Linguística Aplicada ao Ensino da Língua Portuguesa - Conteúdo Online
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conferem prestígio ao falante, 
aumentando-lhe a credibilidade e o poder de persuasão; outras contribuem para formar-lhe 
uma imagem negativa, diminuindo-lhe as oportunidades. 
Há que se ter em conta ainda que essas reações dependem das circunstâncias que cercam a 
interação. Os alunos que chegam à escola falando \u2015nós cheguemu\u2016, \u2015abrido\u2016 e \u2015eles drome\u2016, 
por exemplo, têm que ser respeitados e ver valorizadas as suas peculiaridades linguístico-
culturais, mas têm o direito inalienável de aprender as variantes do prestígio dessas 
expressões. Não se lhes pode negar esse conhecimento, sob pena de se fecharem para eles, 
as portas, já estreitas, da ascensão social. O caminho para uma democracia é a distribuição 
justa de bens culturais, entre os quais a língua é o mais importante.\u2016 
(BORTONI-RICARDO, Stella-Maris. Nós cheguemu na escola, e agora? Sociolinguística e 
educação. São Paulo: Parábola, 2005, p.15.) 
Vamos terminar nossa aula com mais duas reflexões? 
O título ao lado é, na verdade, título de um livro de Marcos Bagno que discute, 
principalmente, essas diferenças entre o português brasileiro e o português europeu. No 
primeiro capítulo chamado Ensinar português ou estudar brasileiro? temos uma discussão bem 
interessante acerca desse tema que está resumida a seguir. 
Ensinar português é: 
\u2022 Ensinar um conjunto de prescrições sintáticas consideradas corretas; 
\u2022 Inculcar na mente do aluno que aquilo que diverge da Gramática Normativa não é 
português; 
\u2022 Transmitir uma ideologia linguística que prega a homogeneidade linguística e que 
encara todas as formas divergentes de prescritas como \u2018ruína do idioma\u2018; 
\u2022 Afirmar que brasileiro não sabe português. 
Estudar brasileiro é: 
\u2022 Ter uma visão sintonizada com o pensamento científico atual e admitir que a Gramática 
Normativa é uma \u2017doutrina\u2018 com 2.300 anos de soberania e representa apenas uma 
etapa da evolução do conhecimento humano. 
\u2022 Refletir criticamente sobre a prescrição gramatical; 
\u2022 Compreender que a língua falada e escrita no Brasil é fruto da evolução linguística 
comum a todos os sistemas linguísticos e que toda língua é um corpo em movimento, 
em transformação e nunca definitivamente pronto. 
AULA 3 \u2013 A LINGUÍSTICA E OS PARÂMETROS CURRICULARES 
NACIONAIS 
O Que São os Parâmetros Curriculares Nacionais? 
\u2015Os Parâmetros Curriculares Nacionais constituem um referencial de qualidade para a 
educação no Ensino Fundamental em todo o país. Sua função é orientar e garantir a coerência 
dos investimentos no sistema educacional, socializando discussões, pesquisas e 
recomendações, subsidiando a participação de técnicos e professores brasileiros, 
principalmente daqueles que se encontram mais isolados, com menor contato com a produção 
pedagógica atual. 
Por sua natureza aberta, configuram uma proposta flexível, a ser concretizada nas decisões 
regionais e locais sobre currículos e sobre programas de transformação da realidade 
educacional empreendidos pelas autoridades governamentais, pelas escolas e pelos 
professores. Não configuram, portanto, um modelo curricular homogêneo e impositivo que se 
sobreporia à competência político-executiva dos estados e municípios, à diversidade 
sociocultural das diferentes regiões do país ou à autonomia de professores e equipes 
pedagógicas\u2016 (PCN, p.13). 
Pela definição, podemos perceber que os PCN não são um conjunto de leis, e sim propostas 
com o objetivo de auxiliar os professores. 
Conversamos em nossa aula 1 sobre as mudanças ocorridas a partir da década de 70 no que 
diz respeito ao público que recebemos nas escolas. 
Em um primeiro momento, o foco das discussões estava no modo de ensinar, mas, a partir da 
década de 80, essa discussão passa a focar no conteúdo, naquilo que é ou deveria ser 
ensinado. Se, na década anterior, o ensino puramente gramatical parecia adequado, tem-se 
nos anos 80 as pesquisas linguísticas apontando outros caminhos, novas possibilidades. 
