Literatura Brasileira I - Conteúdo Online
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certa amplitude. Temos desde uma presença física 
concretamente sentida, até uma vaga pastorinha incaracterística, mero pretexto poético (...). 
Na medida em que é objeto de poesia, Doroteia de Seixas vai-se tornando cada vez mais um 
tema.(...) Doroteia se desindividualizou para ser absorvida na convenção arcádica: é a pastora 
Marília, objeto ideal de poesia, sem existência concreta. Por isso mesmo, ora é loura, ora 
morena; ora compassiva, ora cruel: em qualquer caso, sem nervo nem sangue. É uma 
estatueta de porcelana ...\u201d (p.19-121). 
Em outras palavras, a namorada Maria Doroteia é inspiração para a construção da 
personagem arcádica Marília. Assim, sua descrição física nem sempre corresponde à realidade. 
A seguir, veremos alguns fragmentos que mostram Marília descrita de formas diferentes. 
Lira II 
(...) 
Os seus compridos cabelos, 
Que sobre as costas ondeiam, 
São que os de Apolo mais belos, 
Mas de loura cor não são. 
Têm a cor da negra noite; 
E com o branco do rosto 
Fazem, Marília, um composto 
Da mais formosa união. 
 
Lira XVI 
Se mostro na face o gosto, 
Ri-se Marília, contente; 
Se canto, canta comigo; 
E apenas triste me sente, 
Limpa os olhos com as tranças 
Do fino cabelo louro. 
A minha Marília vale, 
Vale um imenso tesouro. 
Estrutura da Obra Marília de Dirceu 
A obra é composta de três partes, que reúnem 33 liras na primeira, 38 na segunda e 9 na 
terceira, além de sonetos. 
Na primeira, há uma profusão de referências clássicas em liras de versos variados, cujo tema 
principal é o amor do eu lírico por sua Marília: 
Lira VII 
Vou retratar a Marília, 
A Marília, meus amores; 
Porém como? Se eu não vejo 
Quem me empreste as finas cores: 
(...) 
Entremos, Amor, entremos, 
Entremos, Amor, entremos, 
Entremos na mesma Esfera, 
Venha Palas, venha Juno, 
Venha a Deusa de Citera, 
Porém não, que se Marília 
No certame antigo entrasse, 
Bem que a Páris não peitasse, 
A todas as três vencera. 
Vai-te, Amor, em vão socorres 
Ao mais grato empenho meu: 
Para formar-lhe o retrato 
Não bastam tintas do Céu 
Há, ainda, nesta parte, excelentes exemplos de adesão do poeta aos referenciais neoclássicos, 
seja na explicitação da delegação da voz poética1, seja na consolidação dos princípios 
bucólicos da Arcádia. 
1 \u201cA delegação poética (...) não perturba aqui a emergência do lirismo pessoal: Gonzaga surge 
vivo, sob o tênue disfarce do pastor Dirceu, e a sua obra é a única, entre as dos árcades, que 
permite acompanhar um drama pessoal e as linhas duma biografia. O impacto emocional 
sobre o leitor aumenta graças a este degelo do eu, sem o qual não irrompe o autêntico lirismo 
individual (CANDIDO, A. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Rio de 
Janeiro: Ouro sobre azul, 2007. p.95)\u201d 
Análise do Poema 
Lira I 
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, 
Que viva de guardar alheio gado;1 
De tosco trato, de expressões grosseiro, 
Dos frios gelos e dos sóis queimado.2 
Tenho próprio casal e nele assisto; 
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; 
Das brancas ovelhinhas tiro o leite3 
E mais as finas lãs, de que me visto. 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha estrela! 
Eu vi o meu semblante numa fonte: 
Dos anos inda não está cortado;4 
Os pastores que habitam este monte 
Respeitam o poder de meu cajado.5 
Com tal destreza toco a sanfoninha, 
Que inveja até me tem o próprio Alceste: 
Ao som dela concerto a voz celeste; 
Nem canto letra que não seja minha,6 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha estrela! 
1 O eu lírico se apresenta como alguém de posses; é um pastor, mas um \u201cvaqueiro\u201d. Aqui se 
observa a ênfase em sua condição privilegiada. 
