Linguística II - Conteúdo Online
35 pág.

Linguística II - Conteúdo Online


DisciplinaLinguistica II689 materiais9.506 seguidores
Pré-visualização13 páginas
do genro, por exemplo, e 
palavras que apresentem semelhança fônica com o nome do genro). 
\uf0b7 \u201cUmánzi\u201d (nome do genro) E \u201cmánzi\u201d (\u201cágua\u201d). 
\uf0b7 \u201cEsta é a minha mulher\u201d; \u201cEste é o meu homem\u201d 
Em português, embora o marido possa dizer \u201cEsta é a minha mulher\u201d, não é possível que a 
mulher produza \u201cEste é o meu homem\u201d, pois em determinados contextos, esse enunciado soa 
vulgar. (VOTRE; CEZARIO, 2009, p. 149). 
O objeto de estudo da pesquisa sociolinguística é a língua falada em situações reais de 
comunicação. Busca-se, a partir da análise da fala espontânea, descrever e explicar o modo 
como o falante faz uso da língua. 
Fenômenos Linguísticos em Variação no Português Brasileiro 
Agora que já sabemos que, no que se refere à língua, não há usos melhores ou piores, feios 
ou bonitos, vamos conhecer alguns fenômenos linguísticos em variação no Português do 
Brasil? 
Observe o diálogo abaixo: 
\uf02d \u201cVocê viu a Cráudia?\u201d 
\uf02d \u201cEu vi ela na lojinha da esquina, consertano uma rôpa.\u201d 
\uf02d \u201cSerá que ela vai trazê os livro novo que pedi?\u201d 
\uf02d \u201cNão sei. É melhor esperar ela.\u201d 
A análise do diálogo apresentado nos permite verificar os seguintes fenômenos linguísticos em 
variação no português brasileiro: 
a) Eliminação das marcas de plural redundantes (os livros novos/os livro novo) 
b) Assimilação: transformação do \u2013ndo em \u2013no (consertando > consertano). 
c) Retomada do objeto direto anafórico (Você viu a Cláudia? Sim, eu a vi. Sim, eu vi ela. 
Sim, eu vi Ø.). 
d) Redução do ditongo OU (roupa > rôpa). 
e) Rotacismo: troca do \u201cl\u201d pelo \u201cr\u201d (Cráudia, Framengo, pranta). 
AULA 7 \u2013 A NOÇÃO DE ERRO PARA A SOCIOLINGUÍSTICA 
A Relação entre Língua e Sociedade 
\u201cOs m/ê/ninUs foram buscá a r/ô/pa correndo.\u201d 
\u201cOs m/é/ninUs foram buscá a r/ô/pa correndo.\u201d 
\u201cOs m/i/ninU foi buscá a r/ô/pa correNO.\u201d 
 \u201cOs m/é/ninUs foram buscá a r/ô/pa correndo.\u201d 
Vamos começar a nossa aula com um teste. Analise como cada uma delas produziu a 
sentença \u201cOs meninos foram buscar a roupa correndo.\u201d. Após analisar o modo como a 
sentença foi produzida por cada uma das personagens, assinale a forma correta. 
O que podemos concluir da atividade proposta? Há uma forma \u201ccorreta\u201d de se produzir a 
sentença oralmente? O que fez você julgar que uma forma era \u201cmelhor\u201d que outra? Quem são 
os indivíduos que produziriam a sentença como o personagem 2? Como o personagem 3? 
Para responder a essas perguntas, vamos discutir alguns assuntos importantes nesta aula. 
Voltando à atividade proposta no início da aula, todos nós conseguimos entender o que as 
personagens queriam dizer. Reconhecemos que, apesar de a sentença ter sido escrita de uma 
forma \u2013 segundo os padrões normativos \u2013 tivemos diferentes modos de produção oral. 
 Analisando as produções orais da sentença \u201cOs meninos foram buscar a roupa correndo.\u201d, 
somos capazes de perceber algumas semelhanças e diferenças. Vimos, por exemplo, que 
todas as personagens: 
A) produziram os elementos linguísticos na mesma ordem (sujeito + verbo); 
B) utilizaram os fonemas da Língua Portuguesa; 
C) usaram os mesmos itens lexicais (menino, roupa). 
A análise do modo como a sentença foi produzida nos possibilita perceber que há aspectos em 
comum (a supressão do \u2013r do infinitivo - \u201cbuscá\u201d) e aspectos distintos (variação na pronúncia 
da palavra \u201cmenino\u201d; concordância verbal \u2013 \u201cos meninos foram\u201d/ \u201cos menino foi\u201d) na 
produção oral das personagens. 
Sabemos que a comunicação é fundamental para a vida em uma sociedade. Por isso 
precisamos compartilhar o mesmo código, ou seja, a mesma língua. Vimos que a língua 
apresenta variações que podem ocorrer em função do grupo, da região geográfica, do 
contexto. 
Desse modo, reconhecemos que há variedades de uso da língua. No entanto, analisando essas 
variedades, percebemos que há muitos elementos gramaticais e lexicais que são comuns a 
elas. Por isso, todos os indivíduos que compartilham a mesma língua conseguem se entender 
muitíssimo bem. 
A Noção de Erro para a Sociolinguística e a Questão do Preconceito Linguístico. 
Por que não há erro nos diferentes modos de produzir a sentença \u201cOs meninos foram buscar a 
roupa correndo.\u201d? 
Para a Sociolinguística, não há erro, mas sim diferenças que são passíveis de serem explicadas 
pela teoria linguística. O que acontece, geralmente, é um comportamento de intolerância 
linguística que leva à rejeição certas variedades de uso da língua. Deve-se observar que um 
item pode ser considerado \u201eerrado\u201f pelas regras de gramática normativa, mas não pelas regras 
do grupo a que o falante pertence. 
Vejamos um trecho da transcrição da entrevista oral do informante Francisco, que faz parte do 
corpus do Grupo de Estudos Discurso e Gramática. Nela, o entrevistador pergunta ao 
informante o modo de fazer a massa de pão, e ele responde: 
\u201cBota a massa na masseira... eh... tanto... não... tanto que bota... bota... duas lata na 
masseira... eh... quatr/ eh... duzentas gramas de ( ) que é uma química que tem... bota... 
eh... fermento... aí bota a masseira pra bater... no:: normal dela e depois bota ela/ aumenta 
ela... (sem ter) limite... pra ela bater... pra aprontar a massa... depois da massa ( ) passa 
na... na modeladora... depois da::/ depois passa na divisora... aí bota em cima da mesa e 
separa... os pedaços de cima da mesa... (Informante Francisco, CA supletivo. VOTRE, 
Sebastião Josué; OLIVEIRA, Mariângela Rios de (Orgs.) Corpus Discurso & Gramática. A língua 
falada e escrita na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. (mimeogr.). 
No trecho apresentado, percebemos algumas formas que vão de encontro aos usos prescritos 
pelo padrão. 
\u201cduas lata\u201d EM LUGAR DE duas latas 
\u201cduzentas gramas\u201d EM LUGAR DE duzentos gramas 
\u201cbota ela\u201d/ \u201caumenta ela\u201d EM LUGAR DE bote-a/aumente-a 
 
