Linguística II - Conteúdo Online
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e a definição de \u201ecerto\u201f também. Podemos destacar, como exemplos, as 
formas \u201cdereito\u201d, \u201cdespois\u201d, \u201cpremeiramente\u201d, encontradas no texto de Pero Vaz de Caminha 
(1500), que faziam parte do português padrão daquela época. 
Por fim... 
Devemos entender que um indivíduo com pouca ou nenhuma escolarização não pode 
apresentar o mesmo desempenho linguístico de um indivíduo com o ensino superior. Um 
indivíduo altamente escolarizado passou por anos de escolarização e pôde ter acesso à norma 
padrão, diferentemente do primeiro indivíduo. 
Devemos entender que não podemos estabelecer julgamentos de valor, pois as diferenças 
linguísticas existem. Assim, não há variante boa ou má, dialeto superior ou inferior, língua rica 
ou pobre. 
AULA 8 \u2013 O FUNCIONALISMO: PRESSUPOSTOS TEÓRICOS BÁSICOS 
Vamos iniciar a nossa aula com um desafio. Analise os dois enunciados abaixo: 
\uf02d \u201cVocê é bonita.\u201d 
\uf02d \u201cBonita é você.\u201d 
Você acha que podemos usar o enunciado (1) e o enunciado (2) em qualquer contexto ou que 
há contextos que vão favorecer a utilização de (1) e não de (2)? 
O desafio é criar dois contextos distintos: um em que, certamente, usaríamos o enunciado (1) 
e outro em que usaríamos o (2). Vamos ao trabalho? 
Cena 1: 
\uf02d \u201cMinha nossa! Não sei com qual roupa irei ao encontro de hoje com o João. Além disso, 
meu cabelo está horrível!\u201d 
\uf02d \u201cVocê é bonita. Não se preocupe! Você ficará bem com qualquer roupa.\u201d 
Cena 2: 
\uf02d \u201cMenina! Sua pele é ótima! Seu cabelo é incrível! Adorei o seu visual! Você é bonita!\u201d 
\uf02d \u201cQue nada! Bonita é você.\u201d 
Você, provavelmente, criou contextos muito próximos dos apresentados aqui. Intuitivamente, 
perceberam uma diferença nas sentenças, já que não tiveram dificuldades de pressupor em 
qual situação comunicativa o enunciado (1) seria utilizado e não o (2), ou vice-versa. 
A tarefa nos leva a pensar se devemos tratar esses enunciados como sentenças diferentes ou 
como versões alternativas para dizer a mesma sentença. Vamos refletir sobre isso com base 
no Funcionalismo? 
Um breve histórico do Funcionalismo: o funcionalismo europeu e o surgimento do 
funcionalismo americano. 
O Funcionalismo surge como um movimento da corrente estruturalista. Muitos autores 
(CUNHA, 2009; CUNHA, OLIVEIRA & MARTELOTTA, 2003) atribuem aos linguistas do Círculo 
Linguístico de Praga, fundado em 1926, as primeiras análises de cunho funcionalista, pois, 
para eles, a língua é um \u201csistema funcional\u201d e, por isso, deve ser usada para um determinado 
fim. As ideias dos funcionalistas de Praga foram fundamentais para os trabalhos de orientação 
funcionalista que surgiram posteriormente. 
Os linguistas de Praga focalizavam as funções associadas à organização interna do sistema 
linguístico como na fonologia. Os modelos funcionalistas mais recentes ocupam-se em 
investigar \u201cas funções que a linguagem pode desempenhar nas situações comunicativas, 
dando maior ou menor peso aos aspectos cognitivos relacionados à comunicação.\u201d (CUNHA, 
2009, p.159) 
Na década de 70, na Costa Oeste dos Estados Unidos, como uma reação à linguística 
formalista, realizada pelos estruturalistas e pelos gerativistas, surge o Funcionalismo norte-
americano: 
\u201cÉ por volta de 1975 que as análises linguísticas explicitamente classificadas como 
funcionalistas começam a proliferar na literatura norte-americana. Essa corrente surge como 
reação às impropriedades constatadas nos estudos de cunho estritamente formal, ou seja, nas 
pesquisas estruturalistas e gerativistas. Os funcionalistas norte-americanos advogam que uma 
dada estrutura da língua não pode ser proveitosamente estudada, descrita ou explicada sem 
referência à sua função comunicativa (...)\u201d (Cunha, 2009, p. 163) 
Tendo como foco uma liguística baseada no uso, os linguistas Sandra Thompson, Paul Hopper 
e Talmy Givón se destacaram como funcionalistas. Em seus trabalhos, é possível perceber a 
tendência em considerar o contexto linguístico e a situação extralinguística nas análises. 
