Linguística Aplicada ao Ensino da Língua Portuguesa - Conteúdo Online
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sugere um nível ideal parcialmente percebido e certamente não realizado. Já a norma objetiva (norma explícita; padrão real) seria a do uso linguístico concreto, correspondendo ao \u201cdialeto\u201d praticado pela classe de prestígio.\u201d
BRITTO, Luiz P. L. de. Contra o consenso: cultura escrita, educação e participação. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2003, p. 28.
Língua culta: \u2018culta\u2019 também é considerado um termo problemático: norma culta vai se opor à norma inculta? Que conceito de cultura é esse? Só as classes dominantes têm cultura?
Então, o que seria, para os linguistas, língua culta ou norma culta?
\u201cAssim, a expressão norma culta deve ser entendida como designando a norma linguística praticada, em determinadas situações (aquelas que envolvem certo grau de formalidade), por aqueles grupos sociais mais diretamente relacionados com a cultura escrita, em especial por aquela legitimada historicamente pelos grupos que controlam o poder social.\u201d (BAGNO, 2007, p. 105). Vamos, agora, refletir sobre o diagrama a seguir?
	
No livro A língua de Eulália, Bagno nos apresenta na página 160 o gradiente acima como forma de exemplificar a relação entre a norma culta e a língua padrão. Observe que a língua padrão estão fora e acima do uso falante culto. Qual seria, então, o papel da escola? Elevar nossos alunos nesse gradiente tanto quanto possível, ou seja, aproximá-lo desse uso considerado o prestigiado.
Português Brasileiro x Português Europeu
A norma padrão é fruto de um processo histórico e é na sua origem a língua do poder econômico, político e social. O curioso em relação a essa tão falada \u2018língua padrão\u2019 é o fato de ela mudar com o tempo, de tal modo que formas que já pertenceram ao padrão hoje fazem parte da variedade não padrão da língua. Quer exemplos? Avoar e despois são formas encontradas em Os Lusíadas e que hoje fazem parte da variedade não padrão da língua.
E como surgiu o Padrão?
Vamos Ler o Que Bagno, em Outra de suas Obras, Tem a Nos Dizer?
\u201cAo contrário do que declaram algumas pessoas desavisadas, os linguistas não consideram o processo de constituição de uma norma-padrão como uma coisa intrinsecamente negativa. Eles sabem que a vida social é regulada por normas, entre as quais estão as normas de comportamento linguístico. Os linguistas simplesmente chamam a atenção para o fato de a normatização da língua não ser um processo \u201cnatural\u201d, mas sim o resultado de ações humanas conscientes, ditadas por necessidades políticas e culturais, e nas quais impera frequentemente uma ideologia obscurantista, dogmática e autoritária.\u201d
BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso \u2013 por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2007, p. 37.
O Projeto NURC
O projeto NURC \u2013 Norma Urbana Culta \u2013 desenvolvido por professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, descreveu usos orais cultos. Observe que o uso do adjetivo \u2018cultos\u2019, no Projeto, relaciona-se ao fato de o indivíduo ter 3º grau completo, ou seja, essa é a visão linguística do que é ser falante culto.  
Marcos Bagno, em Português ou Brasileiro? Um convite à pesquisa, apresenta os objetivos a seguir como sendo os do Projeto NURC:
\u201c1. Dispor de material sistematicarnente levantado que possibilite o estudo da modalidade oral culta da língua portuguesa em seus aspectos fonético, fonológico, morfo-sintático, sintático, lexical e estilístico;
2. Ajustar o ensino da língua portuguesa, em todos os seus graus, a uma realidade lingüística concreta [...];
3. Superar o empirismo na aprendizagem e ensino da língua-padrão pelo estabelecimento de uma norma culta real;
4. Basear o ensino em princípios metodológicos apoiados em dados lingüísticos cientificamente estabelecidos;
5. Conhecer as normas tradicionais que estão vivas e quais as superadas, a fim de não sobrecarregar o ensino com fatos linguísticos inoperantes;
Corrigir distorções do esquema tradicional da educação, entravado por urna orientação acadêmica e beletrista.\u201d (BAGNO, 2001, p. 53).
Como esse projeto trabalhou? 
