Literatura Brasileira I - Conteúdo Online
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Reinvenção 
(...) 
Mas a vida, a vida, a vida, 
a vida só é possível 
reinventada. 
Cecília Meireles 
 
Extravio 
Onde começo, 
onde acabo, 
se o que está fora está dentro 
como num círculo cuja 
periferia é o centro? 
Ferreira Gullar 
AULA 2 \u2013 TEXTOS DE INFORMAÇÃO E CONTRIBUIÇÃO JESUÍTICA 
O alemão Hans Staden, em 1554, foi prisioneiro dos índios Tupinambás no litoral de São 
Paulo. 
VER MATERIAL ADICIONAL \u2013 VIAGEM AO BRASIL 
Conseguindo retornar à sua terra natal, publicou a obra que contaria os oito meses que ficou 
em poder da tribo indígena, bem como os hábitos e os costumes da tribo antropófaga. 
Sua obra, Viagens e aventuras no Brasil, publicada em 1557, teve várias edições, mas apenas 
em 1892 foi traduzida para a língua portuguesa. 
O sucesso que obteve a obra no século XVI muito se deve à curiosidade dos povos em relação 
aos indígenas e às terras recém-encontradas por portugueses e espanhóis. 
Hoje, textos como o de Hans Staden são considerados como documentos significativos que 
dão a conhecer os nossos antepassados, assim como avaliar o ponto de vista que orientava 
esses relatos e descrições. 
De acordo com a análise de textos como os de Hans Staden, podemos questionar: seria essa 
a origem da Literatura Brasileira? Qual seria a origem da Literatura Brasileira? 
Ao longo da história de nosso país, observamos o surgimento de artistas: pintores, escultores, 
músicos e escritores; alguns tiveram maior sucesso em seu tempo do que outros. Há obras 
que chegaram aos nossos dias e merecem elogios ou críticas, outras ficaram desconhecidas 
por muito tempo ou ainda não foram estudadas. 
Como estudar as obras literárias produzidas em Língua Portuguesa no Brasil? Que critérios 
adotar para agrupá-las? 
Primeiro devemos nos perguntar: o que se pode considerar como \u201cliteratura\u201d? Leia a definição 
dada por Afrânio Coutinho: 
\u201cA literatura é uma arte, a arte da palavra, isto é, um produto da imaginação criadora, cujo 
meio específico é a palavra, e cuja finalidade é despertar no leitor ou ouvinte o prazer 
estético. Tem, portanto, um valor em si, e um objetivo, que não seria de comunicar ou servir 
de instrumento a outros valores \u2013 políticos, religiosos, morais, filosóficos. Dotada de uma 
composição específica, que elementos intrínsecos lhe fornecem, tem um desenvolvimento 
autônomo.\u201d (COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. 7ª Ed. São Paulo: Global, 2004. vol. 
1. p. 61) 
Para Antônio Candido, só se podem considerar como \u201cmanifestações literárias\u201d os primeiros 
textos produzidos aqui, porque, para ele, a literatura pode ser definida como um \u201csistema de 
obras ligadas por denominadores comuns1, que permitem reconhecer as notas dominantes 
duma fase.\u201d 
1 \u201cEstes denominadores são, além das características internas (língua, temas, imagens), certos 
elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se 
manifestam historicamente e fazer da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se 
distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes 
do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os 
quais a obra não vive; um mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem, traduzida 
em estilos), que liga uns a outros.\u201d (CANDIDO, Antônio.) 
Assim, no caso brasileiro, a consideração do marco inicial \u2013 ou seja, a partir de quais obras 
podemos afirmar haver literatura brasileira \u2013 define o objeto de análise. Vejamos: 
Quando aqui chegaram, os colonizadores portugueses encontraram indígenas que não 
possuíam registros escritos de sua cultura; logo, se não havia escritores, também não havia 
leitores entre os índios; 
O Brasil permaneceu como colônia portuguesa de 1500 a 1822, ano de nossa Independência. 
Até 1808, com a chegada da família real ao nosso país, não havia cursos superiores. As 
famílias mais abastadas enviavam seus filhos para a Universidade de Coimbra. 
