23035A Literatura Portuguesa. MOISES  Massaud
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recepção é o ponto de chegada 
daquilo que já está concluído. 
 
 Esta concepção epistemológica condutista está 
centrada no emissor, enquanto ao receptor caberia 
apenas reagir aos estímulos do emissor. Esta con-
cepção está intimamente relacionada a outra, a 
iluminista, onde educação era a transmissão de 
conhecimento para que nada sabia. 
 
 O receptor era um depósito vazio que receberia 
conhecimentos originados e produzidos em outro 
lugar. Segundo o autor, dos anos 60 até pouco tem-
po atrás, o que percebemos na AL é a contradição 
entre dois elementos: a politização absoluta da aná-
lise das mensagens e a despolitização, a dissocia-
ção do receptor que é pensado apenas individual-
mente. 
 
 O receptor não é vítima manipulada como quer a 
visão de crítica social de esquerda, que vê o domi-
nador politicamente, mas vê o receptor individual-
mente, isoladamente. 
 
 Esta contradição, este descompasso configura-
se, segundo Barbero, no ângulo novo por onde de-
vemos rever e repensar o processo da comunicação 
em nossos países, culturas e sociedades. 
 
 Mediações da recepção: 
 
- A heterogeneidade da temporalidade. Requer a-
tenção às temporalidades diferentes de cada grupo 
dentro de uma mesma sociedade, em um mesmo 
país, em uma mesma região. 
 
- As fragmentações sociais e culturais: o que faz 
com que as pessoas se juntem e se reconheçam ou 
não? Aqui, significando as tradicionais e estruturais 
divisões sociais. Ex: divisão entre a informação e a 
cultura dirigidas para os que tomam decisões na 
sociedade e a informação e a cultura dirigida às 
massas. Essa divisão reforça a divisão entre os que 
detêm o poder e a imensa maioria a quem os meios 
de comunicação se dirigem. 
 
- Um novo organizador perceptivo, um reorganiza-
dor das experiências sociais: os diferentes sensori-
um: elite x popular, sexo, idade, público x privado, 
etc. 
 
 Os valores de nossa sociedade estão sendo 
refragmentados e rearticulados. 
 
Apostilas Solução - Professor Educação Básica \u2013 PEB II 
 
 128 Bibliografia para Língua Portuguesa 
 Exclusões culturais: 
 
 De acordo com o autor, não se pode estudar a 
recepção nem observar a comunicação com base 
na recepção sem analisar o processo de exclusão 
cultural, ou seja, a desqualificação e a deslegitima-
ção, destacando: 
 
- Desqualificação do gosto popular como \u201cmau gos-
to\u201d. 
 
- Deslegitimação da cultura dos gêneros narrativos 
como \u201cpobre\u201d. 
 
- Deslegitimação dos modos populares de recepção 
mais afetivos e expressivos. 
 
Artifícios e tentações 
 
 Segundo Martín-Barbero, o estudo da recepção 
está atualmente ameaçado pela crença no slogan 
publicitário de que o consumidor é quem tem a pa-
lavra. Essa idéia é falsa. Acredita-se que o poder de 
decisão é dele: ele decide o que vê, o que lê e o 
que escuta. Entretanto, ele não detém o poder so-
bre a produção do que ele consome. Portanto, de-
pende do que ele consome e também de como ele 
consome. Não se faz boa comida com ingredientes 
ruins. Para democratizar os meios de comunicação, 
é preciso descer do pedestal intelectual e fazer pes-
quisas para dar forma às demandas sociais. Mas 
sem achar que o receptor, já que ativo, pode fazer 
coisas boas de qualquer \u201clixo\u201d que lhe for oferecido. 
Por fim, o autor aponta as chaves da trama concei-
tual de onde investigar a recepção: 
 
- Estudos da vida cotidiana, local onde os atores 
sociais se fazem visíveis do trabalho ao sonho, da 
ciência ao jogo. Aqui reside o grande desafio: que 
papel exerce a práxis cotidiana na comunicação? A 
vida cotidiana é espaço de reconhecimentos soci-
almente importantes? 
 
