Literatura Brasileira I - Conteúdo Online
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parecesse a chama fria. 
(MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos/Gregório de Matos; seleção e organização José 
Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p.222) 
1 Estrutura Quiástica \u2013 Quiasma é uma figura estilística em que se percebe o cruzamento, 
formando um movimento semelhante à letra X. 
A estrutura sintática dele é representada pela seguinte forma: 
A sequência lógica seria que o incêndio fosse convertido em fogo, não é mesmo? E que o rio 
de neve, por sua vez, fosse disfarçado em mares de água, concorda? 
Esse cruzamento dos dois segmentos em ondem inversa, em que o final do primeiro passou a 
ser o inicial do segundo, tem a finalidade de construir o sentido a partir do confronto entre 
ideias opostas. 
Incêndio em mares de água disfarçado 
 
Rio de neve em fogo convertido 
Análise do Poema 
A beleza da descrição da lágrima metaforizada em fogo e neve, expressões antitéticas, 
desenvolve, ao longo do soneto, o lamento do eu lírico que pondera sobre o paradoxo do 
sentimento amoroso. 
A primeira estrofe apresenta, nos dois últimos versos, a estrutura quiástica que reforça o 
contraste, mediante o espelhamento. 
O mesmo procedimento se percebe também nos dois últimos versos da segunda estrofe, onde 
o vocativo \u201ctu\u201d, a quem se dirige o poeta, são as lágrimas que sintetizam essa dualidade. 
Na 3ª estrofe, o questionamento do eu lírico se responde, pois é o Amor que torna possível o 
paradoxo do fogo, que simboliza a paixão e o desejo, a ser sublimado pelo sentimento 
amoroso de castidade e pureza, representada pela neve \u2013 como se lê na 4ª estrofe. 
Como vimos, a importância da poesia de Gregório de Matos se consolida não apenas pela 
variedade ou volume de obras, mas principalmente por apresentar os traços da literatura que 
inaugura: a hibridez, a intensidade e a conciliação. 
Pensar a Literatura Brasileira é também refletir sobre a maneira especial, porque própria da 
cultura de nosso povo, de compreender e expressar os sentimentos e as angústias humanas. 
Assim como fizeram os autores do século XVII, assim como fazemos nós no século XXI. 
Por isso, a força e a atualidade de seus poemas ainda nos causam admiração e são temas de 
pesquisas acadêmicas. Para finalizar, vamos assistir a um vídeo no qual um poeta 
contemporâneo, Wally Salomão, recita Gregório. 
AULA 7 \u2013 NEOCLASSICISMO OU ARCADISMO: INTRODUÇÃO 
Esculturas 
Geralmente traziam corpos nus ou seminus, com formas bem reais, serenas e de composição 
simples. 
Músicas 
Também conhecido como período clássico da música, teve seu auge nas composições de 
Mozart e Haydn. 
Arquitetura 
A retomada da cultura clássica, a arte antiga, especialmente a greco-romana. 
Literatura 
Para entrar completamente no \u201cclima\u201d da arte neoclássica, leia o poema de Cláudio Manuel da 
Costa: 
Soneto II 
Leia a posteridade, ó pátrio Rio, 
Em meus versos teu nome celebrado; 
Por que vejas uma hora despertado 
O sono vil do esquecimento frio: 
 
Não vês nas tuas margens o sombrio, 
Fresco assento de um álamo copado; 
Não vês ninfa cantar, pastar o gado 
Na tarde clara do calmoso estio. 
 
Turvo banhando as pálidas areias 
Nas porções do riquíssimo tesouro 
O vasto campo da ambição recreias. 
 
Que de seus raios o planeta louro 
Enriquecendo o influxo em tuas veias, 
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro. 
 
