Linguística II - Conteúdo Online
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no sistema linguístico e à existência de conteúdos 
cognitivos para os quais não existem designações linguísticas adequadas. (HEINE et al., 1991, 
pp. 19-30) 
1 Definição sobre gramaticalização (cf. CUNHA, 2009, p.173) 
\u201cGramaticalização designa um processo unidirecional, segundo o qual itens lexicais e 
construções sintáticas, em determinados contextos, passam a assumir funções gramaticais e, 
uma vez gramaticalizados, continuam a desenvolver novas funções gramaticais.\u201d 
De um modo geral, pode-se perceber um desgaste fonético da forma, que perde 
expressividade. Ao analisar alguns processos de gramaticalização, é possível identificar que a 
forma deixa de fazer referência a algo do mundo real para assumir funções de caráter 
gramatical. Vejamos os exemplos. 
A. A trajetória de substantivos e verbos para conjunções \u2013 o verbo \u201cquerer\u201d passa a ser 
utilizado como conjunção alternativa como em \u201cQuer chova quer faça sol, estarei lá.\u201d 
(cf. CUNHA, 2009) 
B. A trajetória de nomes e verbos para morfemas \u2013 na expressão \u201ctranquila mente\u201d, o 
substantivo \u201cmente\u201d (= \u201cintelecto\u201d) passa a designar sufixo formador de advérbio: 
\u201ctranquilamente\u201d, \u201clamentavelmente\u201d etc. 
Importante! 
Vale lembrar que, além do princípio de iconicidade e do processo de gramaticalização, há 
outros princípios e categorias centrais do Funcionalismo norte-americano, dentre eles 
informatividade, marcação, transitividade e plano discursivo. 
Um Pouco de Curiosidade... 
Conheça como as metáforas são analisadas segundo a visão funcionalista. 
Como nomeamos essa parte da mesa? (BASE DE UMA MESA) 
Seria pé da mesa? 
Isso mesmo! Chamamos essa parte da mesa de \u201cpé da mesa\u201d. Sabemos que se trata de uma 
construção metafórica. Por analogia ao nosso próprio corpo, nomeamos essa parte da mesa 
também de pé. 
Segundo os funcionalistas, com o objetivo de contemplar novos contextos pragmáticos e 
semânticos, os indivíduos utilizam itens lexicais e construções já existentes na língua para 
expressarem novas ideias. Desse modo, por um processo de transferência semântica, uma 
mesma forma passa a exercer novas funções comunicativas. Segundo Votre (apud 
MARTELOTTA et al., 1996), \u201cum dos recursos mais comuns de deslizamento de sentido e de 
indiretividade é a metáfora\u201d. 
Ilustraremos com o trabalho do autor sobre a base corporal das metáforas. Para ele, o corpo 
serve como a base para a construção de metáforas comuns na nossa vida diária. Desse modo, 
as metáforas são construídas a partir do nosso corpo, que é visto como base para todas as 
nossas atividades e nossos objetos, ou seja, para nossa vida mental e intelectual. Partindo do 
corpo humano, temos a concepção de objetos com os quais lidamos. Vejamos alguns 
exemplos citados pelo autor: 
I. Apoiou o pé da cadeira numa pedra. 
II. Está com uma cabeça de prego no joelho. 
III. Apoiou as costas do sofá na perna da mesa. 
IV. Quebrou o bico da prancha contra um coral. 
AULA 10 \u2013 LÍNGUA: VISÃO FORMALISTA E VISÃO FUNCIONALISTA 
A Linguística Moderna 
Quando pensamos na Linguística moderna, dois grandes nomes vêm à nossa mente: 
Ferdinand de Saussure e Noam Chomski, cujas ideias marcaram os estudos linguísticos do 
século XX. 
A publicação do Curso de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussure, é considerada um 
marco para a Linguística moderna. A partir da obra póstuma do linguista suíço, foi possível 
que os estudiosos da linguagem utilizassem uma metodologia adequada, ao descrever e 
analisar os elementos formais de uma língua. 
A visão de língua como um sistema autônomo serve como base para os estudos estruturalistas 
que caracterizam os trabalhos da Linguística nessa época. Desse modo, entendia-se a língua 
como um sistema, ou seja, um conjunto de elementos organizados, constituindo um todo. A 
partir disso, cabia aos linguistas analisar sua estrutura, ou seja, a organização estrutural da 
língua. 
