Betti Mauro Por uma Teoria da Prática1
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Betti Mauro Por uma Teoria da Prática1


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Universidade Gama Filho 
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Podemos encontrar vários exemplos de sistemas universitários nos quais a 
Educação Física ou as ciências dos esportes não possuem pós-graduações próprias. 
Os formados na profissão realizam suas pós-graduações em outras áreas 
disciplinares. Assim, não há nenhuma necessidade, naturalidade ou determinação 
para que o modelo tenha que ser o nosso. 
Parece-me de bom senso supor que o ensino de qualquer técnica ou arte pode 
aperfeiçoar-se na medida que os instrutores detêm uma cultura geral mais ampla 
e rica e também conhecimentos gerais e específicos sobre a interação entre as 
pessoas e os processos de ensino-aprendizagem. A sociedade moderna exige, sob 
o ponto de vista cultural, formações mais prolongadas e amplas, decorrendo o 
direito ao ensino superior. Porém, essa condição, é de tipo geral, não significando 
qtie um instrutor específico deva deter um título universitário para ensinar 
eficientemente uma específica arte. 
^ A sociedade oferece crescentes oportunidades de realização de atividades 
corporais fora da escola. Assim, o próprio papel da Educação Física escolar, 
quando meramente vinculado ao desenvolvimento físico e psicomotor, é fortemente 
relativizado, embora as crianças gostem da Educação Física escolar. Em 
contrapartida, as matemáticas devem ser aprendidas na escola, gostem ou não as 
crianças. Talvez esteja nesse gostar das crianças um dos pontos de atrito nas 
relações entre educadores físicos e outros educadores dentro da escola. 
27 , 
(aso a imagem dos profissionais da área sobre o reconhecimento social fosse 
falsa, ou seja, caso a sociedade os valorize, estaríamos diante de um caso de 
irrealismo coletivo ou de falsa consciência coletiva. Se fosse esta a situação deveria 
ser outro o teor da análise ou da 'psicanálise '. Embora esta possibilidade mereça 
ser melhor analisada, aceito em minha argumentação a 'imagem de desvalorização ' 
como adequada à realidade cultural. 
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Para maiores especificações sobre o papel da educação escolar, conferir 
LO VISO LO (1995), acima citado. 
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Se interrogados sobre a automedicação, possivelmente os médicos respondam 
que essa conduta é produto da desvalorização da profissão médica, da ignorância 
do público, da ação dos balconistas ou dos laboratórios. Seja qual for a causa, 
concordam em realizar campanhas, declarações e muitos outros tipos de ações 
encontra da automedicação. Uma leitura desconfiada sempre poderá insistir no 
fato de ser automedicação contrária aos interesses económicos dos médicos e 
apresentar, então, suas condutas como falsamente morais. 
72 Motus Corporis, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2. p. 51-72. dez. 1996 
Revista de Divulgação Científica do Mestrado e Doutorado em Fducação Física 
E E F E - U S P 
B i B L I O T E C A 
POR U M A TEORIA D A P R Á T I C A 
Mauro Betti 
INTRODUÇÃO 
Vou estabelecer inicialmente um debate com autores que, nos 
ú l t i m o s anos, e no meu exc lus ivo j u l g a m e n t o , c o n t r i b u í r a m 
significativamente para a const i tu ição de uma teoria da Educação 
Física de matizes brasileiras, com^jíroposições bastante criativas e 
desafiadoras à inteligência. São eles: Bracht ( l 993), Tani ( l 988, 1989), 
Lovisolo (1994) e Kolyniak Filho (1994, 1995a 1995b). Depois, 
apresentarei m i n h a p r ó p r i a p ropos ta , que j á se e s b o ç a r á 
embrionariamente na primeira parte. 
A d iscussão académica no âmbi to da Educação Física sempre 
foi presa fácil dos dualismos: Educação Física versus esporte; esporte 
versus jogo; teoria versus prát ica, etc. A sofis t icação teór ica dos 
úl t imos anos superou alguns idealismos e ingenuidades da década de 
80, mas gerou uma nova "macro-dicotomia", que detecto na d iv isão 
dos atuais discursos sobre a Teoria da Educação Fís ica em duas 
grandes matrizes: uma, que vê a Educação Fís ica como área de 
conhecimento científ ico; outra, que a vê como prát ica pedagógica . 