Análise do Poema 
O soneto de nosso autor mineiro indica aspectos estéticos diferentes daqueles usuais no 
período anterior, o Barroco. 
Uma leitura superficial dará conta de que há a descrição da natureza circundante, bem como a 
referência a \u201cninfas\u201d, um indício de referência à cultura greco-romana. 
Nesse poema, também, não percebemos a presença da religiosidade, tão forte no período 
anterior, nem mesmo os arabescos estilísticos, consagrados pelo uso de linguagem rebuscada 
e de difícil entendimento. De fato, trata-se de poema de leitura mais fácil, no entanto não 
quer dizer menos interessante ou superficial. 
Cláudio Manuel da Costa, autor do poema que acabamos de ler, inaugurou, por assim dizer, 
um novo período estético no Brasil, o Arcadismo, com a publicação de seu livro Obras em 
1768. 
Análise do Texto (MATERIAL ADICIONAL \u2013 PRÓLOGO AO LEITOR) 
Esse texto, que introduz a leitura da obra, traz em si dois importantes aspectos: a 
possibilidade de circulação do livro e as diretrizes estéticas contempladas. 
- Em primeiro lugar, vale lembrar que a menção a uma obra, um livro impresso no contexto 
do século XVIII no Brasil, implicitamente faz referência à publicação em outras terras, visto 
que ainda era proibida a atividade gráfica em nosso país; no entanto as obras eram 
importadas e aqui atendiam ao público nascente. 
- O segundo aspecto digno de nota se aplica ao estilo desenvolvido pelo autor em seus 
poemas; observe que ele se desculpa por apresentar em alguns deles um acentuado emprego 
de metáforas e justifica esse comportamento pela imaturidade dos primeiros versos, escritos 
antes do conhecimento das obras dos gregos, dos franceses e dos italianos. 
Cláudio Manuel da Costa, desculpando-se, apresenta-nos características desse período: a 
recuperação do ideal clássico de beleza, tomado da Antiguidade clássica, e a simplicidade da 
linguagem, como valor estético a ser perseguido. Em outras palavras, no prefácio são 
apresentados os padrões estéticos do período: o Neoclassicismo ou Arcadismo. 
Para bem compreender esses padrões, é importante que nos situemos no tempo. 
O Pacto Colonial 
O Brasil viveu uma época de abundância com o ciclo da mineração, por isso o eixo econômico 
e político se transportaram para Vila Rica, hoje Ouro Preto, em Minas Gerais. 
Portugal, no entanto, ainda mantinha com o Brasil o Pacto Colonial, por meio do qual instituía 
pesados impostos e rígidas restrições, como a proibição de funcionamento de jornais, editoras 
e escolas superiores. 
As famílias mais prósperas que aqui residiam enviavam os seus filhos a Coimbra ou Lisboa, 
para que completassem os estudos. Esses jovens tomaram, nessa época, contato com as 
ideias revolucionárias do Iluminismo ou Ilustração e com as mudanças dele decorrentes. 
Alfredo Bosi 
Em História concisa da literatura brasileira, o autor aponta para a necessidade de se conhecer 
dois \u201cmomentos ideais na literatura dos Setecentos\u201d: 
\u201ca) o momento poético que nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a natureza 
e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de formas bem 
definidas, julgadas dignas de imitação (Arcádia); 
b) o momento ideológico, que se impõe no meio do século e traduz a crítica da burguesia 
culta aos abusos da nobreza e do clero (Ilustração)\u201d (BOSI, A. História concisa da literatura 
brasileira. P. 55) 
A dupla orientação se justapõe na medida em que se percebe a importação desses ideais e 
sua transplantação para as manifestações literárias e políticas que ocorreram aqui pelo grupo 
mineiro. Assim denominamos o grupo formado por Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio 
Gonzaga, Silva Alvarenga e Basílio da Gama, para citar os mais destacados poetas do período. 
Também não é coincidência o fato de encontrarmos os três primeiros poetas mencionados 
envolvidos com o incidente da Inconfidência ou Conjuração Mineira. 
Você poderia se perguntar: Afinal, como chamaremos esse período: Iluminismo, 
Neoclassicismo, Arcadismo? 
Você tem toda razão em questionar, pois os três nomes explicam e compreendem um 
conjunto de ideias relacionadas e complementares daquela época. 
Como foi dito, os jovens brasileiros estudavam nas universidades portuguesas e recebiam a 
formação profissional nesses anos. Lá, eles tomaram contato com o processo de revalorização