Linguística II - Conteúdo Online
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saindo com o namorado dela... né? mas... isso é mentira... porque eu não saí com o 
namorado de ninguém... entendeu? mas eu nunca... nunca me atrevi a sair com o namorado 
de ninguém... com::/ ou paquerar namorado... de colega minha não... eu acho (covardia)... 
quer sair com o cara ou com o namorado... a gente mesmo tem que arranjar... né? concorda 
comigo? ((riso)) eu acho isso... mas... olha... elas deixaram de falar comigo... por causa dessa 
bobeira... né? ontem mesmo a professora perguntou por que o motivo da... fofoca... que a 
garota falou pra mim que ela tinha falado... aí eu falei pra ela que... eu nunca tinha saído com 
o namorado dela não... e se ela deixava de falar comigo... problema dela/ (Narrativa 
recontada, página 289, Corpus do Grupo Discurso & Gramática supletivo) 
Em um contexto de fala espontânea, o discurso é planejado no momento da interação, 
diferentemente do que ocorre em contextos de língua escrita, em que temos tempo para 
organizar as informações. Daí a dificuldade que temos em manter a linearidade. Segundo 
Martelotta et al. (1996, p. 62), \u201ca fala, portanto, é marcada por constantes pós-reflexões, 
reavaliações e adendos, ou seja, por uma frequente reorganização. Os marcadores são usados 
para viabilizar o processamento das informações na fala, no sentido de marcar para o ouvinte 
essas reformulações e de ajudar o falante a ganhar tempo para reorganizar suas ideias\u201d. 
AULA 9 \u2013 PRINCÍPIOS DO FUNCIONALISMO NORTE-AMERICANO: 
ICONICIDADE E GRAMATICALIZAÇÃO 
Vamos começar nosso conteúdo refletindo sobre o modo como expressamos linguisticamente 
as ações que fazemos. Por exemplo, no nosso dia a dia, pela manhã, acordamos, escovamos 
os dentes, tomamos café. Ao dizer a alguém o que fazemos pela manhã, iremos produzir a 
sequência de orações: \u201cAcordei, escovei os dentes e tomei café\u201d. Será que alguém diria assim 
\u201cEscovei os dentes, acordei e tomei café\u201d? É claro que não, não é mesmo? Por que será que 
isso acontece? 
A expressão linguística1 reflete a nossa realidade. Segundo a proposta funcionalista, a 
estrutura gramatical que produzimos é motivada pela situação comunicativa. Assim, há uma 
correlação natural entre forma e função, ou seja, entre código linguístico (expressão) e seu 
conteúdo (cf. CUNHA et al., 2003). 
Essa correlação natural entre forma e função é chamada de iconicidade. Vamos conhecer mais 
sobre esse princípio do Funcionalismo norte-americano? 
1 \u201cOs linguistas funcionais defendem a ideia de que a estrutura da língua reflete, de algum 
modo, a estrutura da experiência. Como a linguagem é uma faculdade humana, a suposição 
geral é que a estrutura linguística revela as propriedades da conceitualização humana do 
mundo ou as propriedades da mente humana.\u201d (CUNHA, Maria Angélica Furtado da; 
OLIVEIRA, Mariangela Rios de e MARTELOTTA, Mário Eduardo (orgs.). Linguística funcional: 
teoria e prática. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p.30.) 
O Princípio de Iconicidade 
Os funcionalistas definem iconicidade como a correlação natural entre forma e função, ou 
seja, entre a expressão (código linguístico) e seu conteúdo. Dwight Bolinger, um dos 
precursores do Funcionalismo norte-americano, propôs a versão original do princípio de 
iconicidade, segundo a qual há uma única forma linguística para expressar uma ideia. 
Essa versão inicial do princípio foi reformulada devido aos estudos sobre os processos de 
variação e mudança linguísticas que apontam a existência de uma forma desempenhando 
várias funções1 ou de uma função sendo desempenhada por várias formas2. (cf. CUNHA, 
OLIVEIRA & MARTELOTTA, 2003). 
1 QUADRO (1): uma forma com várias funções. 
O sufixo \u2013inho: 
\uf02d Indica tamanho diminuto; 
Ex.: O menino perdeu seu carrinho azul. 
\uf02d Marca afetividade; 
Ex.: Minha mãezinha querida! 
\uf02d Expressa valor pejorativo; 
Ex.: Aquela coisinha já chegou? 
\uf02d Estabelece valor de superlativo. 