2 Nesses versos, notamos a importância dada à educação do eu lírico: alguém que não está 
acostumado aos trabalhos pesados ao ar livre. Ser \u201cpastor\u201d é uma delegação da voz poética, 
não corresponde à realidade. 
3 Note como o eu lírico reafirma sua condição de pessoa bem-sucedida. A palavra \u201ccasal\u201d tem 
o sentido de sítio. 
4 Aqui, a referência é feita à aparência física do eu-lírico: ainda sem rugas. 
5 O sentido figurado pode ser percebido pela menção à posição social, pois o poeta era 
Ouvidor-Geral de Vila Rica, um cargo muito elevado. 
6 \u201cAlceste\u201d é a referência a Glauceste Saturnio, pseudônimo de Cláudio Manuel da Costa. 
A prisão, como consequência de sua participação na Inconfidência Mineira, é o contexto do 
poeta na segunda parte da obra. Os sentimentos de tristeza e solidão são constantes, bem 
como as reminiscências da vida sonhada com a doce Marília. 
Santa Rita Durão \u2013 Caramuru 
A obra Caramuru, de Frei José de Santa Rita Durão, narra o encontro do português Diogo 
Álvares com os tupinambás, na costa da Bahia, quando sofreu um naufrágio. 
Leia um trecho do poema: 
De um varão em mil casos agitado, 
Que as praias discorrendo do Ocidente, 
Descobriu o Recôncavo afamado 
Da capital brasílica potente: 
Do Filho do Trovão denominado, 
Que o peito domar soube à fera gente; 
O valor cantarei na adversa sorte, 
Pois só conheço herói quem nela é forte. 
Os versos de estirpe camoniana contam a 
aventura do português, que é um símbolo 
da associação entre o colonizador e o indígena. 
Os versos de estirpe camoniana contam a aventura do português, que é um símbolo da 
associação entre o colonizador e o indígena. 
Conta a lenda que Diogo, para defender-se dos índios, havia disparado um tiro com sua arma 
de fogo. Segundo o autor, esse feito teria lhe rendido a alcunha, que significaria \u201cfilho do 
trovão\u201d. Hoje, há estudos que contestam o significado, pois entendem que Caramuru seria 
uma referência ao local de onde provinha o português; sendo assim um apelido dado por seus 
conterrâneos. 
Não de todo irrelevante a informação deixa transparecer a impregnação ideológica que 
contamina a epopeia, como percebe Alfredo Bosi: 
\u201cDomando a \u201cfera gente\u201d e as próprias paixões, Diogo é misto de colono português e 
missionário jesuíta, síntese que não convence os conhecedores da história, mas que dá a 
medida justa dos valores de Frei José de Santa Rita Durão. Na medida em que o herói 
encarna, aliás, ossifica tais valores, ele se enrijece e acaba perdendo toda capacidade de 
ativar a trama épica.\u201d (Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 
1994. p.70) 
Silva Alvarenga: Um Elo com o Romantismo 
Parte da crítica entende a obra de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, Glaura, como um \u201celo 
que prende os árcades e os românticos\u201d (Ronald de Carvalho). De fato, sua lírica 
extremamente musical, de fácil memorização e delicado campo semântico nos leva a 
aproximar as duas estéticas na obra do autor. Além disso, estão presentes referências à 
natureza brasileira, mencionando árvores como o cajueiro e a mangueira, por exemplo. 
Nesta aula, conhecemos obras e autores importantes do Arcadismo brasileiro. Seus versos 
compõem a tradição de nossa literatura e dialogam com a atualidade, seja formando o 
arcabouço temático, seja constituindo nossa história literária. 
AULA 10 \u2013 O ROMANTISMO: A INVENÇÃO/RENOVAÇÃO DAS ORIGENS 
O Romantismo durou mais de meio século e pode ser datado do final do século XVIII até 
meados do século XIX. 
Mesmo que saibamos pouco de música, ou que não tenhamos apreço por música erudita, 
percebemos algumas características próprias do período estético presentes na 
composição, começar pelo título \u201cPolonaise\u201d, em homenagem ao país natal de Chopin, 
Polônia, além da emoção intensa proporcionada pela rica melodia. 
Observe a imagem: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Note que a mulher, carregando a bandeira no centro da tela, é uma alegoria. Ela carrega