ESTRATEGIAS COMERCIAIS DAS FILIAIS BRASILEIRAS DE
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ESTRATEGIAS COMERCIAIS DAS FILIAIS BRASILEIRAS DE


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Setores como
alimentos, equipamentos de transporte, papel e celulose e siderurgia apre-
sentaram crescimento significativo entre 1989 e 1997, apresentando nesse
último ano coeficientes de exportação expressivos.
Alguns outros setores em que a exportação correspondia a uma parcela
relativamente alta do faturamento em 1989 apresentaram em 1997 um coe-
ficiente bem menor. As filiais do setor de mineração, por exemplo, tinham
exportações em 1989 que representavam 95,8% do faturamento. Em 1997
esse coeficiente caiu para 57,1%. Outros setores que tinham coeficientes de
exportação já relativamente baixos em 1989 reduziram ainda mais esses ín-
dices em 1997 (p. ex., as empresas de eletroeletrônica e informática, quími-
ca e farmacêutica).
Com relação aos coeficientes de importação, com exceção das filiais do
setor de minerais não-metálicos, todos os outros apresentaram crescimento
dos índices. Para o total da amostra, o crescimento foi de 5% em 1989 para
12,8% em 1997. As filiais dos setores de equipamentos para telecomunica-
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ções, farmacêutica, equipamentos de transporte, eletroeletrônica/informá-
tica, química e máquinas e equipamentos elétricos apresentaram coeficiente
de importação bastante superior ao total da amostra no ano de 1997.
O gráfico 1 mostrado a seguir permite visualizar de maneira conjunta a
evolução dos coeficientes de comércio exterior no período em questão. Para
cada setor foram plotados os pares de coeficientes de exportação e importa-
ção em 1989 e 1997.3 Com exceção do setor de minerais não-metálicos, todos
os setores apresentaram deslocamentos para cima ao longo do eixo que mede
o coeficiente de importações. Já para o coeficiente de exportações, é possível
verificar que o movimento não é uniforme, com alguns setores exibindo des-
locamento para a direita, outros praticamente mantendo o mesmo patamar,
e ainda outros mostrando redução no coeficiente de exportações.
Para a maioria dos setores também é possível perceber uma inclinação
superior a 45º da reta que mostra a evolução dos pares de coeficientes nos
dois anos considerados. Além do setor de minerais não-metálicos, apenas as
filiais dos setores de alimentos e de autopeças apresentaram evolução dos
coeficientes de exportação maior do que o de importações.
Tabela 3: Coeficientes de exportação e importação setorial da amostra (1989 e 1997)
Setor Coeficientes de exportação Coeficientes de importação
1989 1997 1989 1997
Alimentos 12,8% 23,1% 2,1% 9,3%
Automobilístico 15,4% 11,5% 3,6% 13,2%
Autopeças 9,5% 11,3% 7,3% 7,9%
Eletroeletrônica/informática 6,5% 4,9% 8,4% 17,2%
Equipamentos de transporte 13,2% 18,8% 6,6% 18,7%
Farmacêutico 4,5% 2,0% 18,1% 27,9%
Fumo 6,2% 8,8% 0,2% 3,4%
Higiene e limpeza 0,8% 2,2% 2,9% 6,4%
Máquinas e equip. elétricos 4,1% 8,3% 5,7% 17,0%
Máquinas e equip. mecânicos 19,5% 13,8% 2,7% 7,2%
Mineração 95,8% 57,1% 1,8% 5,6%
Não-metálicos 3,6% 9,6% 2,3% 1,3%
Papel e celulose 37,1% 41,6% 0,9% 2,1%
Química 6,7% 5,8% 9,7% 17,6%
Siderurgia/metalurgia 16,1% 19,7% 3,1% 9,1%
Telecomunicações 3,1% 4,2% 6,0% 23,9%
Total da amostra 12,1% 11,4% 5,0% 12,8%
Fonte: NEIT/IE/Unicamp, a partir de dados da Secex e Exame
127Célio Hiratuka \u2013 Estratégias comerciais das filiais brasileiras...