No Brasil, estudos de base funcionalista começam a se destacar na década de 80, a partir dos 
trabalhos de pesquisadores preocupados em investigar os fatores comunicativos e cognitivos 
para entender o funcionamento da língua falada e escrita. 
Os Conceitos de Língua e de Linguagem Segundo a Proposta Funcionalista 
Tendo como base o Funcionalismo, vale refletir sobre o modo como a língua e a linguagem 
são concebidas. Deixa-se de lado a ideia de que a linguagem é a forma de expressão do 
pensamento, já que os funcionalistas a concebem como instrumento de interação social. 
Segundo eles, é preciso investigar a motivação para os fatos da língua, ou seja, explicar as 
regularidades observadas no uso interativo da língua, um vez que ela é concebida como uma 
estrutura maleável, adaptativa. 
Assim, estuda-se a língua em situação real de comunicação, verificando o modo como os 
usuários da língua se comunicam eficientemente. Esses usuários são vistos como os 
responsáveis pelo estado e forma da língua. 
Para os funcionalistas, em um contexto comunicativo real, não há dois modos distintos de 
dizer exatamente a mesma coisa. Por isso, deve-se ter como ponto de partida, em um estudo 
linguístico, a função. 
No desafio proposto no início da aula, reconhecemos a importância do contexto de uso. Se 
observássemos apenas o caráter sintático, não conseguiríamos entender por que um indivíduo 
utilizaria \u201cVocê é bonita\u201d ou \u201cBonita é você\u201d. Percebemos que o segundo enunciado só poderia 
ter sido produzido em um contexto de \u201créplica\u201d. Por isso, segundo o Funcionalismo, não 
podemos ignorar o contexto, pois, no caso apresentado, a organização sintática do enunciado 
é motivada pelo contexto discursivo em que ela ocorre. 
Nesse sentido, segundo a visão funcionalista, \u201ca gramática de uma língua natural nunca é 
estática e acabada (...). A gramática é entendida como o sistema formado pelas regularidades 
decorrentes das pressões do uso. Essas pressões estão relacionadas a um complexo de 
interesses e necessidades discursivas/pragmáticas fundamentais que podem compreender os 
propósitos comunicativos do falante de ser expressivo e informativo ou o fenômeno da 
existência de lacunas nos paradigmas gramaticais ou no universo de conceitos abstratos.\u201d 
(MARTELOTTA et al., 1996, p. 11) 
O Papel dos Marcadores Discursivos 
\uf02d \u201cAmigos, como vão? Sabe, estou muito preocupado com uma coisa!\u201d 
\uf02d \u201cUai, o que está acontecendo? É difícil, né, quando ficamos preocupados assim...\u201d 
\uf02d \u201cÉ sim, mas sabe o que é? Não sei se troco meu carro ou guardo o dinheiro para uma 
viagem...\u201d 
\uf02d \u201cPois é, dúvida cruel, né!\u201d 
\uf02d \u201cÉ sim, mas vou pensar direitinho!\u201d 
Vocês já devem ter percebido que as pessoas, em contextos de fala espontânea usam uma 
série de elementos, tais como \u201cné?\u201d, \u201csabe?\u201d, \u201centende?\u201d, \u201ctipo assim\u201d. Pois é, a visão 
tradicional costuma rotular esses elementos como \u201cvícios de linguagem\u201d. 
No entanto, o Funcionalismo já que busca, no contexto discursivo, a motivação para os fatos 
da língua, mostra-nos que esses elementos, chamados \u201cmarcadores discursivos\u201d, são usados 
para \u201creorganizar a linearidade das informações no nível do discurso, quando essa linearidade 
é momentaneamente perdida por diversos motivos como insegurança ou falhas de memória, 
e, apenas subsidiariamente, para organizar as relações textuais. Sua função em nível do 
discurso se motiva na medida em que a natureza fluida da fala impede uma perfeita 
linearidade das informações\u201d. (MARTELOTTA et al., 1996, p. 61) 
Ex.: Entrevistador: Rosilda, agora conta pra mim uma história que tenha::/ que alguém tenha 
contado pra você... que você tenha achado interessante... 
Informante: bom... a colega minha... Neide... falou pra:: Lenira... que descobriu que eu 
estava