Literatura Brasileira I - Conteúdo Online
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Estado, as qualidades e estranhezas dele, etc. 
É esta província mui abastada de mantimentos de muita substância e menos trabalhosos que 
os de Espanha. Dão-se nela muitas carnes, assim naturais dela, como das de Portugal, e 
maravilhosos pescados; onde se dão melhores algodões que em outra parte sabida, e muitos 
açúcares tão bons como na ilha da Madeira. Tem muito pau de que se fazem as tintas. Em 
algumas partes dela se dá trigo, cevada e vinho muito bom, e em todas todos os frutos e 
sementes de Espanha, do que haverá muita qualidade, se Sua Majestade mandar prover nisso 
com muita instância e no descobrimento dos metais que nesta terra há, porque lhe não falta 
ferro, aço, cobre, ouro, esmeralda, cristal e muito salitre...\u201d 
(http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me003015.pdf) 
Os primeiro textos sobre o Brasil, como vimos, não podem ser considerados como literários; 
no entanto, trata-se de rico material que nos informa sobre as nossas origens e a relação 
entre o colonizador, a terra e seus habitantes. 
AULA 3 \u2013 O BARROCO E O BRASIL DO SÉCULO XVII 
Boa parte das expedições que cruzaram o Oceano Atlântico receberam estímulos da Igreja 
Católica, preocupada em expandir a fé cristã, devido à perda considerável de fiéis com o 
advento da Reforma Religiosa, promovida por Lutero. Assim, compunham também a 
tripulação da esquadra membros da igreja, missionários dispostos a propagar a fé cristã. 
Dois deles se destacaram no Brasil pelo pioneirismo de suas produções: Pe. Manuel de 
Nóbrega e Pe. José de Anchieta. 
A obra de Nóbrega constitui-se de Cartas e o Diálogo sobre a conversão do Gentio (1557 ou 
1558), texto em que discorre sobre aspectos da conversão do indígena por uma perspectiva 
objetiva. 
\u201cO primeiro padre geral não é propriamente um homem de letras: sua Informação das terras 
do Brasil (1551) tem sobretudo interesse etnológico e catequético. Mas as Cartas, que da 
Bahia e de Pernambuco, a partir de 1549, ele envia ao provincial e aos coirmãos da 
Companhia em Lisboa, têm o sabor das coisas vividas: logo traduzidas para o italiano (...), 
levam para a Europa da Contrarreforma o eco de uma experiência missionária das mais 
aventurosas.\u201d (Stegagno-Picchio, L. História da literatura brasileira. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova 
Aguilar, 2004. P.77) 
Vamos ler um trecho de uma de suas cartas? 
\u201cE dahi_vem o_pouco credito que gozam os Christãos_entre os Gentios, os quaes não 
estimam mesmo nada, sinão vituperam aos que de primeiro chamavam santos e tinham em 
muita veneração' e já tudo o que se lhes diz acreditam ser manha ou engano e tomam á 
má"parte. Esses e outros grandes males fizeram os Christãos com o mau exemplo de vida e a 
pouca verdade nas palavras e novas crueldades e abominações nas obras. 
Os Gentios desejam muito o commercio dos Christãos pela mercancia que fazem entre si do 
ferro e disto nascem da parte destes tantas cousas illicitas e exorbitantes que nunca as 
poderei escrever, e não pequena dôr sinto n'alma, maxime considerando em quanta 
ignorância vivem aquelles pobres gentios e que pedem o pão de Deus e da santa Pé...\u201d 
Observe, na Carta de Padre Manuel da Nóbrega, a denúncia da exploração dos índios pelos 
\u201ccristãos\u201d, expondo seu desagrado e desacordo com as práticas aviltadoras do gentio. 
José de Anchieta (1534- 1597) notabilizou-se por uma variada produção de textos. Sua verve 
foi registrada em latim, português e espanhol (sua língua materna, pois nasceu em Tenerife, 
uma das Ilhas Canárias) em obras que vão da poesia aos autos. É de sua autoria, igualmente, 
a primeira Gramática de Tupi \u2013 Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil. 
Os autos1 anchietanos são peças produzidas com o objetivo tanto de introduzir o indígena nos 
rudimentos da fé cristã, quanto para os colonos que se estabeleciam próximos às missões. 
Dentre os mais conhecidos estão: o Auto da Representação na Festa de São Lourenço, Na Vila 
de Vitória e Na Visitação de Santa Isabel. 
