Linguística II - Conteúdo Online
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Ref. à função e ao processo mental do tratamento das informações (percepção, memória, raciocínio etc.)
3. Psi. Ref. aos processos da mente envolvidos na percepção, na representação, no pensamento, nas associações e lembranças, na solução de problemas etc. 
[F.: Do lat. cognitus + -ivo.] (Fonte: Dicionário on-line Caldas Aulete)
Algumas Teorias de Aquisição
Noam Chomsky, com sua hipótese inatista, assume que há um componente inato para a aquisição da linguagem e independente da cognição. Para ele, a experiência funciona apenas como um \u201cgatilho\u201d (do inglês, trigger) para acionar uma capacidade que é inata.
Para B. F. Skinner, behaviorista, todo comportamento/aprendizado linguístico ou não é resultado de um processo de reforço e privação. Segundo a proposta behaviorista, \u201ca criança vê a mamadeira (estímulo) e diz \u2018papá\u2019. Se ela conseguir que lhe deem a mamadeira, será reforçada positivamente, \u2018aprenderá\u2019 que quando quiser comida deve dizer \u2018papá\u2019\u201d. (SANTOS, Raquel. A aquisição da linguagem. In: FIORIN, J. L. (org.) Introdução à linguística, vol. 1. São Paulo: Contexto, 2002.).
O cognitivismo vincula a linguagem à cognição. Essa proposta foi desenvolvida por Jean Piaget. Segundo ele, desde o seu nascimento, a criança constrói o conhecimento a partir do contato com o meio. Pode-se perceber que a teoria atribui um grande valor à experiência, mas não chega a ter base empirista, pois, de acordo com Piaget, a criança é responsável por construir o conhecimento com base na experiência com o mundo físico, ou seja, o conhecimento está na ação sobre o ambiente.
\u201cO conhecimento linguístico de uma criança em um determinado momento reflete as estruturas cognitivas que foram desenvolvidas antes e que determinam esse conhecimento. (...) A linguagem é vista como porta para cognição.\u201d (SANTOS, Raquel. A aquisição da linguagem. In: FIORIN, J. L. (Org.) Introdução à linguística. vol. 1. São Paulo: Contexto, 2002.)
Debate Chomsky-Piaget
Em 1975, houve um debate entre Chomsky e Piaget sobre aquisição do conhecimento. 
AULA 4 \u2013 O GERATIVISMO E A DICOTOMIA COMPETÊNCIA E DESEMPENHO
Competência Versus Desempenho
Vamos começar a nossa aula com um teste. Apresente as sentenças abaixo a um grupo de indivíduos falantes nativos da língua portuguesa. Selecione indivíduos de diferentes níveis de escolaridade e até mesmo analfabetos. Você pode ler ou escrever as sentenças para o seu informante. Peça a ele para, com base na própria intuição, dizer qual(is) sentença(s) pode(m) ser entendida(s). 
1) Eu comi um bolo delicioso.
2) Quantas fatias de bolo você já comeu?
3) Que fatia você comeu quantas do já bolo?
Certamente, independentemente do nível de escolaridade do seu informante, você terá como resposta que a sentença (3) não faz sentido, não é mesmo? Por que isso acontece?
Uma das preocupações da teoria gerativa é compreender como é possível que os falantes nativos de uma língua tenham intuições sobre as construções sintáticas que ouvem e produzem.
A partir dos resultados do teste, foi possível perceber que seus informantes, intuitivamente, disseram que (1) e (2) são sentenças possíveis na língua, ou seja, gramaticais. Por outro lado, todos avaliaram a sentença (3) como anormal, estranha, não é mesmo? Logo, podemos dizer que essa sentença é agramatical, ou seja, causa-nos um estranhamento, não ouvimos ninguém falando assim. Por isso, vamos sinalizá-la com um asterisco (*), cuja função é marcar essa agramaticalidade:
1) Eu comi um bolo delicioso. (SENTENÇA GRAMATICAL)
2) Quantas fatias de bolo você já comeu? (SENTENÇA GRAMATICAL)
3) Que fatia você comeu quantas do já bolo? (SENTENÇA AGRAMATICAL)
Como conseguimos reconhecer sentenças gramaticais e agramaticais? Só conseguimos isso porque temos um conhecimento implícito da nossa língua. Todos os falantes nativos de uma língua, independentemente de terem ou não frequentado a escola, apresentam esse conhecimento, que é inconsciente e natural e não está, de modo algum, relacionado ao conhecimento das regras normativas da língua.