- Estudos sobre o consumo: 
 - consumo como prática de apropriação dos 
produtos sociais; 
 
 - consumo como lugar da distinção simbólica, 
por meio do que consumimos materialmente e 
dos modos de consumir: lugar de diferenciação 
social, de demarcação das diferenças, de dis-
tinções, de afirmação da distinção simbólica; 
 
 - consumo como sistema de integração e de 
comunicação de sentidos; 
 
- consumo como cenário de objetivação de de-
sejos; 
 
- consumo como lugar de processo ritual se-
gundo os diferentes atores sociais, grupos, 
classes, etnias e gerações. 
 
- Estudos sobre estética e semiótica da leitura: a 
leitura como interação. 
 
- História social e cultural dos gêneros artísti-
cos/narrativos. O gênero não é algo que passa ao 
texto, mas que passa pelo texto. Não é só uma es-
tratégia de produção e de escrita, mas uma estraté-
gia de leitura. 
 Concluindo, Jesús Martín-Barbero diz que \u201co 
gênero é hoje lugar-chave da relação entre matrizes 
e formatos industriais e comerciais. (...) O Gênero é 
lugar de osmose, de fusão e de continuidades histó-
ricas, mas também de grandes rupturas, de grandes 
descontinuidades entre essas matrizes culturais, 
narrativas, gestuais, estenográficas, dramáticas, 
poéticas em geral, e os formatos comerciais, os 
formatos de produção industrial\u201d. 
 
 
RECEPÇÃO: PESQUISA INTERDISCIPLINAR, 
INCIPIENTE E POLÊMICA 
 
GÊNEROS FICCIONAIS: 
materialidade, cotidiano, imaginário 
SILVIA HELENA SIMÕES BORELLI 
 
 O texto apresentado de Silvia Helena Simões 
Borelli fala dos gêneros e da facilidade que estes 
trazem tanto para a produção quanto para a recep-
ção. Para a autora, os gêneros funcionam como 
possíveis indutores de \u201cpré-leitura\u201d, ou seja, eles 
resgatam a memória e o leitor, a partir de conheci-
mentos que este já possui. 
 
 Para ela, a análise dos gêneros ficcionais deve 
ser entendida como um momento mais geral de 
reflexão sobre manifestações de massa e produtos 
culturais industrializados, sobre a forma como eles 
foram produzidos em seus respectivos campos e 
distribuídos e consumidos no interior da sociedade. 
A autora faz um estudo sobre as diferentes interpre-
tações sobre o significado dos gêneros, ressaltando 
que no campo literário o próprio conceito desperta 
dissensos, controvérsias e divide opiniões. A noção 
de gênero como agrupamento de obras literárias 
segundo uma classe e subordinado à estética, oca-
sionaria uma limitação no espaço, segundo alguns 
autores. 
 
 Nos espaços audiovisuais, a reflexão sobre gê-
neros permite interpretações variadas. 
 
 A transposição de uma obra literária para o ci-
nema e a televisão, mesmo que no processo man-
tenham suas características globais, se apropriam 
de algumas das características da linguagem dos 
portadores utilizados. 
 
 Portanto, no campo audiovisual, gênero é uma 
categoria abrangente capaz de classificar uma série 
bem diversificada de elementos e servir como elo 
dos diferentes momentos da cadeia que une espaço 
de produção, anseios dos produtores culturais e do 
receptor: verdadeiros modelos culturais. 
 
 Os gêneros ainda podem ser percebidos como 
\u201cconstruções ideológicas\u201d indutoras de uma \u201cpré-
leitura\u201d que restringe a livre atribuição de significa-
dos por parte da \u201ccomunidade interpretante\u201d. 
 
 Nesta concepção, os gêneros são instituições 
com função de caráter ideológico, construindo signi-
ficações e subjetividade capaz de relacionar \u201carte e 
sistema\u201d. 
 
 Podem, também, ser entendidos como \u201cestraté-
gias de comunicabilidade\u201d, \u201cfato cultural\u201d e \u201cmodelo 
dinâmico\u201d articulados às dimensões históricas de 
espaço onde são produzidos e apropriados. 
Apostilas Solução - Professor Educação Básica \u2013 PEB II 
 
 
Bibliografia para Língua Portuguesa 129 
 Possuem, na mesma matriz cultural, referenciais 
comuns tanto a emissores e produtores como ao 
público receptor. 
 
 Segundo a autora, o padrão dos produtos cultu-
rais industrializados pressupõe, além dos gêneros 
ficcionais, outros padrões específicos: tecnológicos, 
de produção, distribuição,