Linguística Aplicada ao Ensino da Língua Portuguesa - Conteúdo Online
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envolvem a língua escrita. Ser letrado significa, portanto, ser capaz de ler ou escrever para atingir diferentes objetivos, ou seja, implica \u201c[...] atitudes de inserção efetiva no mundo da escrita, tendo interesse e prazer em ler e escrever\u201d (p. 92). 
Kleiman (1995), em Os significados do letramento, reitera a importância em separar os termos \u2018letramento\u2019 e \u2018alfabetização\u2019 devido ao fato de haver crianças que possuem estratégias orais letradas, antes mesmo de serem alfabetizadas.
Modelos de Letramento
Autônomo: Ângela Kleiman (1995) comenta o estabelecido por Street (1984, apud Kleiman 1999): a escola trabalha com o modelo autônomo já que as práticas de uso da escrita da escola, que são as que predominam na sociedade e pressupõem que o letramento está associado ao progresso. Kleiman comenta que esse modelo \u201c[...] considera a aquisição da escrita como um processo neutro, que independe de considerações contextuais e sociais [...]\u201d (p. 44) Além disso, ela aponta que \u201cO modelo autônomo tem o agravante de atribuir o fracasso e a responsabilidade por esse fracasso ao indivíduo que pertence ao grupo dos pobres e marginalizados nas sociedades tecnológicas. [...] É comum a percepção do problema em termos individuais, contraditórios à realidade social.\u201d (p. 38)
Ideológico: proposto por Street (1984, apud Kleiman 1995), considera a pluralidade das práticas de letramento como social e culturalmente determinadas e acredita que há relação entre práticas orais e práticas letradas. Segundo este modelo, as práticas de letramento são influenciadas pelo contexto. Por exemplo, famílias com pais que possuem nível universitário, valorizam mais os eventos de letramento.
Vamos conversar sobre eventos e práticas de letramento usando a propaganda abaixo.
Em nossa vida diária, poderíamos ver essa propaganda em um outdoor e ignorá-la ou, ao contrário, achá-la interessante e comentar sobre ela com alguém. Se essa propaganda aparecesse em um livro didático, viria cercada de atividades que seríamos obrigados a realizar, independentemente de termos gostado da propaganda ou não.  Como eventos e práticas, aquilo que acontece de forma espontânea ou o que é \u2018pedagogizado\u2019 pela escola são atividades bem diferentes, pois a escola, ao retirar o texto do seu ambiente, \u2018autonomiza\u2019 esse texto, cria para ele outros eventos e outras práticas.
Segundo, \u201cÉ a pedagogização do letramento, nos termos de Street (1995b, p.106-118), processo pelo qual a leitura e a escrita, no contexto escolar integram eventos e práticas sociais específicas, associadas à aprendizagem, de natureza bastante diferente dos eventos e práticas associados a objetivos e a concepções não escolares.\u201d (SOARES, Magda. Letramento e escolarização. In. RIBEIRO, Vera Masagão (org.) Letramento no Brasil. São Paulo: Ação Educativa, 2003, p. 107.)
Letramento, Fala, Escrita e Oralidade
Oralidade: \u201c[...] prática social interativa para fins comunicativos que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora; ela vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso.\u201d (p.25)
Fala: \u201cForma de produção textual-discursiva para fins comunicativos na modalidade oral (situa-se no plano da oralidade, portanto), sem a necessidade de uma tecnologia além do aparato disponível pelo próprio ser humano.\u201d (p. 25)
Marcuschi (2000), em Da fala para a escrita: atividades de retextualização, afirma que, embora sejam frequentemente usadas como sinônimas, as palavras fala e oralidade representam ideias diferentes.
E o que seria a escrita para esse autor? Para ele, a palavra escrita pode ser vista a partir do seu aspecto de construção simbólica do conhecimento o que pode ser reforçado pelo pensamento de Vygotsky que considera a escrita um dos aspectos do desenvolvimento individual e cultural dos indivíduos. A escrita seria \u201c[...] um modo de produção textual-discursiva para fins comunicativos com certas especificidades materiais [...]. Pode manifestar-se do ponto de vista de sua tecnologia [...]\u201d (p. 26).
