23035A Literatura Portuguesa. MOISES  Massaud
47 pág.

23035A Literatura Portuguesa. MOISES Massaud


DisciplinaLiteratura Portuguesa1.204 materiais6.012 seguidores
Pré-visualização34 páginas
se perderam, 
só restando três de autoria indiscutível: Crônica d'El-
Rei D. Pedro, Crônica d'El-Rei D. Fernando e Crôni-
ca d'El-Rei D. João I. Outras, ainda lhe são atribuí-
das, como a Crônica do Condestável (publicada em 
1526). 
 
 Decididamente vocacionado para a historiografia, 
Fernão Lopes tem sido considerado o "pai da Histó-
ria" em Portugal. Sua visão abrangente e lúcida de 
Fernão Lopes torna possível o \u201cnascimento\u201d da His-
tória documentada de Portugal compilando fatos 
como a Dinastia de Avis, a expansão marítima por-
tuguesa. 
 
 Seu valor como historiador reside acima de tudo 
no fato de procurar ser "moderno", desprezando o 
relato oral em favor dos acontecimentos documen-
tados. 
 
 Do ponto de vista da forma, o seu estilo repre-
senta uma literatura de expressão oral e de raiz 
popular. Ele próprio diz que nas suas páginas não 
se encontra a formosura das palavras, mas a nudez 
da verdade. \u201c(...) nosso desejo foi em esta obra 
escrever verdade, sem outra mistura, deixando nos 
bons aquecimentos todo fingido louvor, e nuamente 
mostrar ao povo, quaisquer contrárias cousas, da 
guisa que avieram." 
 
 Fernão Lopes enquadra-se nitidamente nas es-
truturas culturais da Idade Média. Todavia, alguns 
pormenores fazem dele um homem avançado para 
o seu tempo. 
 
 Dotado dum estilo maleável, coloquial, primitivo, 
saborosamente palpitante e vivo, não escondia o 
seu gosto acentuado pelo arcaísmo, talvez em de-
corrência de sua origem plebéia e seu amor ao po-
vo, à "arraia-miúda". 
 
 Fernão Lopes possui incomum sentido plástico 
da realidade, procurando oferecer ao leitor um ins-
tantâneo "vivo", "atual", dos acontecimentos. Incor-
porou em sua obra alguns recursos da novela, como 
por exemplo, nos retratos psicológicos das perso-
nagens, a cerrada cronologia, o emprego dos diálo-
gos, constituem soluções estruturais que trouxe da 
novela e caldeou com seu próprio pendor literário. 
 
 Sua carreira como historiador é provavelmente a 
mais longa, sendo sucedido por Gomes Eanes de 
Zurara após a aposentadoria. 
 
 
GOMES EANES DE ZURARA 
 
 Gomes Eanes de Azurara (ou Zurara) sucedeu a 
Fernão Lopes e continuou o propósito de escrever a 
crônica de todos os reis portugueses até àquela 
data. 
 
 Escreveu a 3.ª parte à Crônica de D. João I (co-
nhecida como Crônica da Tomada de Ceuta, sua 
obra mais importante), Crônica do Infante D. Henri-
que ou Livro dos Feitos do Infante, Crônica de D. 
Pedro de Meneses, Crônica de D. Duarte de Mene-
ses, Crônica dos Feitos de Guiné, Crônica de D. 
Fernando, Conde de Vila-Real (desaparecida). 
 Iniciador da historiografia da expansão ultramari-
na, Azurara não tinha o mesmo talento de Fernão 
Lopes, escreve numa linha ufanista (que culminará 
n\u2019 Os Lusíadas). Ao contrário de Fernão Lopes, 
preocupa-se com pessoas, individualidades, e não 
com grupos sociais, onde a ação isolada do cavalei-
ro predomina sobre à da massa popular e já encon-
tramos em sua obra certa influência da cultura clás-
sica. 
 
 Foi sucedido por Vasco Fernandes de Lucena, 
que nada escreveu apesar de ocupar o cargo mais 
ou menos 30 anos. 
 
RUI DE PINA 
 
 Quarto cronista-mor, Rui de Pina escreveu nove 
crônicas a propósito de monarcas da 1.ª e 2.ª dinas-
tias: Sancho I, Afonso II, Sancho II, Afonso III, D. 
Dinis, Afonso IV, D. Duarte, Afonso V, e D. João II. 
Contesta-se a autoria integral dessas crônicas: \u201cas 
seis primeiras seriam a refundição duma obra con-
temporânea cujos originais só muito recentemente 
foram descobertos (na Biblioteca Pública do Porto e 
na casa do Cadaval), ou, ainda, calcadas nas crôni-
cas perdidas de Fernão Lopes\u201d. Suas crônicas pos-
suem valor historiográfico, em especial pelos novos 
e diferentes dados sobre a sociedade portuguesa de 
seu tempo e pela sobriedade da linguagem, de in-
fluência clássica. 
 
