Linguística II - Conteúdo Online
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análise do modo como a sentença foi produzida nos possibilita perceber que há aspectos em comum (a supressão do \u2013r do infinitivo - \u201cbuscá\u201d) e aspectos distintos (variação na pronúncia da palavra \u201cmenino\u201d; concordância verbal \u2013 \u201cos meninos foram\u201d/ \u201cos menino foi\u201d) na produção oral das personagens.
Sabemos que a comunicação é fundamental para a vida em uma sociedade. Por isso precisamos compartilhar o mesmo código, ou seja, a mesma língua. Vimos que a língua apresenta variações que podem ocorrer em função do grupo, da região geográfica, do contexto. 
Desse modo, reconhecemos que há variedades de uso da língua. No entanto, analisando essas variedades, percebemos que há muitos elementos gramaticais e lexicais que são comuns a elas. Por isso, todos os indivíduos que compartilham a mesma língua conseguem se entender muitíssimo bem.
A Noção de Erro para a Sociolinguística e a Questão do Preconceito Linguístico.
Por que não há erro nos diferentes modos de produzir a sentença \u201cOs meninos foram buscar a roupa correndo.\u201d?
Para a Sociolinguística, não há erro, mas sim diferenças que são passíveis de serem explicadas pela teoria linguística. O que acontece, geralmente, é um comportamento de intolerância linguística que leva à rejeição certas variedades de uso da língua. Deve-se observar que um item pode ser considerado \u2018errado\u2019 pelas regras de gramática normativa, mas não pelas regras do grupo a que o falante pertence.
Vejamos um trecho da transcrição da entrevista oral do informante Francisco, que faz parte do corpus do Grupo de Estudos Discurso e Gramática. Nela, o entrevistador pergunta ao informante o modo de fazer a massa de pão, e ele responde:
\u201cBota a massa na masseira... eh... tanto... não... tanto que bota... bota... duas lata na masseira... eh... quatr/ eh... duzentas gramas de (     ) que é uma química que tem... bota... eh...  fermento... aí bota a masseira pra bater... no:: normal dela e depois bota ela/ aumenta ela... (sem ter) limite... pra ela bater... pra aprontar a massa... depois da massa (     ) passa na... na modeladora... depois da::/ depois passa na divisora... aí bota em cima da mesa e separa... os pedaços de cima da mesa... (Informante Francisco, CA supletivo. VOTRE, Sebastião Josué; OLIVEIRA, Mariângela Rios de (Orgs.) Corpus Discurso & Gramática. A língua falada e escrita na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. (mimeogr.).
No trecho apresentado, percebemos algumas formas que vão de encontro aos usos prescritos pelo padrão.
	\u201cduas lata\u201d
	EM LUGAR DE
	duas latas
	\u201cduzentas gramas\u201d
	EM LUGAR DE
	duzentos gramas
	\u201cbota ela\u201d/ \u201caumenta ela\u201d
	EM LUGAR DE
	bote-a/aumente-a
Deve-se levar em consideração que o papel dos gramáticos é descrever regras de funcionamento da língua, tendo como base a norma padrão, um modelo ideal de língua que deve ser ensinado e aprendido na escola e utilizado pelos falantes cultos, ou seja, aqueles indivíduos com alto nível de escolarização. Usos como os apresentados na transcrição, embora não sejam estabelecidos pela norma padrão, são comuns em outras variedades de uso da língua, rotuladas como \u201cimpróprias\u201d, \u201cinadequadas\u201d, \u201cerradas\u201d.  
Assim, surgem as distinções entre variedade padrão versus variedades não padrão, variantes de prestígio versus variantes estigmatizadas. Por razões que não são linguísticas, algumas variedades de uso da língua acabam adquirindo certo prestígio, enquanto outras não.
Para ilustrar o prestígio de um determinado dialeto em detrimento de outros, assista ao trecho do filme Lisbela e o Prisioneiro. Observe a fala do personagem Douglas, um pernambucano com sotaque carioca, vivido pelo ator Bruno Garcia. No filme, Douglas, após ter passado um período no Rio de Janeiro, volta à terra natal com um sotaque carioca, pois ele o considera prestigioso.
Por Que Existe o Preconceito Linguístico?
