23035A Literatura Portuguesa. MOISES  Massaud
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funcionamento 
psicológico de produção \u2013 seriam, portanto, cons-
truções ontogenéticas necessárias à autonomização 
dos diversos tipos de funcionamento e, de modo 
mais geral, da passagem dos gêneros primários aos 
gêneros secundários. Portanto, constituiriam, dito de 
outra maneira, construções necessárias para gerar 
uma maior heterogeneidade nos gêneros, para ofe-
recer possibilidades de escolha, para garantir um 
domínio mais consciente dos gêneros, em especial 
daqueles que jogam com a heterogeneidade. Po-
demos, de fato, considerá-los como reguladores 
psíquicos poderosos, gerais, que são transversais 
em relação aos gêneros. 
 
 
2- GÊNEROS E PROGRESSÃO ORAL E ESCRITA 
 
ELEMENTOS PARA REFLEXÕES SOBRE UMA 
EXPERIÊNCIA SUÍÇA 
 
 
Currículo e progressão 
 
 Os autores trabalham com a concepção de currí-
culo por oposição à de programa escolar. 
 
 Enquanto programa escolar supõe um foco maior 
sobre a matéria a ensinar, é recortado segundo a 
estrutura interna dos conteúdos, no currículo, esses 
mesmos conteúdos disciplinares são definidos em 
função das capacidades do aprendiz e das experi-
ências a ele necessárias e, além disso, os conteú-
dos são sistematicamente elaborados em relação 
aos objetivos de aprendizagem e aos outros com-
ponentes do ensino. 
 Citando Coll, os autores dizem que as principais 
funções de um currículo são: 
 
a) Descrever e explicitar o projeto educativo (as 
intenções e o plano de ação) em relação às finali-
dades da educação e às expectativas da sociedade; 
 
b) Fornecer um instrumento que oriente as práticas 
dos professores; 
 
c) Levar em conta as condições nas quais se reali-
zam essas práticas; 
 
d) Analisar as condições de exeqüibilidade, de mo-
do a evitar uma descontinuidade excessiva entre os 
princípios e as restrições colocadas pelas situações 
de ensino. 
 
 Um currículo para o ensino da expressão deveria 
fornecer aos professores, para cada um dos níveis 
de ensino, informações concretas sobre os objetivos 
visados pelo ensino, sobre as práticas de linguagem 
que devem ser abordadas, sobre os saberes e habi-
lidades implicados em sua apropriação. 
 
 Entre os diversos componentes do currículo, a 
organização temporal do ensino é um problema 
complexo, difícil de resolver. É preciso que nos lem-
bremos de que as decisões relativas à ordem tem-
poral que se deve seguir no ensino situam-se es-
sencialmente em dois níveis: 
 
a) progressão interciclo: divisão dos objetivos 
gerais entre os diferentes ciclos do ensino obrigató-
rio; 
 
b) progressão intraciclo: seriação temporal dos 
objetivos e dos conteúdos disciplinares em cada 
ciclo. 
 
 As propostas de progressão curricular propõem 
agrupamentos de gêneros Narrar, Expor, Argumen-
tar, Instruir e Relatar, organizados pelas semelhan-
ças que as situações de produção dos gêneros de 
cada um dos agrupamentos possuem. 
 
 No agrupamento Narrar, são colocados os gêne-
ros da cultura literária ficcional, como contos, len-
das, romances, fábulas, crônicas. A situação de 
produção desses gêneros sempre envolve a ficção 
e a criação. 
 
 No agrupamento Expor, estão agrupados os 
gêneros científicos e de divulgação científica, e os 
didáticos constituídos para o ensino das diversas 
áreas de conhecimento. Estão nesse agrupamento 
os artigos científicos de todas as áreas do conheci-
mento, os relatos de experiências científicas, as 
conferências, os seminários, textos explicativos dos 
livros didáticos, os verbetes de enciclopédia e ou-
tros afins. A situação de produção desses gêneros 
sempre envolve a necessidade de divulgar um co-
nhecimento resultante de pesquisa científica. 
 
No agrupamento Instruir ou Prescrever, figuram os 
gêneros com manuais de instrução de diferentes 
tipos, as bulas de remédio, as receitas culinárias, as 
regras de jogo, os regimentos e estatutos e todos os 
demais gêneros cuja função é estabelecer formas 
corretas de proceder. 
 