Os pesquisadores entrevistaram pessoas de profissões variadas em diferentes regiões do Brasil e esses dados coletados foram usados na realização de pesquisas sobre diferentes usos da Língua Portuguesa em campos como Fonética/Fonologia, Morfossintaxe e Léxico.
O que os resultados das pesquisas do NURC apontaram? 
Nas situações formais de fala de informantes de escolaridade mais alta a distância entre as prescrições e o uso real já é significativa. Quer um exemplo? Prescreve-se o uso do pronome clítico em situações como \u201cEu o vi na festa\u201d, mas o falante opta por dizer \u2018Eu vi o João na festa\u201d ou ainda apagam o referente e dizem \u201cEu vi Ø na festa\u201d.
Se os falantes de escolaridade mais alta nas suas falas formais se comportam como tal em relação à norma prescritiva, provavelmente se comportam da mesma forma em relação à escrita. Os professores partilham dialeto semelhante com o da maioria dos alunos, em relação à norma prescrita.
Primeiros resultados do NURC na década de 80: 
Substituição do mais que perfeito: fora x tinha ido; dormira x tinha dormido;
Apagamento do /r/ final do infinito: vou dormiØ;
Futuro sintético x locução: sairei x vou sair;
Vós fostes x vocês foram (vós x vocês);
Tu x você, mas se usa te;
A/para ele, a/para ela x lhe;
Nós x a gente.
Discutindo os Usos da Língua
Até agora, pudemos perceber que o Projeto NURC tentou descrever a realidade oral culta \u2014 informal e formal \u2014 de centros urbanos brasileiros.  Assim, como obra realizada por linguistas, ele teve como objetivo uma Gramática Descritiva da língua. 
Qual o conceito de regra para o Projeto NURC? Regra para o NURC significa regularidade no uso.
Qual o conceito de regra para a Gramática Normativa? Uso da língua como forma de expressão produzida por pessoas cultas, de prestígio. Em sociedades com língua escrita, esse é o modelo que se considera como o representante da língua.   
Para a Gramática Normativa. Se diverge do padrão: erro, vício de linguagem, vulgarismo.
Para a Gramática Descritiva 
a) A língua falada ou escrita é composta de dados variáveis e procuram-se as regularidades que condicionam essa variação.
b) As pessoas utilizam com muito mais frequência do que se pensa as formas ditas \u2018erradas\u2019: esse é o caminho que leva da variação à mudança linguística. As formas \u2018erradas\u2019 que os falantes cultos começam a usar acabam por tornar-se \u2018certas\u2019.
E agora você deve estar se perguntando: como fica a escola?
\u201cA escola não pode ignorar as diferenças sociolinguísticas. Os professores e, por meio deles, os alunos têm que estar bem conscientes duas ou mais maneiras de dizer a mesma coisa. E mais, que essas formas alternativas servem a propósitos comunicativos distintos e são recebidas de maneira diferenciada pela sociedade. Algumas conferem prestígio ao falante, aumentando-lhe a credibilidade e o poder de persuasão; outras contribuem para formar-lhe uma imagem negativa, diminuindo-lhe as oportunidades.
Há que se ter em conta ainda que essas reações dependem das circunstâncias que cercam a interação. Os alunos que chegam à escola falando \u201cnós cheguemu\u201d, \u201cabrido\u201d e \u201celes drome\u201d, por exemplo, têm que ser respeitados e ver valorizadas as suas peculiaridades linguístico-culturais, mas têm o direito inalienável de aprender as variantes do prestígio dessas expressões. Não se lhes pode negar esse conhecimento, sob pena de se fecharem para eles, as portas, já estreitas, da ascensão social. O caminho para uma democracia é a distribuição justa de bens culturais, entre os quais a língua é o mais importante.\u201d
(BORTONI-RICARDO, Stella-Maris. Nós cheguemu na escola, e agora? Sociolinguística e educação. São Paulo: Parábola, 2005, p.15.)
Vamos terminar nossa aula com mais duas reflexões?
O título ao lado é, na verdade, título de um livro de Marcos Bagno que discute, principalmente, essas diferenças entre o português brasileiro e o português europeu. No primeiro capítulo chamado Ensinar português ou estudar brasileiro?