Deve-se levar em consideração que o papel dos gramáticos é descrever regras de 
funcionamento da língua, tendo como base a norma padrão, um modelo ideal de língua que 
deve ser ensinado e aprendido na escola e utilizado pelos falantes cultos, ou seja, aqueles 
indivíduos com alto nível de escolarização. Usos como os apresentados na transcrição, embora 
não sejam estabelecidos pela norma padrão, são comuns em outras variedades de uso da 
língua, rotuladas como \u201cimpróprias\u201d, \u201cinadequadas\u201d, \u201cerradas\u201d. 
Assim, surgem as distinções entre variedade padrão versus variedades não padrão, variantes 
de prestígio versus variantes estigmatizadas. Por razões que não são linguísticas, algumas 
variedades de uso da língua acabam adquirindo certo prestígio, enquanto outras não. 
Para ilustrar o prestígio de um determinado dialeto em detrimento de outros, assista ao trecho 
do filme Lisbela e o Prisioneiro. Observe a fala do personagem Douglas, um pernambucano 
com sotaque carioca, vivido pelo ator Bruno Garcia. No filme, Douglas, após ter passado um 
período no Rio de Janeiro, volta à terra natal com um sotaque carioca, pois ele o considera 
prestigioso. 
Por Que Existe o Preconceito Linguístico? 
De um modo geral, há, na sociedade, várias formas de preconceito: em relação ao sexo, à 
raça, à opção sexual etc. Pode-se dizer que o preconceito linguístico é apenas um desses 
tipos. O estigma que certas variedades de uso da língua adquirem não tem relação com 
fatores linguísticos, mas sim extralinguísticos, tais como desprestígio social, econômico, 
cultural, político, entre outros. Assim, julga-se o indivíduo pelo modo como utiliza a língua sem 
levar em conta outros fatores como seu nível de escolarização, a classe social à qual pertence 
etc. 
Para a Sociolinguística, o preconceito linguístico não possui embasamento científico já que, 
segundo pesquisas, cada época determina o que considera como forma padrão, ou seja, as 
línguas mudam