23035A Literatura Portuguesa. MOISES  Massaud
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famosa cruz de Belém? 
Nobre arruinado? O enigma continua a possibilitar 
teses a favor e contra, na busca de esclarecer as 
incertezas biográficas do grande teatrólogo portu-
guês. 
 
 O concreto é que Gil Vicente mantinha proximi-
dade aos integrantes da corte, em especial à rainha 
D. Maria, cuja homenagem ao nascimento do filho 
da monarca, mais tarde D. João III, Rei de Portugal, 
escreveu e interpretou o Auto da Visitação (também 
conhecido como Monólogo do Vaqueiro), no ano de 
1502. 
 Com relação às incertezas da vida do mestre, 
Saraiva deixa a questão de lado, achando muito 
mais pertinente destacar o gênio vicentino e sua 
autenticidade como criador: \u201cSe ele está vivo no 
meio das múmias que assinalam a história do teatro 
português, isso se deve certamente ao fato de que 
ele era Gil Vicente, o grande teatrólogo e não qual-
quer outra pessoa\u201d. 
 
 Com relação a Gil VICENTE não ter estudado 
formalmente, não ter bebido das fontes clássicas 
(...) \u201cSeu auto-didatismo possibilitou-lhe as condi-
ções de originalidade de sua estrutura artística, 
dando-lhe uma expressão singular, predispondo-o a 
representar de maneira objetiva, os valores culturais 
de seu momento histórico\u201d. 
 
 Recebeu influências do teatro medieval e tam-
bém de Juan Del Encina, dramaturgo castelhano, 
seu contemporâneo, e pode ser constatada na pin-
tura dos quadros sociais ou através de citações 
direta ao mestre espanhol. 
 
 Durante trinta e quatro anos de produção drama-
túrgica, pontilhados de algumas trovas, sermões e 
epístolas, ele nos legou 44 peças, sendo a primeira 
em 1502, com o Monólogo do Vaqueiro e a última 
Floresta de Enganos, no ano de 1536. 
 
 No teatro de Gil Vicente, conviveram elementos 
característicos do medievo e do humanismo. \u201cEm 
seu teatro desfilava uma verdadeira fauna humana, 
conforme Saraiva, sendo suas personagens muito 
mais tipos que se comportam segundo automatis-
mos inveterados\u201d. 
 
 Dentre os \u2018tipos\u2019 sociais que desfilam nas peças 
vicentinas, podemos mencionar como mais recor-
rentes: a alcoviteira, o escudeiro pobre, o clérigo 
corrupto, a viloa casadoira, o almocreve, o sapatei-
ro, os pajens etc. Todos são descritos com morda-
cidade pelo dramaturgo. 
 
 Gil Vicente foi autor e ator e suas representa-
ções, cheias de improvisos já previstos, são ricas, 
densas e variadas. 
 
 Sua galeria de tipos humanos é imensa: o padre 
corrupto, o cardeal ganancioso, o sapateiro que 
explora o povo, a beata, o médico incompetente, os 
aristocratas decadentes, etc. 
 
 Seus personagens não têm nome - são sempre 
designados pela profissão, assim registrando os 
tipos sociais que faziam parte da sociedade da épo-
ca. 
 
 O teatro era sua arma de combate e de denúncia 
contra a imoralidade. Sua linguagem, bastante sim-
ples, espontânea e fluente. Assim como os cenários 
e as montagens. 
 
 A relevância das quarenta e quatro peças de Gil 
Vicente não se exauriu até os nossos dias, fossem 
elas autos ou farsas, tratassem de temas cotidianos, 
fantásticos ou religiosos. 
 
 A genialidade e habilidade de Gil Vicente fizeram 
dele o maior dramaturgo português de todos os 
tempos. Trata-se do princípio intemporal que, se-
gundo SARAIVA, caracteriza a arte de forma geral. 
Apostilas Solução - Professor Educação Básica \u2013 PEB II 
 
 96 Bibliografia para Língua Portuguesa 
 Didaticamente, pode-se dividir em fases o teatro 
vicentino: 
 
a) 1.ª fase, de 1502 a 1514, em que a influência de 
Juan del Encina é dominante, sobretudo nos primei-
ros anos, atenuando-se depois de 1510; 
 
b) 2.ª fase, de 1515 a 1527, começando com Quem 
tem farelos? e terminando com o Auto das Fadas: 
corresponde ao ápice da carreira dramática de Gil 
Vicente, com a encenação de suas melhores peças, 
dentre as quais a Trilogia das Barcas (1517-1518), o 
Auto da Alma (1518), a Farsa de Inês Pereira 
(1523), o juiz da Beira (1525); 
 
c) 3.ª fase, de 1528, com o Auto da Feira, até 
1536, com a Floresta de Enganos, fase em que o 
dramaturgo intelectualiza seu teatro sob influência 
do classicismo renascentista. 
 
