Literatura Brasileira I - Conteúdo Online
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de meados do século XIX. Na Literatura, há a 
predominância da narração em terceira pessoa, a objetividade e a busca pela descrição o mais 
fiel possível da realidade. 
Você observou o quadro do pintor francês Gustave Coubert e observe agora um trecho do 
conto A cartomante1, de Machado de Assis, ambos do período realista. 
1 \u201cDeu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou 
pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão 
pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve 
ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; 
ele tornou a bater uma, duas, três pancadas.Veio uma mulher, era a cartomante. Camilo disse 
que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. 
Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, 
havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos 
trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o 
prestígio.\u201d (http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000257.pdf) 
Mesmo não recorrendo ao enredo do conto de Machado de Assis para nos ajudar, podemos 
perceber algumas semelhanças entre o quadro e o conto: 
\uf0b7 A descrição da realidade é feita de maneira bastante minuciosa, os detalhes são 
privilegiados. 
\uf0b7 A temática das duas obras se concentra em experiências do cotidiano, observadas pela 
ótica de uma terceira pessoa. 
À primeira vista, que semelhanças podemos encontrar entre os dois textos? 
Vamos fazer um teste? 
Os painéis a seguir compõem o mural da ONU, Guerra e Paz, de nosso genial pintor Candido 
Portinari. A obra foi pintada entre os anos de 1952 e 1956. Observe atentamente os detalhes, 
as figuras humanas, as diferenças entre os dois painéis, as cores etc. 
Na poesia, o Cubismo é perceptível pela simplicidade, por uma sintaxe orientada pelo sentido 
e não pela gramática. 
\u201cO pintor cubista tenta representar os objetos em três dimensões, numa superfície plana, sob 
formas geométricas, com o predomínio de linhas restas. Não representa, mas sugere a 
estrutura dos corpos ou objetos. Representa-os como se movimentassem em torno deles, 
vendo-os sob todos os ângulos visuais, por cima e por baixo, percebendo todos os planos e 
volumes\u201d. 
E na literatura, quais seriam os traços principais? 
Na poesia, o Cubismo é perceptível pela simplicidade, por uma sintaxe orientada pelo sentido 
e não pela gramática. 
Cidade 
Foguetes pipocam o céu quando em quando 
Há uma moça magra que entrou no cinema 
Vestida pela última fita 
Conversas no jardim onde crescem bancos 
Sapos 
Olha 
A iluminação é de hulha branca 
Mamães estão chamando 
A orquestra rabecoa na mata 
Oswald de Andrade 
Comentários: 
Tanto nos painéis quanto no poema de Oswald de Andrade observamos flashes da realidade, 
como se várias visões ou fotografias estivessem coladas lado a lado. 
No mural \u201cGuerra\u201d, por exemplo, temos momentos de desespero e de dor retratados: são 
cenas de mulheres chorando, pessoas de braços estendidos para o céu, como clamando pela 
misericórdia. No mural \u201cPaz\u201d, as cenas são de alegria, brincadeira e trabalho. 
Ao colocar lado a lado cada um dos fragmentos, da dor e da alegria, o pintor nos deu uma 
perspectiva panorâmica, de todas as visões, tanto da guerra quanto da paz. 
Na poesia de Oswald de Andrade temos também retratos do cotidiano: fatos que compõem 
uma paisagem e que ganham a mesma prioridade ao serem observados pelos poetas. Se 
fossem retratados um a um, os fragmentos perderiam o sentido ou a intenção de retratar a 
noite urbana em contraponto à percepção provinciana de início de século XX, na cidade de 
São Paulo. 
Convém mencionar outro conceito literário importante: a Geração. 
Geração, segundo Afrânio Coutinho, pode definir-se como \u201cum grupo de escritores de idades 
aproximadas que, participando das mesmas condições históricas, defrontando-se com os 
mesmos problemas coletivos, compartilhando de idêntica concepção do homem, da vida e do 
universo e defendendo valores estéticos afins, assumem lugar de relevo na vida literária de 
um país mais ou menos na mesma data. Trata-se de um conceito suplementar em nossos 
estudos da periodicidade literária. 
No caso específico da Literatura Brasileira, a determinação do ponto de partida do estudo das 
histórias da literatura é dada com a publicação de História da Literatura Brasileira, de Silvio 
Romero, em 1888. Antes dessa obra, houve referências, como já mencionamos, à literatura 
produzida no Brasil, Entretanto, esta ainda era compreendida como colônia e, por isso, 
constante do capítulo ultramar da literatura portuguesa. 
Observa Marisa Lajolo que as histórias literárias surgem a partir dos processos de afirmação 
das nacionalidades européias e não foi diferente com o caso brasileiro. Desde o primeiro 
momento, existe uma forte aliança entre a produção literária e o \u201cprojeto de construção 
nacional\u201d. Os efeitos dessa visão se refletem diretamente sobre a construção do que podemos 
chamar de cânon da Literatura Brasileira, que não pode ser compreendido como uma 
sequência, mas como sistema: 
\u201c(...) trata-se de uma sequência cujo estabelecimento passa pela mediação de inúmeras 
leituras seletivas que, pautando-se por igualmente seletivos protocolos (de leitura literária), 
foram aprovando certas obras e rejeitando outras, num gigantesco processo de seleção e 
combinação, cujo resultado constitui o cânon da literatura brasileira\u201d. 
O ensino da literatura brasileira nas escolas vigora desde os tempos da monarquia, fazendo 
parte de antologias escolares. Sua importância ultrapassa o mero conhecimento dos bons 
autores, pois reside principalmente no conhecimento mais profundo de nosso povo, de nossa 
cultura e de nossa história. O contato com as obras deve sempre ser guiado, merecendo 
grupos de debates e discussão, para que a apreensão transborde os momentos de leitura e 
venha a compor a bagagem do cidadão. 
A Literatura produzida no Brasil é um patrimônio cultural, manifestação genuína do povo 
brasileiro. Sua força é sentida além do mundo lusófono, como potência artística representativa 
de nossa identidade. 
Deleite-se agora com trechos de nossa poesia brasileira, para entrar no clima: 
Canção do exílio 
Gonçalves Dias 
 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá; 
As aves, que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá. 
 
Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais flores, 
Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores. 
(...) 
 
Não permita Deus que eu morra, 
Sem que eu volte para lá; 
Sem que desfrute os primores 
Que não encontro por cá; 
Sem qu\u201finda aviste as palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
(Coimbra \u2013 julho 1843) 
O navio negreiro 
\u201eStamos em pleno mar... Dois infinitos 
Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 
Qual dos dous é o céu? Qual o oceano?... 
Castro Alves 
 
Língua Portuguesa 
Amo o teu viço agreste e o teu aroma 
De virgens selvas e de oceano largo! 
Amo-te, ó rude e doloroso idioma. 
Olavo Bilac 
 
Vou-me embora pra Pasárgada 
E quando eu estiver mais triste 
Mas triste de não ter jeito 
Quando de noite me der 
Vontade de me matar 
\u2013 Lá sou amigo do rei\u2013 
Terei a mulher que eu quero 
Na cama que escolherei 
Vou-me embora pra Pasárgada. 
Manuel Bandeira 
 
As sem razões do amor 
Eu te amo porque te amo. 
Não precisas ser amante, 
e nem sempre sabes sê-lo. 
Eu te amo porque te amo. 
Amor é estado de graça 
e com amor não se paga. 
Carlos Drummond de Andrade