Linguística Aplicada ao Ensino da Língua Portuguesa - Conteúdo Online
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Vejamos parte do que se diz nesse documento. 
Veja que o quarto item já trata da variação no que concerne à sintaxe. 
Como Será Que os Livros Didáticos de Fato \u201cTrabalham\u201d? 
Em O livro didático de português: múltiplos olhares temos análises realizadas por diferentes 
autores sobre alguns temas e o tratamento a eles dispensado em manuais didáticos de Língua 
Portuguesa. Um do capítulos, escrito por Angela Paiva Dionísio, analisa o fenômeno de 
variação linguística. 
Vejamos um trecho desse capítulo. 
VER MATERIAL ADICIONAL, TRECHO DO LIVRO 
Finalizamos esta aula com as palavras de Travaglia (2003) em Gramática: ensino plural. 
Segundo ele, os objetivos do ensino de língua materna devem contemplar: 
\u2015a) ensinar a língua, o que resulta em habilidades de uso da língua, e 
b) ensinar sobre a língua, o que resulta em conhecimento teórico (descritivo e explicativo) 
sobre a língua e pode desenvolver a habilidade de análise de fatos da língua.\u2016 (TRAVAGLIA, 
2003, p. 77). 
AULA 5 \u2013 DESCRIÇÃO GRAMATICAL, PESQUISA LINGUÍSTICA E ENSINO 
DE LÍNGUA PORTUGUESA 
O Fenômeno da Concordância 
Imaginemos a seguinte situação. Estamos numa fila em um banco e a pessoa que está a 
nossa frente diz: \u2015Os pessoal tudo já foi atendido.\u2016 
O que você pensaria sobre essa pessoa? 
Sua resposta, provavelmente, foi: \u2015Essa pessoa estudou pouco.\u2016 Por que você fez esse 
julgamento? Ou melhor, a partir de que tipo de conhecimento sobre a língua você fez esse 
julgamento? 
Mollica, em Fala, letramento e inclusão social, nos diz que falantes mais letrados tendem 
a fazer julgamentos como esse a partir do seu conhecimento acerca da estrutura da língua. 
Segundo ela, existe uma relação entre a diversidade linguística no Brasil e a mobilidade social, 
já que temos conhecimento de que há uma variedade de prestígio. 
Como profissionais de Letras, já sabemos que todas as línguas variam, que há uma \u2017luta\u2018 entre 
variação e mudança, mas já sabemos também que o papel da escola é levar nossos alunos o 
mais próximo possível do que é o uso culto da língua. 
Um uso como o da pessoa na fila do banco gera uma avaliação negativa por parte de quem a 
ouve; essa avaliação negativa pode mudar a posição que esse indivíduo ocupa em uma escala 
social. Embora saibamos que a língua varia em muitas áreas, a concordância é algo que \u2017salta\u2018 
aos ouvidos. Nossa percepção de uma ocorrência como \u2017As casa é bonita\u2018 é muito forte, assim 
como nossa atitude de rejeição a essa variante. 
Quando consideramos a concordância verbal, nossa atitude muda um pouco: há muitas regras 
impostas pela Gramática Normativa das quais não fazemos uso efetivo em nossa fala. Em 
alguns casos, não fazemos uso por acreditarmos que a regra é variável; em outros, por 
desconhecimento do que é prescrito. 
No campo da concordância verbal, há usos que nos marcam como em \u2017Nós foi na festa\u2018 e 
outros que passam, na maior parte das vezes, despercebido ao falante comum como \u2017Fazem 
dez anos que não vou lá\u2018. Nesse último, reconhecer que o verbo \u2017fazer\u2018 é impessoal e, 
portanto, não deveria ter sido flexionado no plural, exige conhecimento específico de que o 
verbo \u2017fazer\u2018 nesse contexto é impessoal, ou seja, exige conhecimento acerca da estrutura e 
do funcionamento da língua. 
Gramática de Uso - Uma Proposta de Exercício 
Travaglia (2001), já citado em aulas anteriores, nos diz que a gramática de uso é \u2015não-
consciente, implícita e liga-se à gramática internalizada do falante. No ensino, ela se estrutura 
em atividades que buscam desenvolver automatismo no uso das unidades, regras e princípios 
da língua [...] Essas atividades, portanto, são especiais para a finalidade de alcançar a 
internalização de unidades linguísticas, construções, regras e princípios de uso da língua [...]\u2016 
(p. 111). 
