Linguística Aplicada ao Ensino da Língua Portuguesa - Conteúdo Online
47 pág.

Linguística Aplicada ao Ensino da Língua Portuguesa - Conteúdo Online


DisciplinaLinguística Aplicada ao Ensino da Língua Portuguesa217 materiais735 seguidores
Pré-visualização16 páginas
a posição que esse indivíduo ocupa em uma escala social. Embora saibamos que a língua varia em muitas áreas, a concordância é algo que \u2018salta\u2019 aos ouvidos. Nossa percepção de uma ocorrência como \u2018As casa é bonita\u2019 é muito forte, assim como nossa atitude de rejeição a essa variante.
Quando consideramos a concordância verbal, nossa atitude muda um pouco: há muitas regras impostas pela Gramática Normativa das quais não fazemos uso efetivo em nossa fala. Em alguns casos, não fazemos uso por acreditarmos que a regra é variável; em outros, por desconhecimento do que é prescrito.
No campo da concordância verbal, há usos que nos marcam como em \u2018Nós foi na festa\u2019 e outros que passam, na maior parte das vezes, despercebido ao falante comum como \u2018Fazem dez anos que não vou lá\u2019. Nesse último, reconhecer que o verbo \u2018fazer\u2019 é impessoal e, portanto, não deveria ter sido flexionado no plural, exige conhecimento específico de que o verbo \u2018fazer\u2019 nesse contexto é impessoal, ou seja, exige conhecimento acerca da estrutura e do funcionamento da língua.
Gramática de Uso - Uma Proposta de Exercício
Travaglia (2001), já citado em aulas anteriores, nos diz que a gramática de uso é \u201cnão-consciente, implícita e liga-se à gramática internalizada do falante. No ensino, ela se estrutura em atividades que buscam desenvolver automatismo no uso das unidades, regras e princípios da língua [...] Essas atividades, portanto, são especiais para a finalidade de alcançar a internalização de unidades linguísticas, construções, regras e princípios de uso da língua [...]\u201d (p. 111).
E como será que o livro didático trata esse tema? Analisamos três coleções amplamente utilizadas em escolas particulares do município do Rio de Janeiro e somente uma tratou o tema de acordo com o que os PCNs esperam: o livro Gramática: texto: análise e construção de sentido, de Maria Luiza M. Abaurre e Marcela Pontara.
As autoras abrem um espaço chamado \u2018Cuidado com o preconceito!\u2019 discutindo a concordância a partir do diálogo presente em uma tira do Níquel Náusea:
\u201c_ Gatinha!! Quando te vejo cada partícula do universo se torna mais viva e cintilante!
_ Gatinha!! Quando te vejo cada partícula do universo se torna mais viva e cintilante!
_ Oi! 
_ Gatinha! As coisa fica brilhenta!
_ Preciso ensaiar mais!\u201d
O Uso dos Pronomes Ele/Ela como Acusativo
Continuamos em nossa fila. Agora, ouvimos duas pessoas que conversam sobre alguém que viram na rua.
_ Você viu a Ana?
_ Eu a vi sim.
_ O que você achou dela?
_ Eu conheço a Ana desde que ela era criança. Achei ela meio acabada...
_ É, também achei meio velha.
No diálogo acima, temos quatro formas diferentes de retomada do objeto direto \u201cAna\u201d:
Uso do pronome clítico: \u201cEu a vi sim.\u201d
Uso do sintagma nominal: \u201cEu conheço a Ana desde que ela era criança.\u201d
Uso do pronome ele: \u201cAchei ela meio acabada...\u201d
Uso da categoria vazia: \u201cÉ, também achei Ø meio velha.\u201d
Esses quatro usos aparecem na fala de, praticamente, todos os falantes de língua portuguesa. Raros são os falantes cultos que não utilizam \u2018ele\u2019 como objeto direto, principalmente com verbos trissílabos como \u2018conhecer\u2019. E aí paramos para refletir: será que \u2018conhecer ele\u2019 é uma forma marcada? Esse uso de \u2018ele\u2019 é estigmatizado?
Voltando à discussão do começo da aula sobre a percepção do falante, pesquisas apontam que há ambientes de uso preferencial para uma ou outras das variantes acima.
Por mais que nos cause estranhamento, a pesquisa de referência a esse fenômeno realizada por Tarallo e Duarte (1986) aponta que:
Categoria vazia é amplamente  utilizada;
O clítico varia desde ausente até a baixa ocorrência na fala de indivíduos altamente escolarizados;
O pronome lexical tem ocorrência de 23% na fala de jovens com primeiro grau e seu uso diminui à medida que a faixa etária e a escolaridade aumentam;
Entre os falantes de faixa etária e escolaridade alta, há preferência pelos sintagmas nominais lexicais.