 Os temas do teatro vicentino também variam: 
 
Teatro tradicional, predominantemente medie-
val: são as peças de caráter religioso (Auto da Fé, o 
Auto da Alma), peças de assunto bucólico (Auto 
Pastoril Castelhano, o Auto Pastoril Português), as 
peças de assunto relacionado com as novelas de 
cavalaria (D.Duardos, Auto de Amadis de Gaula). 
 
Teatro atual: caracteriza-se por conter o retrato 
satírico da sociedade do tempo, em seus vários 
estratos, a fidalguia, a burguesia, o clero e a plebe 
(Farsa de Inês Pereira e em Quem tem farelos? (ou 
Farsa do Escudeiro), ou pelo teatro alegórico-crítico, 
como a Trilogia das Barcas. 
 
 Sua obra, compilada por seu filho, Luís Vicente 
segue a seguinte divisão: 
 
1) Obras de devoção (Monólogo do Vaqueiro, Auto 
Pastoril Castelhano, Auto da Alma, Auto da Feira, 
Trilogia das Barcas, etc.); 
 
2) Comédias (Comédia do Viúvo, Comédia de Ru-
bena, Divisão da Cidade de Lisboa, Floresta de 
Enganos); 
 
3) Tragicomédias (Exortação da Guerra, Cortes de 
Júpiter, Frágoa de Amor; 
 
4) Farsas (Quem tem farelos?, Auto da índia, O 
Velho da Horta, Inês Pereira, Juiz da Beira, Farsa 
dos Almocreves, etc.). 
 
 Segundo o autor, \u201co teatro de Gil Vicente carac-
teriza-se, antes de tudo, por ser rudimentar, primiti-
vo e popular, muito embora tenha surgido e se te-
nha desenvolvido no ambiente da Corte, para servir 
de entretenimento aos animados serões oferecidos 
pelo Rei\u201d. 
 
 
IV \u2013 CLASSICISMO (1527-1580) 
 
PRELIMINARES 
 
 O marco inicial do Classicismo português é em 
1527, quando se dá o retorno do escritor Sá de Mi-
randa de uma viagem feita à Itália, de onde trouxe 
as idéias de renovação literária e as novas formas 
de composição poética, como o soneto. 
 O período se encerra em 1580, ano da morte de 
Luís Vaz de Camões e do domínio espanhol sobre 
Portugal. 
 
 Para Massaud Moisés, o Renascimento foi deci-
sivo para a Literatura Portuguesa. O Humanismo 
antecedeu ao Classicismo e preparou o movimento 
cultural, em especial \u201cpela descoberta dos monu-
mentos culturais do mundo greco-latino, de modo 
particular as obras escritas, em todos os recantos 
do saber humano, e por uma concepção de vida 
centrada no conhecimento do homem, não de 
Deus\u201d. 
 
 A descoberta do caminho marítimo para as Ín-
dias, em 1498 por Vasco da Gama, e dois anos 
depois o "achamento" do Brasil, permitiram a Portu-
gal gozar de um prestígio cultural e econômico, 
mesmo que momentâneo, no reinado de D. Manuel. 
 
 Este otimismo ufanista chega ao fim com a bata-
lha em Alcácer-Quibir, no ano de 1578, quando 
morre D. Sebastião e Portugal passa ao domínio 
espanhol. Sob Felipe II, Camões reflete essa atmos-
fera de exaltação épica e desafogo financeiro que 
cruza as primeiras décadas do século XVI, mas não 
deixa de refletir também o desalento dos lúcidos 
perante a efêmera superioridade portuguesa através 
da fala do Velho do Restelo e do epílogo d\u2019 Os Lu-
síadas. 
 
 Do Classicismo ao teocentrismo medieval, vai 
opor-se uma concepção antropocêntrica do mundo, 
em que o "homem é a medida de todas as coisas". 
Enfatiza-se a imitação dos autores clássicos gregos 
e romanos da antiguidade: Homero, Virgílio, Ovídio, 
etc.; uso da mitologia: Os deuses e as musas, inspi-
radoras dos clássicos gregos e latinos aparecem 
também nos clássicos renascentistas (Em Os Lusí-
adas: (Vênus) = a deusa do amor e (Marte) o deus 
da guerra, protegem os portugueses em suas con-
quistas marítimas; predomínio da razão sobre os 
sentimentos: a linguagem clássica não é subjetiva 
nem impregnada de sentimentalismos e de figuras, 
porque procura coar, através da razão, todos os 
dados fornecidos pela natureza e, desta forma