Toda e qualquer atividade de imprensa, como a publicação de jornais ou livros, foi proibida 
em nosso país até a chegada da família real portuguesa, em 1808. 
Observe como os dois dos maiores autores de História da Literatura Brasileira delimitam o seu 
objeto de análise: para o primeiro, não há nenhuma referência a um público, apenas o 
receptor da obra; já para o segundo, para haver literatura, é necessário que para ela 
existam público e mecanismos de circulação. 
Compreender o panorama histórico da época da chegada dos portugueses ao Brasil e a 
relação de Colônia e Metrópole que duraria por três séculos é fundamental para a descrição do 
movimento evolutivo da Literatura Brasileira. Nesse sentido, consideram-se como documentos 
de valor inestimável os textos, mesmo que não literários, como as crônicas e as obras que 
registraram a especificidade de nossa natureza e cultura. São textos, em sua maioria, de 
origem portuguesa, escritos entre 1500 e 1627. 
É pelos olhos do colonizador \u201ccivilizado\u201d que fomos vistos e descritos pela primeira vez, por 
isso o exotismo e a diferença de costumes são tomados como aspectos importantes nessa 
descrição. Mas interessam, sobretudo, por serem os primeiros registros que documentam a 
instauração do sistema colonial. 
O Éden1, o Eldorado, a fonte da eterna juventude fazem parte do imaginário como traço 
constante a destacar da perspectiva européia em relação à colônia. Essa visão ingênua ou 
otimista do mundo recém-descoberto é encontrada em alguns textos de viajantes e, de certa 
forma, corroboram e fundamentam a futura literatura no Brasil2. 
1 \u201cA primeira grande manifestação dessas forças é a formação do mito do ufamismo, 
tendência à exaltação lírica da terra ou da paisagem, espécie de crença num eldorado ou 
\u201eparaíso terrestre\u201f, (...) e que constituirá uma linha permanente da literatura brasileira de 
prosa e verso. Pero Vaz de Caminha, Anchieta, Nóbrega, Cardim, Bento Teixeira, Gandavo, 
Gabriel Soares de Sousa, Fernandes Brandão, Rocha Pita, Vicente de Salvador, Botelho de 
Oliveira, Itaparica, Nunes Marques Pereira, são exemplos da série de cantores da \u201ecultura e 
opulência, ou autores de \u201ediálogos das grandezas\u201f, que constituem essa singular literatura de 
catálogo e exaltação dos recursos da terra prometida. Essa literatura, diga-se passagem, não 
deveria estar longe de emergir de motivos econômicos de valorização da terra aos olhos 
europeus.\u201d (COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura brasileira. p.79) 
2 \u201cQuanto a literatura dos descobrimentos, quer nasça como descrição do novo \u201eparaíso na 
terra\u201f ou como pesquisa curiosa de diferentes modos de viver por parte de um europeu 
doente de civilização, ou como desejo de um europeu portador do Verbo de tornar 
semelhantes seus os \u201eselvagens\u201f transoceânicos, será ela o paradigma constante de todo 
futura ação literária \u201ebrasileira\u201f\u201d (STEGAGNO PICCHIO, Luciana. História da Literatura 
Brasileira. 2. ed. rev. atual. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004. p.86) 
Ao desembarcarem nas terras brasileiras, os portugueses registraram por escrito a primeira 
impressão do colonizador. Considera-se a Carta de Pero Vaz de Caminha1, datada de abril de 
1500, a \u201ccertidão de nascimento\u201d do Brasil por ter sido esse o primeiro registro escrito, tendo 
como objeto nossas terras. O autor, o escriba da esquadra, tinha por 
responsabilidade informar o rei D. Manuel sobre as descobertas relevantes feitas ao longo da 
viagem. 
1 Não bastassem todos os aspectos históricos que revestem o texto de Caminha, ele constitui 
um documento de valor para a consolidação da identidade brasileira. Em alguns momentos de 
nossa literatura, autores como José de Alencar, Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, dentre 
outros, estabeleceram