O que esse estudo nos aponta? Uma atitude diferenciada diante da retomada do objeto direto. E como procederíamos? 
Nesse caso, cabe a observação das diferenças entre as modalidades falada e escrita da língua: apesar de o uso do pronome \u2018ele\u2019 não apresentar forte estigma (Cf. \u2018Eu conheço ele desde criança\u2019), quando consideramos um ambiente de formalidade, o uso do pronome oblíquo será requerido.
Agora, vamos ler uma análise em acordo com a proposta dos PCNs. Veja o tratamento dado a esse fenômeno no livro já citado Gramática: texto: análise e construção de sentido, de Maria Luiza M. Abaurre e Marcela Pontara. As autoras utilizam um espaço chamado De olho na fala para trazer reflexões sobre a diferença entre as modalidades falada e escrita da língua.
\u201cNa tira do Garfield, aparece uma estrutura considerada inadequada pela gramática normativa, mas muito comum na linguagem coloquial: \u201cEles já não fabricam ela [comida para gato] mais tão fedida e repulsiva\u201d. Como a função sintática a ser exercida pelo pronome, nesse caso, é de objeto direto do verbo fabricar, a gramática normativa recomenda o uso das formas oblíquas dos pronomes pessoais (\u201cEles já não a fabricam mais tão fedida e repulsiva\u201d).
O que se observa, porém, é que o uso dos pronomes oblíquos nesse contexto, está cada vez mais restrito à escrita formal. Na fala, especialmente em um registro mais coloquial, a forma do pronome pessoal do caso reto é mais frequente.\u201d (ABAURRE; PONTARA, 2006, p. 215).
Colocação Pronominal
A colocação pronominal no Português Brasileiro diferencia-se muito da encontrada no Português Europeu, já que nossa colocação é, principalmente, proclítica. Como trabalhar esse tema em sala de aula? 
VER MATERIAL ADICIONAL - COMO TRABALHAR EM SALA DE AULA A COLOCAÇÃO PRONOMINAL
Pronomes Pessoais do Caso Reto
Quando consideramos a variação no quadro de pronomes pessoais do Português Brasileiro, temos um afastamento entre a prescrição e o uso. Enquanto o quadro prescrito pelas gramáticas nos aponta seis pronomes (eu, tu, ele, nós vós, eles), a descrição da linguística tem nos apontado que, na maior parte do Brasil, os pronomes \u2018tu\u2019 e \u2018vós\u2019 encontram-se em processo de mudança linguística. Como substituto do pronome \u2018nós\u2019, temos a estrutura \u2018a gente\u2019 e para os pronomes \u2018tu\u2019 e \u2018vós\u2019, temos os pronomes de tratamento \u2018você\u2019/\u2018vocês\u2019. Como lidar com esse quadro em sala de aula?
Já vimos que a proposta dos PCNs é trazer a variação para reflexão em sala de aula. No entanto, quando se parte para a análise de livros didáticos, a situação é diferente da desejada pelos parâmetros do MEC. Analisamos três coleções diferentes destinadas a alunos do 6º ao 9º ano do ciclo fundamental e para nossa surpresa todas traziam o quadro pronominal completo, sem tratar da questão da variação. Uma dessas coleções \u2013 amplamente utilizada em escolas particulares do Rio de Janeiro \u2013 sequer mencionava o uso de \u2018a gente\u2019 e de \u2018você/vocês\u2019. Como fica, nesse caso, a questão da reflexão, da prática de análise linguística, da análise de dados linguísticos reais?
Entenda que não advogamos aqui que o aluno não aprenda o quadro pronominal completo mas sim que se deixe que ele questione, que ele reflita sobre os usos da língua. Por questões éticas, não trataremos aqui das coleções que não atingem o proposto pelos PCNs e traremos o exemplo positivo, retirado do livro já citado nesta aula Gramática: texto: análise e construção de sentido, Abaurre e Pontara (2006).
No espaço De olho na fala, ao comentar a análise de uma tira, as autoras nos dizem que \u201cNa tira, o primeiro pássaro usa a forma a gente para identificar uma referência de 1ª pessoa do plural (ele e o outro pássaro que conversam no galho). Na fala, principalmente em contextos mais descontraídos, é frequente usarmos a expressão a gente em lugar do pronome de primeira pessoa do plural correspondente (nós). Nesse caso, é preciso cuidado com a concordância verbal, porque, embora identificando mais de uma pessoa, a gente é uma forma singular e os verbos que a ela se referirem devem ser flexionados na 3ª pessoa do singular.\u201d (Abaurre; Pontara,