Literatura Brasileira I - Conteúdo Online
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o 
significado do que seria a liberdade. Não é à toa que o nome desse quadro de Delacroix é A 
liberdade guiando o povo. 
Esse quadro é muito famoso e inspirou outros artistas a comporem músicas e estátuas, como 
a Estátua da Liberdade. 
A força da imagem reside, também, na obstinação do menino, caminhando ao lado da 
liberdade, em busca de uma sociedade mais justa. 
Mesmo que para isso seja necessário matar ou morrer, conforme vemos os corpos em 
primeiro plano no quadro. 
Quando abraçamos ideais de forma cega, sem pesar os dissabores ou perdas que teremos, 
podemos classificar essa atitude como romântica. 
Diz-se, também, que romântica é aquela pessoa que vive os sentimentos e emoções de forma 
mais intensa, ou mesmo mais subjetiva. 
Mas o que essas definições têm a ver com o Romantismo? 
Ao final do século XVIII, várias mudanças aconteciam na sociedade europeia. O Iluminismo 
lançara as bases para uma revolução mental que abalou os alicerces da sociedade absolutista 
e o sistema colonial. 
A assinatura da Declaração dos Direitos do Homem, a Independência dos Estados Unidos e a 
Revolução Francesa transformaram o mapa do mundo e trouxeram certezas e desejos, pelos 
quais valia à pena lutar. 
Por outro lado, a racionalidade proposta pelo Neoclassicismo não supria a força das emoções 
despertadas pelo momento histórico. O envolvimento e a participação do homem em fatos 
que mudaram as estruturas sociais passaram a ser representados por uma arte que procurava 
ressaltar a visão emotiva e subjetiva do mundo. 
Assim, sentimentos como o patriotismo, o nacionalismo e o reformismo são temas constantes 
das obras da época, assim como a valorização da natureza, que tanto pode ser a expressão 
dos sentimentos do artista ou a natureza exótica, representada por florestas e terras 
selvagens. 
No entanto, a sociedade que se desejava não se concretizou. O homem percebeu que os 
ideais endossados por sua luta não representaram uma mudança social significativa. Os 
privilégios mudaram de mãos, passaram da nobreza para a burguesia, mas os pobres 
continuaram sendo explorados. Em outras palavras, a liberdade não se converteu em 
igualdade. 
O artista desse período também registrou em suas obras a melancolia e o desalento diante da 
impotência e da impossibilidade de mudança e traduziu para a arte seus sentimentos em 
forma de escapismo e melancolia. 
Observe que o período denominado Romantismo é extenso e rico em manifestações e 
diversidade. Alguns autores afirmam que nasceu na Alemanha, outros na Inglaterra, e ainda 
na França. Se não há uma unanimidade quanto à origem, perdura um consenso quanto à 
importância da expressão desse movimento estético e das gerações dele decorrentes. 
O Romantismo no Brasil 
Como a Política Pode Interferir na Produção Estética? 
Historicamente, o nosso país, no final do século XVIII, esboçara um movimento de 
insatisfação com o sistema colonial, configurando a Inconfidência Mineira em 1789. 
Na virada do século XVIII para XIX, Portugal viu-se pressionada pelas tropas napoleônicas que 
exigiam um posicionamento quanto ao Bloqueio Continental à Inglaterra. Nossa metrópole, 
contudo, devia politicamente e economicamente muito ao país bretão e não podia, naquele 
momento, contrapor-se a seu aliado. A solução encontrada foi a mudança de toda a família 
real para a Colônia mais próspera, o Brasil. 
Elevada à condição de vice-reino, a Colônia foi sacudida pela necessidade de se adequar ao 
novo cenário e às novas necessidades de seus habitantes recém-chegados. 
Em 1808, a Corte portuguesa se mudou para o Rio de Janeiro, provocando uma série de 
mudanças na vida social brasileira, uma vez que, enquanto Colônia, não havia aqui bibliotecas, 
museus, teatros, nem mesmo tínhamos permissão para a publicação de jornais e livros. 