Ao fazer a atividade, você percebeu o quanto a intuição do falante sobre o que faz parte ou não da nossa língua é importante. Além disso, foi possível notar que os conceitos de gramaticalidade/agramaticalidade não recobrem, de modo algum, os conceitos de \u201ccerto\u201d e \u201cerrado\u201d estabelecidos pela gramática normativa.
Para os gerativistas, esse conhecimento intuitivo e internalizado que temos é chamado de competência linguística. Quando essa competência é colocada em uso, temos o desempenho linguístico do indivíduo, ou seja, o uso concreto da língua.
Objeto de Estudo da Linguística para Chomsky: A Competência Linguística
Chomsky estabelece uma distinção entre a competência linguística do falante e seu desempenho. A proposta teórica gerativa assume que à Linguística interessa o estudo da competência1.
1 Competência: é o conhecimento subjacente e internalizado que o falante tem de sua língua. Graças à competência, os falantes apresentam um conhecimento ilimitado do seu sistema linguístico. Assim, conseguem perceber se uma determinada sentença é gramatical ou agramatical, ou seja, se obedece ou não às regras de combinação do seu sistema linguístico.
E o que é o desempenho?
DESEMPENHO (ou performance): é uso que o falante faz da língua. O desempenho relaciona-se ao que Saussure denominou fala. Vale lembrar que o desempenho linguístico de um indivíduo está relacionado a diversos fatores como atenção, memória, visão de mundo etc. Por exemplo, se um indivíduo for tímido e falar pouco, isso não significa que a sua competência linguística é inferior a de outros indivíduos. A questão envolve apenas a sua atuação, mas não o seu conhecimento internalizado.
LEIA UM COMENTÁRIO IMPORTANTE SOBRE AS DICOTOMIAS \u201cLÍNGUA X FALA\u201d E \u201cCOMPETÊNCIA X DESEMPENHO\u201d
Embora o conceito de fala de Saussure e o conceito de desempenho de Chomsky sejam equivalentes, na visão do linguista estruturalista, a principal função da língua é a interação social. Para Chomsky, a língua apresenta uma função cognitiva.
Vamos observar mais alguns exemplos:
1) Vou comprar dois pão.
2) Vou comprar dois pães.
3) *Comprar dois vou pães.
Um falante nativo da Língua Portuguesa saberá que é possível produzir enunciados como (1) e (2), mas que (3) é um enunciado que não faz parte da língua e é, por isso, agramatical (*). Produzir \u201cdois pão\u201d ou \u201cdois pães\u201d é apenas uma diferença percebida no desempenho, que não se relaciona ao conhecimento linguístico que o falante tem internalizado. (1) e (2), portanto, apresentam a mesma estrutura.
A análise linguística, segundo Chomsky, deve descrever as regras que governam a estrutura da competência. Para ele, os linguistas não devem investigar o desempenho, ou seja, o comportamento do indivíduo, mas sim a competência dos falantes, já que ela é puramente linguística. Assim, Chomsky considera que a Linguística pode contribuir para a compreensão da organização da mente humana.
A Noção de Constituinte e a Representação Arbórea
Com o objetivo de descobrir o que há de universal na linguagem humana, o primeiro modelo teórico gerativista, chamado de gramática transformacional, passou por várias mudanças ao longo das décadas de 1960 e 1970. Como afirma Kenedy (2009, p.131), \u201cos objetivos dessa fase do gerativismo consistiam em descrever como os constituintes das sentenças1 eram formados e como tais constituintes transformavam-se em outros por meio da aplicação de regras\u201d.
1 Segundo Mioto et al. (2005), um constituinte é \u201cuma unidade sintática construída hierarquicamente, embora se apresente aos olhos como uma sequência de letras ou aos ouvidos como uma sequência de sons\u201d (MIOTO et al., 2005, p. 45)
Desse modo, a partir de um conjunto limitado de regras sintáticas, os indivíduos são capazes de produzir infinitas sentenças gramaticais. Assim, essas sentenças são formadas a partir da combinação dos constituintes e da aplicação de determinadas regras capazes de formar outras sentenças. Como o foco da investigação gerativista é a sintaxe,