrito enquanto navegava 
pelo Canal do Suez, em março de 1914), a segunda 
fase, mais mecanicista, é onde o Futurismo italiano 
mais transparece, é nesta fase que a sensação é 
mais intelectualizada. 
 
 
 A terceira fase, do sono e do cansaço, aquela 
que, apesar de parecer um pouco surrealista, é a 
que se apresenta mais moderna e equilibrada ("Não 
sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer