Linguística II - Conteúdo Online
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capacidade inata, está inscrita no DNA do ser humano. 
Por isso, na situação apresentada no início da aula, o macaco, ainda que seja criado apenas 
entre humanos, jamais desenvolverá a linguagem, que nele não é inata. Pelo fato de ser uma 
capacidade humana inata, ou seja, de fazer parte da constituição cerebral de todos os seres 
humanos sem patologias, as línguas devem apresentar características universais. 
Além do caráter universal da linguagem humana, Chomsky destaca um aspecto muito 
importante na linguagem humana: a criatividade. Todos os indivíduos, independentemente do 
seu nível de escolaridade, apresentam uma capacidade de criar infinitamente frases novas, 
das mais simples às mais complexas. A criatividade da linguagem humana é um fator que nos 
distingue dos animais e não poderia ser explicada tendo como base as ideias behavioristas. 
Como o Cérebro é Visto no Gerativismo? 
Para entender a proposta gerativista, é preciso conhecer o modo como Chomsky e seus 
seguidores compreendem a mente/cérebro do homem. 
Segundo Martins (2006), os gerativistas adotam uma visão modularista, mente/cérebro são 
entendidos como um sistema complexo, com uma estrutura altamente diferenciada e com 
\u201efaculdades\u201f separadas, como, por exemplo, a faculdade da linguagem e a faculdade dos 
conceitos. 
Segundo Chomsky, da mesma maneira como sistemas complexos ou \u201eórgãos do corpo\u201f \u2013 como 
o córtex visual e o sistema circulatório \u2013 têm suas propriedades exclusivas e são estudados 
separadamente, com suas teorias próprias, também os diferentes sistemas cognitivos ou 
\u201efaculdades\u201f da mente \u2013 como a faculdade da visão e a faculdade da linguagem \u2013 devem ser 
estudados separadamente. (cf. Chomsky, N. (1986) Knowledge of language: its nature, origin 
and use. New York: Praeger.) 
Gramática Universal (GU): Princípios e Parâmetros. 
O modelo gerativista, proposto por Noam Chomsky, considera que os seres humanos nascem 
dotados de uma faculdade da linguagem que é um componente da mente/cérebro 
especificamente dedicado à língua e marca a diferença fundamental entre os homens e os 
outros seres do planeta. O que fornece ao homem essa capacidade inata para falar é a 
faculdade da linguagem, geneticamente transmitida, biologicamente determinada e, portanto, 
inerente a toda espécie humana. 
Desse modo, não importa que uma criança seja falante de inglês, espanhol, russo ou 
português: todas possuem a mesma faculdade da linguagem, já que todo ser humano está 
predisposto a adquirir sua língua natural1, a menos que possua algum problema patológico. 
1 Língua natural, língua materna ou língua nativa são expressões utilizadas para se referir à 
língua que o ser humano adquire a partir do ambiente linguístico que o cerca. 
Chomsky considera que a mente humana é composta por sistemas cognitivos, organizados em 
módulos. Assim, a faculdade da linguagem estaria em um desses módulos. Seguindo a tese da 
modularidade da mente, tem-se a hipótese do inatismo, segundo a qual há uma estrutura 
mental inata ou estado inicial que possibilita aos seres humanos adquirirem sua língua natural. 
Essa estrutura mental inata é chamada na teoria gerativista de Gramática Universal (GU). 
A GU é o estado inicial da faculdade da linguagem. Há, na GU, princípios e parâmetros. Os 
princípios são comuns a todas as línguas, apresentam caráter universal e são responsáveis por 
explicar a organização das línguas naturais. Já os parâmetros são específicos de uma língua e 
reconhecidos a partir dos dados linguísticos do ambiente do indivíduo em fase de aquisição de 
linguagem. Apresentam-se de modo binário, ou seja, com o valor positivo (+) ou negativo (-). 
O valor (+) indica que aquele parâmetro está presente na língua; já o valor negativo (-) 
sinaliza a ausência daquela característica. 
Entendendo os Princípios e Parâmetros. 
Tendo como foco a descrição da GU, os gerativistas propõem uma teoria chamada de 
Princípios e Parâmetros1. 