Que Críticas os PCN Fazem ao Ensino Tradicional? 
Diante desse quadro que suscitava mudanças no ensino de Língua Portuguesa, os PCN do 
Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental de Língua Portuguesa criticam, entre outros 
aspectos: 
\u2022 \u2015A desconsideração da realidade e dos interesses dos alunos; 
\u2022 A excessiva escolarização das atividades de leitura e de produção de texto; 
\uf0b7 O uso do texto como expediente para ensinar valores morais e como pretexto para o 
tratamento de aspectos gramaticais; 
\uf0b7 A excessiva valorização da gramática normativa e a insistência nas regras de exceção, 
com o consequente preconceito contra as formas de oralidade e as variedades não 
padrões; 
\uf0b7 O ensino descontextualizado da metalinguagem, normalmente associado a exercícios 
mecânicos de identificação de fragmentos linguísticos em frases soltas; 
\uf0b7 A apresentação de uma teoria gramatical inconsistente \u2013 uma espécie de gramática 
tradicional mitigada e facilitada\u2016 (p. 18). 
Começa-se a considerar as dificuldades dos alunos diante do que a escola espera deles e 
percebe-se que, quanto menor é o grau de letramento da comunidade desses alunos, maiores 
são as dificuldades que eles enfrentam na escola. Diante desse quadro, o que poderíamos 
fazer? 
Perceberam a mudança no foco? Fala-se, agora, em \u2015linguagem como atividade discursiva\u2016 e 
em \u2015saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania\u2016. Preocupa aos 
educadores, agora, a interação diária tanto ao conversarmos quanto ao escrevermos. 
Trazemos para o ensino de Língua Portuguesa a importância de considerarmos tanto a 
modalidade oral quanto a modalidade escrita da língua, além da noção de gênero textual. 
Será que alcançaremos esses propósitos através de exercícios de classificação e de análise 
sintática? Claro que não! 
Mais adiante, no tópico chamado Aprender e ensinar Língua Portuguesa na escola, temos a 
discussão a seguir. 
Fala-se em conhecimento linguístico e discursivo, no aluno como sujeito da ação de aprender, 
na aprendizagem através de práticas sociais. Prosseguindo na leitura, veremos que se atribui 
importância ao trabalho com textos de gêneros, às práticas discursivas que favoreçam a 
melhoria da capacidade de comunicação dos alunos, tanto no que diz respeito à oralidade 
quanto no que diz respeito à escrita. 
Pesquisas têm mostrado o grande número de alunos que conclui o Ensino Médio sem estar 
devidamente habilitado a aplicar as regras gramaticais aprendidas. Um aluno que estuda de 
forma regular tem, pelo menos, 12 anos de aulas de Língua Portuguesa, considerando-se os 
níveis fundamental e médio do ensino. 
Os PCN de Ensino Médio trazem a seguinte discussão: 
\u2015O estudo gramatical aparece nos planos curriculares de Português, desde as séries iniciais, 
sem que os alunos, até as séries finais do Ensino Médio, dominem a nomenclatura. Estaria a 
falha nos alunos? Será que a gramática que se ensina faz sentido para aqueles que sabem 
gramática porque são falantes nativos? A confusão entre norma e gramaticalidade é o grande 
problema da gramática ensinada pela escola. O que deveria ser um exercício para o 
falar/ler/escrever melhor se transforma em uma camisa de força incompreensível.\u2016 (p.16) 
Por que isso acontece? 
Acredita-se que o problema esteja na \u2017falta de sentido\u2018. 
Isso mesmo! Faz algum sentido aprender a formação da mesóclise de forma 
descontextualizada? O primeiro pensamento do aluno é \u2017Ninguém fala desse jeito!\u2018. 
Mas faria sentido se mostrássemos ao nosso aluno um clássico da literatura, um jornal de 
época em que essa estrutura ainda existia, não é mesmo? 
1. O caso não é o que ensinar, mas como ensinar! É a estratégia usada que traz 
significação. É o não separar uso e contexto, ainda que estejamos falando de um 
contexto fora da realidade