Apostilas Solução - Professor Educação Básica \u2013 PEB II 
 
 118 Bibliografia para Língua Portuguesa 
 A situação de produção desses gêneros sempre 
envolve a necessidade de informar como deve ser o 
comportamento daqueles que vão usar um equipa-
mento ou medicamento ou realizar um procedimen-
to. 
 
 No agrupamento Relatar, estão os gêneros rela-
cionados com a memória e a experiências de vida, 
como memórias literárias, diários íntimos, diários de 
bordo, depoimentos, reportagens, relatos históricos, 
biografias e outros semelhantes. Nas situações de 
produção desses gêneros, está a necessidade de 
contar alguma coisa que realmente ocorreu, o que 
torna os relatos diferentes das narrativas, que são 
ficcionais. 
 
 No agrupamento Argumentar, ficam os gêneros 
que têm origem nas discussões sociais de assuntos 
polêmicos, que provocam controvérsias. Estão nes-
se agrupamento as cartas de solicitação, cartas de 
leitor, cartas de reclamação, os debates políticos, os 
artigos de opinião jornalísticos, os editoriais e outros 
semelhantes. Nas situações de produção desses 
gêneros, existem questões polêmicas que estão 
sendo discutidas em sociedade, e que exigem dos 
autores um posicionamento e a defesa desse posi-
cionamento. 
 
 Os agrupamentos podem facilitar a escolha de 
gêneros adequados para cada série do Ensino Fun-
damental, possibilitando uma progressão em espiral 
para seu ensino. A expressão "progressão em espi-
ral" significa que podemos criar eixos no planeja-
mento do ensino de gêneros, um eixo para cada 
agrupamento. Criados os eixos, é possível escolher 
os mais adequados de cada agrupamento para ca-
da série, retomando gêneros do mesmo agrupa-
mento a cada ano que passa, para que os alunos 
possam ampliar, gradativamente, o domínio das 
capacidades de narrar, argumentar, expor, instruir e 
relatar. 
 
 
Contra o soliptismo 
 Construção conjunta intencional 
 
 É fundamental que se considere a relação exis-
tente entre a aprendizagem e o desenvolvimento. 
Vygotsky propõe uma concepção segundo a qual a 
aprendizagem é condição prévia necessária às 
transformações e qualitativas que se produzem ao 
longo do desenvolvimento. Para Vygotsky, \u201ca a-
prendizagem humana pressupõe uma natureza 
social específica e um processo por meio do qual as 
crianças acedem à vida intelectual daqueles que a 
cercam\u201d, portanto, contra o soliptismo do sujeito \u2013 o 
sujeito não pode estar só sem ver o pólo ativo que 
representa sua relação com os outros. Tanto a a-
prendizagem incidental \u2013 advinda acessoriamente 
no curso da realização de uma ação, quanto a a-
prendizagem intencional \u2013 em que o sujeito está 
implicado numa situação que visa a um efeito, fre-
qüentemente se realiza por meio institucional são 
construções sociais. No que diz respeito às praticas 
de linguagem, sua apropriação começa no quadro 
familiar, mas certas práticas, em particular aquelas 
que dizem respeito à escrita e oral formal, realizam-
se essencialmente em situação escolar, na nossa 
sociedade, graças ao ensino, por meio do qual os 
alunos conscientizam-se dos objetivos relativos à 
produção e à compreensão. 
 Neste caso, mais ainda que em outras aprendi-
zagens, a cooperação é fator determinante das 
transformações e dos progressos que ocorrem. 
 
 Concluindo, os autores propõem a organização 
de uma progressão temporal do ensino, construída 
sobre a base de um agrupamento de gêneros e 
levando em conta os diferentes níveis de operações 
de linguagem. 
 
 Trata-se de uma proposta provisória de um currí-
culo aberto e negociado: 
 
a) Aberto, pois não recobre a totalidade das ativi-
dades possíveis em expressão oral e escrita; não 
pode antecipar todos os problemas de aprendiza-
gem e, assim, os professores devem adaptá-lo em 
função de situações concretas de ensino. 
 
b) Negociado,