Ex.: Ele fez a prova devagarzinho. 
2 QUADRO (2): uma função com várias formas. 
Recursos para codificar a impessoalização do agente da ação verbal: 
\uf02d Verbo na terceira pessoa do plural; 
Ex.: Fizeram um bolo para o lanche. 
\uf02d Partícula se apassivadora; 
Ex.: Fez-se um bolo para o lanche. 
\uf02d Voz passiva; 
Ex.: Um bolo foi feito para o lanche. 
\uf02d Pronome indefinido; 
Ex.: Alguém fez um bolo para o lanche. 
\uf02d Pronome de terceira pessoa do plural sem referente explícito. 
Ex.: Eles fizeram um bolo para o lanche. 
Por que isso acontece? Sabemos que as línguas do mundo são dinâmicas. Com o uso, 
algumas formas linguísticas passam a exercer outras funções. Por isso, percebemos a falta de 
motivação entre forma e significado, já que \u201co significado original do elemento linguístico se 
perdeu total ou parcialmente, assim como a motivação para sua criação.\u201d (CUNHA, 2009, 
p.167). Conclui-se, portanto, que \u201ca iconicidade do código linguístico está sujeita a pressões 
diacrônicas corrosivas tanto na forma quanto na função\u201d. (CUNHA, 2009, p. 167.) 
Conheça dois exemplos que ilustram o fato de que, com a diacronia, a relação entre forma e 
significado passa a ser aparentemente arbitrária (cf. CUNHA, 2009). 
Exemplo (1): conjunção adversativa entretanto. 
A conjunção entretanto, que, atualmente, tem valor adversativo (\u201cJoão trabalhou muito no 
final de semana, entretanto foi demitido.\u201d), apresentava-se, em textos do português arcaico, 
como um advérbio temporal, significando \u201cenquanto isso\u201d, \u201cao mesmo tempo\u201d, \u201centre tantos 
acontecimentos\u201d. 
Exemplo (2): conjunção concessiva embora. 
A conjunção embora, que, atualmente, é utilizada com valor concessivo (\u201cEmbora João tenha 
trabalhado muito no final de semana, foi demitido.\u201d), também apresentava valor temporal na 
era medieval, significando \u201cem boa hora\u201d. Observa-se que, ao longo do tempo, a expressão 
\u201cem boa hora\u201d passa a ter a sua forma diminuída. 
Com a reformulação da versão inicial do princípio de iconicidade, os funcionalistas propuseram 
três subprincípios que se relacionam à quantidade de informação, ao grau de integração entre 
os constituintes da expressão e do conteúdo e à ordenação sequencial dos segmentos. 
\uf0b7 Subprincípio da quantidade: quanto maior for a quantidade de informação, maior a 
quantidade de forma. 
Ex.: palavras derivadas, por veicularem mais informações semânticas e/ou gramaticais, 
tendem a ser maiores que as palavras primitivas de que se originaram: 
belo>beleza>embelezar>embelezamento (cf. CUNHA, OLIVEIRA & MARTELOTTA, 2003). 
\uf0b7 Subprincípio da integração: o conteúdo que está mais próximo mentalmente coloca-se 
próximo sintaticamente. 
Ex.: A menina não queria ficar ali. (não é nítida a distinção de eventos diferentes; o sujeito de 
querer é o mesmo de ficar. Comparando com \u201cAna ordenou: fique aqui.\u201d, percebem-se dois 
eventos separados.) 
\uf0b7 Subprincípio da ordenação linear: refere-se à ordenação dos elementos na sentença. 
Segundo esse princípio, a ordenação dos elementos na oração tende a espelhar a 
sequência temporal em que os eventos descritos ocorreram. 
Ex.: \u201cVim, vi, venci.\u201d (tradução de uma frase famosa proferida pelo imperador romano Júlio 
César - a distribuição das palavras na oração corresponde à ordem em que os eventos 
aconteceram.) 
O Processo de Gramaticalização 
Para os funcionalistas, o processo de gramaticalização é um processo de regularização do uso 
da língua. Isso vai ao encontro do modo como eles concebem a gramática. Por ser algo 
maleável, ela está sempre se adaptando às necessidades cognitivas e comunicativas dos 
falantes. Desse modo, itens que fazem parte do léxico e construções sintáticas passam a ser 
utilizados com novas funções gramaticais: 
O processo de gramaticalização1 ocorre devido às necessidades de comunicação não 
satisfeitas pelas formas existentes