Marcuschi (2000), ao discutir a questão oralidade x letramento, comenta que, ao se estudar a relação entre fala e escrita, devem ser considerados os seus usos na vida cotidiana, já que envolvem a língua e o texto. Segundo ele, escrita e leitura, ou seja, os processos de letramento, devem ser analisados como práticas sociais mais amplas que envolvem o uso da língua e estabelecem o papel e a importância da oralidade e do letramento. É necessário compreender a influência e a penetração da escrita na sociedade já que, como foi dito anteriormente, as línguas se fundam em usos e, ao se estudar a língua, são os seus usos que devem ser analisados.
A Importância da Oralidade na Aprendizagem da Escrita
Como foi dito, a fala é adquirida naturalmente, em contextos informais do cotidiano sendo a aquisição e o uso da língua natural uma forma de inserção cultural e de socialização. A escrita é adquirida em um contexto formal, a escola, sendo baseada em uma variedade linguística considerada padrão. A norma adotada pela língua escrita está mais relacionada à gramática normativa e, por isso, possui estabilidade e abrangência fora do alcance da comunidade de fala. De acordo com Marcuschi (2000), língua falada e língua escrita possuem normas linguísticas diferentes. Cada comunidade linguística possui sua norma de fala baseada no uso normal dentro da comunidade.
Muito se tem discutido quanto à interferência da fala na escrita em termos de problemas ortográficos. No entanto, essa influência de uma modalidade sobre a outra tem sido pouco estudada sob um ponto de vista que apontasse que o desenvolvimento da oralidade beneficiaria os alunos em sua inserção no universo letrado.
Segundo Kato (1995, em No mundo da escrita, na fase inicial da aprendizagem da escrita pela criança, há uma representação da fala pela escrita ilustrada pela gráfico a seguir apresentado pela autora à página 11:
Fala 1 \u2013 escrita 1 \u2013 escrita 2 \u2013 fala 2
A fala 1 representa a fase de pré-escrita, o processo de aquisição, e, em relação ao tipo de conhecimento envolvido, é inconsciente. A escrita 1, fase de aprendizagem, representaria o momento em que há transferência de características da fala para a escrita. A escrita2 representa o momento de conclusão do processo de aprendizagem e seria neutra em relação à fala, sendo as duas fases de escrita conscientes. A fala 2 seria influenciada pela tecnologia da escrita e teria um componente da fala 1, que é inconsciente, mas também possui partes conscientes que derivam do conhecimento da escrita.
Matêncio (1994), em Leitura, produção de textos e a escola, ao comentar sobre a importância da escolha das atividades escritas afirma que: 
\u201cCaberia ao educador reconhecer o movimento da linguagem que se realiza em diferentes situações de interação pela palavra escrita, considerando também que as variantes linguísticas, os registros utilizados, assim como o fato de os usos estarem ou não apropriados para uma dada situação não são padrões imutáveis, pois as mudanças linguísticas existem e são históricas, vinculando-se ao valor social atribuído aos grupos que as utilizam.\u201d (p. 46)
A Questão do Analfabetismo Funcional
Antes de tratarmos diretamente do analfabetismo funcional, vamos refletir sobre as taxas de analfabetismo de 1940 até o ano de 2000.
Aparentemente, progredimos muito, pois saímos de um índice de quase 60%, na década de 1940, para menos de 20% no ano de 2000. No entanto, nosso problema está no alfabetismo funcional.
Instituto Nacional do Alfabetismo Funcional \u2013 INAF
Segundo informação do próprio site, o INAF \u201cé um indicador que mede os níveis de alfabetismo funcional da população brasileira adulta\u201d cujo objetivo \u201cé oferecer à sociedade informações sobre as habilidades e práticas de leitura, escrita e matemática dos brasileiros entre 15 e 64 anos de idade, de modo a fomentar o debate público, estimular iniciativas da sociedade civil e subsidiar a formulação de políticas nas áreas de educação e cultura\u201d.
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