É interessante notar também que a maioria dos setores que figura em
1997 com índices de importação em relação às vendas elevado apresenta
também coeficientes de exportação bastante baixos. Como pode ser obser-
vado pelo gráfico, apenas os setores de equipamentos de transporte e, em
menor medida, o setor automobilístico apresentaram coeficientes elevados
tanto de exportação quanto de importação em 1997.
Esse primeiro conjunto de informações mostra que as filiais de empresas
estrangeiras atuando no Brasil aproveitaram as oportunidades decorrentes
da abertura comercial e da conjuntura de câmbio sobrevalorizado pós-plano
real para intensificar o fluxo de comércio com o exterior principalmente em
termos de importação. O maior crescimento das importações, tanto em ter-
mos absolutos quanto em relação ao total das vendas, reflete também o ajus-
te produtivo das filiais das ETs pós-abertura, marcado por estratégias de ra-
cionalização da produção e especialização através da redução do grau de
integração vertical das atividades, complementação das linhas de produtos
com importações e substituição dos fornecedores locais por fornecedores
externos. De fato, esta estratégia foi seguida não apenas pelas filiais, mas
também pelas grandes empresas nacionais. Entretanto, nas ETs, diferente-
mente das empresas locais, essas estratégias significaram também uma ade-
quação às estratégias de racionalização e coordenação global das atividades
Gráfico 1: Evolução dos coeficientes de comércio da amostra (1989-1997)
Fonte: NEIT/IE/Unicamp, a partir de dados da Secex e Exame
30,0%
25,0%
20,0%
15,0%
10,0%
5,0%
0,0%
0,0% 5,0% 10,0% 15,0% 20,0% 25,0% 30,0%
Alimentos
Automobilístico
Autopeças
Eletroeletrônica/informática
Equipamentos de transporte
Farmacêutico
Fumo
Higiene e limpeza
Máquinas e equip. elétricos
Não-metálicos
Química
Siderurgia/metalurgia
Telecomunicações
co
ef
ic
ie
nt
es
 d
e 
im
po
rt
aç
ão
coeficientes de exportação
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produtivas implementadas pelas matrizes (analisadas na seção 1). Neste ca-
so, a complementação de linha de produtos e importação de insumos e com-
ponentes deve ter tido um grau elevado de importações intrafirma, seja da
matriz, seja de outras filiais em outros países, além da influência dos proces-
sos de outsourcing global comandados pelo núcleo decisório da corporação.
Ao mesmo tempo, o baixo crescimento/redução dos coeficientes de ex-
portações dá indicações de que em geral o processo acima referido de racio-
nalização e ajuste produtivo das filiais brasileiras não reverteu em maiores
propensões a exportar, corroborando a afirmação de Laplane e Sarti (1999)
de que, em geral, as estratégias das ETs visam prioritariamente explorar o
mercado interno.
Esse fato é mais marcante para aqueles setores que possuem encadea-
mentos produtivos mais complexos e onde existe maior possibilidade de se-
paração das atividades produtivas. Nas filiais de setores como eletroeletrô-
nica, telecomunicações, química, farmacêutica, automobilística, higiene e
limpeza e equipamentos elétricos, esse processo acabou acarretando saldos
comerciais negativos crescentes (gráfico 2).
Os setores que apresentam coeficientes de exportação e saldo comercial
elevado continuam sendo aqueles que exploram a base de recursos naturais
do país e/ou se apresentam nas etapas intermediárias dos processos produ-
tivos. As filiais de setores como alimentos, papel e celulose, mineração e si-
derurgia, apesar de terem aumentado bastante as importações, continuam
destinando uma parcela grande das vendas para o mercado externo, se en-
quadrando na categoria resource seeking da tipologia de Dunning.
O setor de equipamentos de transporte é o único que apresenta um pa-
drão diferente dos dois grupos anteriores, tendo experimentado crescimen-
to tanto dos coeficientes de importação quanto de exportação. De fato, es-
tão incluídas nesse setor empresas produtoras de caminhões e ônibus e
máquinas agrícolas, onde algumas filiais brasileiras estão responsáveis pelo
fornecimento mundial de peças e produtos finais.
Os dados apresentados a seguir permitem qualificar essa análise. Utili-
zando a mesma hipótese de Baumman (1993) foi possível chegar a uma
proxy do comércio intrafirma para as filias da amostra. Essa hipótese consi-
dera todo comércio realizado