De um modo geral, há, na sociedade, várias formas de preconceito: em relação ao sexo, à raça, à opção sexual etc. Pode-se dizer que o preconceito linguístico é apenas um desses tipos. O estigma que certas variedades de uso da língua adquirem não tem relação com fatores linguísticos, mas sim extralinguísticos, tais como desprestígio social, econômico, cultural, político, entre outros. Assim, julga-se o indivíduo pelo modo como utiliza a língua sem levar em conta outros fatores como seu nível de escolarização, a classe social à qual pertence etc.
Para a Sociolinguística, o preconceito linguístico não possui embasamento científico já que, segundo pesquisas, cada época determina o que considera como forma padrão, ou seja, as línguas mudam e a definição de \u2018certo\u2019 também. Podemos destacar, como exemplos, as formas \u201cdereito\u201d, \u201cdespois\u201d, \u201cpremeiramente\u201d, encontradas no texto de Pero Vaz de Caminha (1500), que faziam parte do português padrão daquela época.
Por fim...
Devemos entender que um indivíduo com pouca ou nenhuma escolarização não pode apresentar o mesmo desempenho linguístico de um indivíduo com o ensino superior. Um indivíduo altamente escolarizado passou por anos de escolarização e pôde ter acesso à norma padrão, diferentemente do primeiro indivíduo.
Devemos entender que não podemos estabelecer julgamentos de valor, pois as diferenças linguísticas existem. Assim, não há variante boa ou má, dialeto superior ou inferior, língua rica ou pobre.
AULA 8 \u2013 O FUNCIONALISMO: PRESSUPOSTOS TEÓRICOS BÁSICOS
Vamos iniciar a nossa aula com um desafio. Analise os dois enunciados abaixo:
\u201cVocê é bonita.\u201d
\u201cBonita é você.\u201d
Você acha que podemos usar o enunciado (1) e o enunciado (2) em qualquer contexto ou que há contextos que vão favorecer a utilização de (1) e não de (2)?
O desafio é criar dois contextos distintos: um em que, certamente, usaríamos o enunciado (1) e outro em que usaríamos o (2). Vamos ao trabalho?
Cena 1:
\u201cMinha nossa! Não sei com qual roupa irei ao encontro de hoje com o João. Além disso, meu cabelo está horrível!\u201d
\u201cVocê é bonita. Não se preocupe! Você ficará bem com qualquer roupa.\u201d
Cena 2:
\u201cMenina! Sua pele é ótima! Seu cabelo é incrível! Adorei o seu visual! Você é bonita!\u201d
\u201cQue nada! Bonita é você.\u201d
Você, provavelmente, criou contextos muito próximos dos apresentados aqui. Intuitivamente, perceberam uma diferença nas sentenças, já que não tiveram dificuldades de pressupor em qual situação comunicativa o enunciado (1) seria utilizado e não o (2), ou vice-versa.  
A tarefa nos leva a pensar se devemos tratar esses enunciados como sentenças diferentes ou como versões alternativas para dizer a mesma sentença. Vamos refletir sobre isso com base no Funcionalismo?
Um breve histórico do Funcionalismo: o funcionalismo europeu e o surgimento do funcionalismo americano.
O Funcionalismo surge como um movimento da corrente estruturalista. Muitos autores (CUNHA, 2009; CUNHA, OLIVEIRA & MARTELOTTA, 2003) atribuem aos linguistas do Círculo Linguístico de Praga, fundado em 1926, as primeiras análises de cunho funcionalista, pois, para eles, a língua é um \u201csistema funcional\u201d e, por isso, deve ser usada para um determinado fim. As ideias dos funcionalistas de Praga foram fundamentais para os trabalhos de orientação funcionalista que surgiram posteriormente.  
Os linguistas de Praga focalizavam as funções associadas à organização interna do sistema linguístico como na fonologia. Os modelos funcionalistas mais recentes ocupam-se em investigar \u201cas funções que a linguagem pode desempenhar nas situações comunicativas, dando maior ou menor peso aos aspectos cognitivos relacionados à comunicação.\u201d (CUNHA, 2009, p.159)
Na década de 70, na Costa Oeste dos Estados Unidos, como uma reação à linguística formalista, realizada pelos estruturalistas e pelos gerativistas, surge o Funcionalismo norte-americano:
\u201cÉ por volta de 1975 que as análises linguísticas explicitamente classificadas como funcionalistas começam a proliferar na literatura norte-americana. Essa corrente surge como reação às impropriedades constatadas nos estudos de cunho estritamente formal, ou seja, nas pesquisas