Pode-se dizer que os estruturalistas tomam como foco a \u201clíngua\u201d, deixando de lado a \u201cfala\u201d. A 
partir daí surgem muitos estudos preocupados em investigar aspectos fonéticos, fonológicos e 
sintáticos da língua, esquecendo as questões semânticas e pragmáticas1. 
1 Os aspectos semânticos estão relacionados ao significado dos elementos linguísticos. Já os 
aspectos pragmáticos relacionam-se às diferentes situações comunicativas nas quais o falante 
se encontra. 
Nas palavras de Ilari (2009, p. 58), para os estruturalistas o sistema deve ser o objeto de 
estudo das pesquisas linguísticas \u201ce não as mensagens a que ele serve de suporte.\u201d 
Apesar da grande projeção do estruturalismo do século XX, não podemos nos esquecer que 
houve críticas a essa corrente, em especial a algumas dicotomias saussurianas. Dentre essas 
críticas, destacamos a que o linguista Eugênio Coseriu fez à dicotomia língua x fala, propondo 
a tripartição sistema x norma x fala, contemplando, desse modo, a variação linguística. 
No final da década de 1950, a Linguística moderna passou por outra grande transformação. 
As ideias de Noam Chomsky, com o Gerativismo, foram importantes para mudar a postura 
behaviorista sobre a aquisição da linguagem que ainda estava em vigor. A essência do 
pensamento de Chomsky consiste na ideia de que os comportamentos linguísticos são 
parcialmente determinados pela mente/cérebro, ou seja, temos uma capacidade inata para 
desenvolver uma língua. 
Desse modo, busca-se investigar os \u201cuniversais linguísticos\u201d. Apesar da aparente diferença 
entre as línguas do mundo, há princípios gerais para a capacidade de linguagem, que devem 
ser o objeto de estudo da Linguística. 
Como há uma série de refinamentos teóricos, o Gerativismo é tratado como um programa de 
investigação, como um verdadeiro empreendimento nos estudos linguísticos. Em sua 
metodologia de estudos, Chomsky recorreu à lógica, entendendo \u201cas gramáticas como 
sistemas formais especialmente construídos para gerar todas e apenas as sentenças bem 
formadas de uma língua e nenhuma outra\u201d. (ILARI, 2009, p. 85). 
Ao compararmos Saussure e Chomsky, podemos chegar a algumas diferenças, as quais 
destacamos a seguir. 
Sobre o objeto de estudos da Linguística: para Saussure, a \u201clíngua\u201d deve ser o objeto de 
estudos da Linguística. Chomsky afirma que a Linguística deve se ocupar com a investigação 
da \u201ccompetência\u201d, ou seja, da capacidade que os falantes têm de produzir os enunciados 
linguísticos. 
Sobre a metodologia: como o interesse está na capacidade que o falante tem de produzir, 
brilhantemente, enunciados linguísticos, para Chomsky vale investigar não só o que o falante, 
de fato, produz, mas aquilo que potencialmente pode ser produzido por ele, o que supõe a 
existência de algo anterior à língua, foco da linguística estrutural. 
Sobre os objetivos: Com Chomsky, a Linguística passa a ser menos descritiva e mais teórica. 
Como afirma Borges (2009, p. 100), \u201cnão se trata mais, como no estruturalismo, de descrever 
os dados que se revelam à percepção dos linguistas, mas trata-se de encontrar princípios 
gerais a partir dos quais as descrições dos dados observáveis possam ser logicamente 
derivadas. Com Chomsky, assume-se na linguística a prioridade do teórico sobre o empírico.\u201d 
De todo modo, apesar das diferenças entre o Estruturalismo e o Gerativismo, podemos dizer 
que essas duas teorias se enquadram, segundo o pensamento linguístico, na corrente 
formalista, que se opõe à corrente funcionalista. 
Formalismo x Funcionalismo. 
Podemos dizer que há duas grandes correntes do pensamento linguístico: o formalismo e o 
funcionalismo. Diferentemente dos funcionalistas, os formalistas acreditam que a análise da 
forma linguística é mais importante do que a função que esse elemento desempenha. 
Segundo Neves (1997, p. 40), o polo formalista