E como será que o livro didático trata esse tema? Analisamos três coleções amplamente 
utilizadas em escolas particulares do município do Rio de Janeiro e somente uma tratou o 
tema de acordo com o que os PCNs esperam: o livro Gramática: texto: análise e construção 
de sentido, de Maria Luiza M. Abaurre e Marcela Pontara. 
As autoras abrem um espaço chamado \u2017Cuidado com o preconceito!\u2018 discutindo a 
concordância a partir do diálogo presente em uma tira do Níquel Náusea: 
\u2015_ Gatinha!! Quando te vejo cada partícula do universo se torna mais viva e cintilante! 
_ Gatinha!! Quando te vejo cada partícula do universo se torna mais viva e cintilante! 
_ Oi! 
_ Gatinha! As coisa fica brilhenta! 
_ Preciso ensaiar mais!\u2016 
O Uso dos Pronomes Ele/Ela como Acusativo 
Continuamos em nossa fila. Agora, ouvimos duas pessoas que conversam sobre alguém que 
viram na rua. 
_ Você viu a Ana? 
_ Eu a vi sim. 
_ O que você achou dela? 
_ Eu conheço a Ana desde que ela era criança. Achei ela meio acabada... 
_ É, também achei meio velha. 
No diálogo acima, temos quatro formas diferentes de retomada do objeto direto \u2015Ana\u2016: 
Uso do pronome clítico: \u2015Eu a vi sim.\u2016 
Uso do sintagma nominal: \u2015Eu conheço a Ana desde que ela era criança.\u2016 
Uso do pronome ele: \u2015Achei ela meio acabada...\u2016 
Uso da categoria vazia: \u2015É, também achei Ø meio velha.\u2016 
Esses quatro usos aparecem na fala de, praticamente, todos os falantes de língua portuguesa. 
Raros são os falantes cultos que não utilizam \u2017ele\u2018 como objeto direto, principalmente com 
verbos trissílabos como \u2017conhecer\u2018. E aí paramos para refletir: será que \u2017conhecer ele\u2018 é uma 
forma marcada? Esse uso de \u2017ele\u2018 é estigmatizado? 
Voltando à discussão do começo da aula sobre a percepção do falante, pesquisas apontam 
que há ambientes de uso preferencial para uma ou outras das variantes acima. 
Por mais que nos cause estranhamento, a pesquisa de referência a esse fenômeno realizada 
por Tarallo e Duarte (1986) aponta que: 
\uf0b7 Categoria vazia é amplamente utilizada; 
\uf0b7 O clítico varia desde ausente até a baixa ocorrência na fala de indivíduos altamente 
escolarizados; 
\uf0b7 O pronome lexical tem ocorrência de 23% na fala de jovens com primeiro grau e seu 
uso diminui à medida que a faixa etária e a escolaridade aumentam; 
\uf0b7 Entre os falantes de faixa etária e escolaridade alta, há preferência pelos sintagmas 
nominais lexicais. 
O que esse estudo nos aponta? Uma atitude diferenciada diante da retomada do objeto direto. 
E como procederíamos? 
Nesse caso, cabe a observação das diferenças entre as modalidades falada e escrita da língua: 
apesar de o uso do pronome \u2017ele\u2018 não apresentar forte estigma (Cf. \u2017Eu conheço ele desde 
criança\u2018), quando consideramos um ambiente de formalidade, o uso do pronome oblíquo será 
requerido. 
Agora, vamos ler uma análise em acordo com a proposta dos PCNs. Veja o tratamento dado a 
esse fenômeno no livro já citado Gramática: texto: análise e construção de sentido, de 
Maria Luiza M. Abaurre e Marcela Pontara. As autoras utilizam um espaço chamado De olho 
na fala para trazer reflexões sobre a diferença entre as modalidades falada e escrita da 
língua. 
\u2015Na tira do Garfield, aparece uma estrutura considerada inadequada pela gramática 
normativa, mas muito comum na linguagem coloquial: \u2015Eles já não fabricam ela [comida para 
gato] mais tão fedida e repulsiva\u2016. Como a função sintática a ser exercida pelo pronome, 
nesse caso, é de objeto direto do verbo fabricar, a gramática normativa recomenda o uso das 
formas oblíquas dos pronomes pessoais (\u2015Eles já não a fabricam mais tão fedida e repulsiva\u2016). 
O que se observa, porém, é que o uso dos pronomes oblíquos nesse contexto, está cada vez 
mais restrito à escrita formal. Na fala, especialmente em um registro mais coloquial, a forma 
do pronome pessoal do caso reto é mais frequente.\u2016 (ABAURRE; PONTARA, 2006, p. 215). 
Colocação Pronominal 
A colocação pronominal no Português Brasileiro