1 Auto é uma palavra de origem latina, que tem o significado de ação, ato. Trata-se de uma 
pequena peça de teatro, geralmente de tema religioso. Surgiu no final do século XII, na 
Península Ibérica. 
No entanto, o processo de familiarização à crença e sua simbologia própria encontrou 
entraves. Um obstáculo considerável à catequese, segundo Alfredo Bosi, em Dialética da 
colonização, consistiu na ausência do conceito de \u201calma\u201d para o silvícola, o que exigia do 
pregador a utilização de mecanismos de adaptação para transpor as diferenças culturais: 
\u201cO projeto de transpor para a fala do índio a mensagem católica demandava um esforço de 
penetrar no imaginário do outro (...) Na passagem de uma esfera simbólica para a outra 
Anchieta encontrou óbices por vezes incontornáveis. Como dizer aos tupis, por exemplo, a 
palavra pecado, se eles careciam até mesmo de sua noção, ao menos no registro que esta 
assumira ao longo da Idade Média europeia?\u201d 
As soluções encontradas basicamente consistiram em introduzir a palavra da língua 
portuguesa no idioma tupi ou buscar uma semelhança entre as duas línguas. Dessa forma, o 
sagrado transformava-se em uma \u201cmitologia paralela\u201d ou uma invenção de um \u201cimaginário 
estranho sincrético\u201d, como nos ensina Alfredo Bosi: 
\u201cBispo é Pai-guaçu, quer dizer, pajé maior. Nossa Senhora às vezes aparece sob o nome de 
Tupansy, mãe de Tupã. O reino de Deus é Tupãretama, terra de Tupã. Igreja, coerentemente 
é tupãóka, casa de Tupã. Alma é anga, que vale tanto para toda sombra quanto para o 
espírito dos antepassados.\u201d (BOSI, A. Dialética da colonização. 3. ed. São Paulo: Companhia 
das Letras, 1992. p. 65). 
O trabalho de adequação dos textos dramáticos ao público a que se dirigiam demonstra a 
preocupação pedagógica das peças, que em última análise corroboravam com o processo de 
aculturação1. 
1 \u201cOs textos teatrais de Anchieta, de maneira geral, têm uma estrutura em comum, e seu 
principal objetivo era a catequese do índio e, em menor escala, a instrução dos colonos. 
Dentro de um projeto maior, o projeto colonizador português, a preocupação era em formar 
intencionalmente o homem necessário àquela época histórica, àquele contexto em específico. 
Foi para educar e manter o projeto colonizador, a \u201cmissão civilizadora\u201d, que o padre José de 
Anchieta escreveu suas peças. Afinal, a Companhia de Jesus era a ordem oficial da Coroa 
portuguesa no Brasil colônia, uma vez que igreja e Estado estavam unidos pelos laços do 
padroado. 
Assim, a atuação dos padres jesuítas acabou por contribuir para a formação da própria cultura 
brasileira, tanto por meio dos escritos de José de Anchieta, como de outros jesuítas, como os 
padres Manoel da Nóbrega e Antônio Vieira.\u201d TOLEDO, C. A. A; RUCKSTADTER, F. M. M.; 
RUCKSTADTER, V. C. M. O teatro jesuítico na Europa e no Brasil no século XVI. Universidade 
Estadual de Maringá \u2013 UEM. 
A poesia de Anchieta elaborada nos moldes medievais1 deixa conhecer a alma doce e 
fervorosa do jesuíta. Como se lê na singela A Santa Inês: 
\u201cCordeirinha linda, 
como folga o povo 
porque vossa vinda 
lhe dá lume novo. 
 
Cordeirinha santa, 
de Iesu querida, 
vossa santa vinda, 
o diabo espanta. 
 
Por isso vos canta, 
com prazer, o povo, 
porque vossa vinda 
lhe dá lume novo.\u201d 
1 Comentário: 
O poema foi escrito nos moldes medievais, isto é, empregando a medida velha e recursos 
estilísticos sonoros, como o refrão. 
Medida velha2 é a técnica por meio da qual o poeta estrutura os versos em redondilha menor, 
ou seja, versos com cinco sílabas poéticas, ou redondilha maior, versos com sete sílabas. 
Refrão corresponde a um fragmento de verso ou a versos inteiros que se repetem ao final de 
cada estrofe ou de estrofes alternadas.