A PROSA DOUTRINÁRIA 
 
 A prosa de caráter religioso girou em torno de 
traduções de episódios bíblicos, muitas vezes am-
pliadas com comentários ou derivações ficcionadas, 
e de obras de caráter hagiográfico (vidas de san-
tos). Escrita pelos monarcas portugueses, a Prosa 
Doutrinária era direcionada à educação da nobreza 
objetivando orientá-la no convívio social e no ades-
tramento físico para a guerra. Conforme Moisés \u201cO 
culto do desporto, especialmente o da caça, ocupa 
o primeiro lugar nessa pedagogia pragmática. As 
virtudes morais também se lembram e se enalte-
cem, mas sempre visando a alcançar o perfeito 
equilíbrio entre a saúde do corpo e a do espírito\u201d. 
 
 Destaca: 
 
Livro da Montaria, de D. João I, em que se ensina 
a caça ao porco montes, considerado o desporto 
ideal para a fidalguia; 
 
Leal Conselheiro e Livro da Ensinança de Bem 
Cavalgar Toda Sela, de D. Duarte: na primeira, 
recopila e adapta com independência e novidade 
reflexões filosóficas e psicológicas de várias e con-
traditórias fontes, desde Cícero até S. Tomás de 
Aquino; na outra, faz a apologia da vida ao ar livre, 
mas não esquece de exaltar as virtudes do espírito, 
especialmente a vontade; 
 
O Livro da Virtuosa Benfeitoria, do Infante D. 
Pedro, o Regente (nascido em 1392 e morto em 
1449, na batalha de Alfarrobeira, era filho bastardo 
de D. João I), contém a tradução e adaptação da 
obra De Beneficiis, de Séneca, realizada com a 
ajuda de Frei João Verba, e que trata das numero-
sas modalidades e virtudes do "benefício", sobretu-
do na educação dos nobres; 
 
Apostilas Solução - Professor Educação Básica \u2013 PEB II 
 
 
Bibliografia para Língua Portuguesa 95 
Livro de Falcoaria, de Pero Menino, em que se 
ensina a tratar das doenças dos falcões. 
 
 Outras obras de destacam, como o Boosco De-
leitoso, obra com forte influência de Petrarca nos 
primeiros capítulos, em que se narra a peregrinação 
da alma em busca da salvação, etc. 
 
A POESIA DO CANCIONEIRO GERAL 
 
 A poesia portuguesa quatrocentista, do reinado 
de D. João II e D. Manuel, foi compilada por Garcia 
de Resende no seu Cancioneiro Geral (1516). São 
composições escritas em português e castelhano. 
Contém aproximadamente mil composições, de 286 
poetas, cerca de 150 são escritas em Espanhol. 
 
 A poesia do período se caracteriza pelo divórcio 
entre a "letra" e a música. O ritmo é alcançado com 
os próprios recursos da palavra disposta em versos, 
estrofes, etc., e não com a pauta musical. 
 
 O Cancioneiro Geral introduziu o emprego do 
verso redondilha (redondilha menor, com 5 sílabas, 
e redondilha Maior, com 7 sílabas) e trouxe novida-
des temáticas: a influência clássica (Ovídio), o influ-
xo italiano (Dante e Petrarca: o lirismo centrado no 
conhecimento do amor e suas contradições. inter-
nas) e o espanhol (Marques de Santilhana, Juan de 
Mena, Gómez Manrique, Jorge Manrique). 
 
 Há, ainda, registros de poesia épica, religiosa e 
satírica. 
 
 Entretanto, o ponto alto do Cancioneiro Geral é 
representado pela poesia lírica. 
 
 Poetas que se destacam no Cancioneiro Geral: 
João Ruiz de Castelo-Branco representa-se com a 
"Cantiga sua partindo-se", Garcia de Resende, com 
as Trovas à Morte de Dona Inês de Castro, graças 
ao forte sentimento de adesão ao "caso" da amante 
de D. Pedro, a ponto de possivelmente o poema 
haver estado presente no espírito de Camões quan-
do este desenhou igual episódio em Os Lusíadas, 
além de Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda. 
 
O TEATRO POPULAR DE GIL VICENTE 
 
 Anteriormente a Gil Vicente, o teatro em Portugal 
consistia na representação de breves quadros reli-
giosos alusivos a cenas bíblicas e encenados em 
datas festivas, como o Natal e a Páscoa. Geralmen-
te falados em Latim, eram encenados nas igrejas. 
Posteriormente, surge o teatro profano, de caráter 
não religioso. 
 
 A biografia de Gil Vicente é muito enigmática. 
Seria ele o ourives autor na