Os ventos europeus que sopravam os ideais libertários e românticos chegam também aqui, 
colidindo com a presença da metrópole, estabelecida em nossas terras. 
De forma que, em 1822, a Independência do Brasil, proclamada pelo descendente da 
monarquia portuguesa, não é um paradoxo histórico, mas uma solução pacífica para as 
aspirações políticas, as pressões econômicas e os anseios sociais. 
O país, todavia, ainda se apoiava em uma estrutura agrária, latifundiária e escravocrata, muito 
distante dos ideais de liberdade e igualdade difundidos na Europa. 
É nesse panorama que surge o Romantismo no Brasil: da tensão entre a emergência da 
imagem de país independente e a presença das marcas coloniais. 
Daí a importância da literatura para a constituição da personalidade cultural do país naquele 
momento, pois as circunstâncias delegaram aos artistas o papel de forjar a identidade de 
nossa cultura e, como extensão, de nossa nacionalidade1. 
1 Leia o trecho de Antônio Candido, de sua obra Formação da literatura brasileira: 
\u201cSe o Brasil era uma nação, deveria possuir espírito próprio, como efetivamente manifestara 
pela proclamação da Independência; decorria daí, por força, que tal espírito deveria 
manifestar-se na criação literária, que sempre o exprimia, conforme as teorias do momento.\u201d 
(CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. P. 304) 
Nascimento de Um Brasil: Um Parto Nada Natural 
A abertura da Ópera O Guarani, de Carlos Gomes. 
Essa passagem da composição ficou famosa por ser a música que tematizava a abertura do 
Jornal radiofônico \u201cA voz do Brasil\u201d. 
Carlos Gomes inspirou-se no romance O guarani, de José de Alencar, para criar a ópera, que 
estreou em 1870. Perceba a grandiosidade do tema, explorada na ênfase dada aos 
instrumentos de sopro. 
O índio, protagonista da obra, foi um tema muito explorado pelo Romantismo, principalmente 
nos romances de José de Alencar. Isso se explica por três razões. 
1. O empenho em traduzir as tendências vindas de fora fez-se sentir na adaptação dos temas 
à realidade e à paisagem brasileira, de forma que a presença de elementos da natureza se 
tornou uma exigência para se considerar a obra visceralmente pertencente à literatura de 
nossa terra. A esse traço deu-se o nome de \u201ccor local\u201d 1. 
1 Em 1826, foram publicadas duas obras importantes para a literatura brasileira: o Bosquejo 
da história da poesia e língua portuguesa, de Almeida Garret, e Résumé de l\u201eHistoire Littéraire 
du Brésil, de Ferdinand Denis. Ambas as obras reconhecem a existência da literatura 
brasileira. A primeira sugere que se deveria substituir a mitologia pela realidade local ao traçar 
o primeiro panorama evolutivo da literatura portuguesa. A segunda, mais incisiva, sugere não 
apenas a recusa à mitologia, mas também, e principalmente, a inserção da descrição da 
natureza, do índio e do colono. 
2. A busca pelo primitivo revelou-se como tendência na literatura europeia, e não apenas 
brasileira. A natureza, no Romantismo, representa um refúgio e o cenário do homem puro. 
Essa idéia está relacionada ao mito do \u201cbom selvagem\u201d, defendido por Rousseau. 
Assim, de forma complementar a esse aspecto, o retorno ao passado procura recuperar o 
estado de pureza. No caso das expressões artísticas europeias, essa tendência se observa na 
valorização da Idade Média. Na literatura brasileira, o indígena da colonização consegue 
personificar e reunir os elementos necessários às duas determinações: o nacionalismo e o 
primitivismo. A essa tendência deu-se o nome de nativismo. 
Como bem observou Afrânio Coutinho: 
\u201cFoi graças ao próprio senso de relativismo do movimento, que ele se adaptou à situação 
local, valorizando-a, de acordo com a regra romântica de exaltação do passado e das 
peculiaridades nacionais. Assim, o Romantismo, no Brasil, assumiu um feitio particular, com 
caracteres especiais e traços próprios, ao lado dos elementos gerais,