Apresentamos, abaixo, um exemplo de um princípio e de um parâmetro: 
\uf0b7 Princípio: \u201cTodas as sentenças, independentemente da língua, têm a função sintática 
sujeito.\u201d 
\uf0b7 Parâmetro do sujeito nulo: \u201cUma língua admite ou não sujeito nulo nas sentenças 
finitas.\u201d 
1 Kenedy (2009, p. 135) nos lembra que \u201cessa teoria possui pelo menos duas fases: a fase da 
teoria da regência e da ligação (TRL), que perdurou por toda a década de 1980, e o programa 
minimalista (PM), em desenvolvimento desde o início da década de 1990 até o presente\u201d. 
Tendo como base o português e o inglês, vamos perceber que, em inglês, esse sujeito tem 
que ser produzido, o mesmo não acontecendo em português. 
Observe os exemplos: 
1) Português: Ø Chove. 
2) Inglês: It rains. 
3) Português: Eu vi o menino ontem. 
4) Português: Ø Vi o menino ontem. 
5) Inglês: I saw the boy yesterday. 
6) Inglês: * Ø Saw the boy yesterday. 
Nós, como falantes nativos do português, sabemos, perfeitamente, que podemos produzir 
enunciados como os apresentados em (1), (3) e (4). Isso acontece porque, na nossa língua, o 
sujeito pode ou não ser nulo nas sentenças finitas. O falante tem a opção de escolher. O 
símbolo (Ø) significa a existência de uma categoria vazia, ou seja, a posição não está ocupada 
por um elemento morfologicamente realizado, mas existe e não pode ser preenchida por 
nenhum outro elemento. 
1) Português: Ø Chove. 
3) Português: Eu vi o menino ontem. 
4) Português: Ø Vi o menino ontem. 
Por outro lado, o indivíduo que for exposto ao inglês sabe que, em todas as sentenças, o 
sujeito deve sempre ser produzido. Até mesmo com verbos como \u201cchover\u201d, a partícula 
expletiva \u201cit\u201d deve estar presente para \u201cocupar\u201d a posição. O asterisco (*), no exemplo (6), 
indica que a sentença é agramatical, ou seja, não faz parte da língua. Quando estudamos 
inglês, como segunda língua, precisamos ficar atentos ao preenchimento da posição do 
sujeito. 
6) Inglês: * Ø Saw the boy yesterday. 
Portanto, pode-se dizer que o \u201cparâmetro do sujeito nulo\u201d é positivo (+) em português, já que 
é possível ter o sujeito realizado ou não, e negativo (-) para o inglês, pois não é possível a 
ocorrência de sentenças sem o sujeito realizado morfologicamente. Lembre-se: tudo acontece 
intuitivamente, ou seja, o falante do inglês, por exemplo, naturalmente, percebe que há \u201calgo 
errado\u201d quando ouve uma sentença como a apresentada em (6). 
Relembrando 
Vimos que nascemos com um sistema único de princípios inatos, enraizado na nossa 
mente/cérebro, dedicado exclusivamente à linguagem: a GU. A GU é o estado inicial da 
faculdade da linguagem e é constituída de princípios universais e parâmetros específicos 
de cada língua. Sendo assim, podemos dizer que todas as línguas humanas possuem 
propriedades comuns já que todos nós nascemos com o mesmo aparato genético. Então, por 
que falamos línguas diferentes? 
Gramática Universal e Gramática Particular 
No processo de aquisição de uma língua, o indivíduo vai, gradativamente, fixando os valores 
dos parâmetros a partir do contato com os dados linguísticos da sua língua nativa. À medida 
que os valores desses parâmetros são fixados pelo indivíduo durante a aquisição, uma 
gramática é construída, ou seja, a gramática1 particular de sua língua. 
1 O termo \u201cgramática\u201d é polissêmico, ou seja, apresenta várias acepções. Quando usamos o 
termo \u201cgramática\u201d, aqui, estamos nos referindo aos conhecimentos que um falante tem de 
sua língua materna, aos mecanismos de funcionamento de uma língua. Não estamos nos 
referindo à gramática normativa ou à gramática tradicional. 
AULA 3 \u2013 AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM 
Quem tem filhos ou convive com crianças sabe que, \u201cnum piscar de olhos\u201d, as crianças já 
começam a falar. Sabemos que há etapas a serem seguidas,