A matriz científica constituiu-se no Brasil a partir da influência 
norte-americana, com a p r o p o s i ç ã o da E d u c a ç ã o F í s i ca como 
disciplina académica inicialmente feita por Henry (1978) 2 ; e europeia, 
mediante o filósofo por tuguês Manuel Sérgio (Sérg io , 1987, 1991), 
que, por sua vez, foi assumidamente influenciado pelos franceses 
Pierre Parlebas e Jean Le Boulch. A influência da Alemanha, com 
sua " C i ê n c i a ( s ) do Esporte" fo i mais marginal e local izada, 
possivelmente por dificuldades de interpretação semânt ica . Citarei 
diretamente trechos de alguns destes autores, e sem muitas explicações 
Motus Corporis, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2. p. 73-127. dez. 1996 73 
Universidade Gama Filho 
o leitor poderá rapidamente identificar as ideias básicas: 
D I S C I P L I N A A C A D É M I C A : A E d u c a ç ã o F í s i c a como 
disciplina académica é um corpo organizado de conhecimentos que 
compreende aqueles fatos e h ipó teses organizados em torno da 
c o m p r e e n s ã o da função do corpo humano praticando exe rc í c io 
(Brooks, 1981:76). 
. C I Ê N C I A D A M O T R I C I D A D E H U M A N A : C iênc i a da 
c o m p r e e n s ã o e exp l icação das condutas motoras, visando o estudo e 
constantes tendenciais da motr ic idade humana, em ordem ao 
desenvolvimento global do indivíduo e da sociedade tendo como 
fundamento s imul tâneo o físico, o b io lógico e o an t ropossoc io lógico 
[ . . . ] . Motricidade: processo adaptativo, evolutivo e criativo de um 
ser práxico, carente dos outros, do mundo e da t ranscendência (Sérgio, 
1987:153-157). 
C I Ê N C I A DA A Ç Ã O M O T R I Z : Disciplina que toma por 
objeto a ação motriz [ . . . ] , que permite analisar todas as formas de 
atividade física, sejam individuais ou coletivas, e isto segundo todos 
os modelos possíveis, até os mais matematizados (Parlebas, 1987:1 1). 
Todas elas p ressupõe a ex is tênc ia de um objeto de estudo 
(motricidade humana, ação motora, movimento humano, etc.) e 
c a r ac t e r i zam uma á r e a de c o n h e c i m e n t o i n t e r d i s c i p l i n a r . 
Evidentemente, as bases ep i s temológ icas e filosóficas mais amplas 
que fundamentam estas propostas são diferentes em cada autor. N ã o 
vamos aqui detalhar estas diferenças, pois este não é o principal 
objetivo deste ensaio. Contudo, não podemos deixar de observar que 
a pos ição de Manuel Sérgio possui maior densidade filosófica que os 
norte-americanos. 
A matriz pedagóg ica é um dos principais respostas à "crise" 
da década de 80, e resulta da apl icação no campo da Educação Física 
de teorias pedagóg i ca s de base marxista, após uma t e n d ê n c i a a 
pr incípio "humanista" ou "escolanovista": 
Educação Física é Educação [ . . . ] . Enquanto processo individual, 
a Educação Física desenvolve potencialidades humanas. Enquanto 
fenómeno social, ajuda este homem a estabelecer re lações com o 
grupo a que pertence (Oliveira, 1985:105). 
Educação Física é a prát ica pedagógica que tem tematizado 
elementos da esfera da cultura corporal/movimento [...] é antes de 
tudo uma prát ica pedagógica f. . .] é uma prát ica social de in tervenção 
imediata, e não uma prát ica social cuja caracter ís t ica primeira seja 
74 Motus Corporis, Rio de Joneíro, v. 3, n. 2. p. 73-127. dez. 1996 
Revista de Divulgação Científica do Mestrado e Doutorado em Educação Física 
explicar ou compreender um determinado fenómeno social ou uma 
determinada parte do real (Bracht, 1992:35). 
T a m b é m , é claro, os vários autores deste matriz têm diferentes 
concepções sobre o que é educação, homem, sociedade, etc. N ã o 
podemos nos alongar aqui a respeito disto. 
Cada uma destas matrizes oferece contr ibuições^ignif icaf ivas, 
mas t ambém cometem equívocos e esbarram em seus próprios limites. 
É o que passarei a apontar. 
A MATRIZ CIENTÍFICA: A PERDA DO OBJETO 
Denunciamos recentemente (Betti , 1994)