Literatura Brasileira I - Conteúdo Online
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época sentia-se dividido entre a salvação da alma pela fé e a satisfação dos anseios da carne.  A angústia dessa dúvida coloca-o em tensão permanente, refletida nas obras de arte.
A Literatura no Período Barroco
Na literatura, a tensão é traduzida mediante o emprego de figuras de linguagem, como antítese, paradoxo, hipérbole, sinestesia, metáfora e metonímia. Mas vale mencionar também o vocabulário rebuscado, hermético, que recobre a violência de um estado de alma em permanente conflito.
Na Europa, duas poéticas foram percebidas nessa época, no interior do Barroco: o cultismo1 e o conceptismo2.  
1 Entende-se por cultismo o jogo de palavras, proveniente do uso excessivo de figuras de linguagem. Trata-se de influência do poeta espanhol Luís de Gôngora, por isso também denominamos gongorismo esse aspecto do Barroco. Na poética de Gregório de Matos, observamos traços dessa tendência.
2 Por conceptismo, compreende-se a poética atribuída a Francisco Quevedo, cuja principal característica é o jogo de idéias, expressso por meio de silogismos. Os sermões de Padre Antônio Vieira apresentam bons exemplos da influência quevedista.
O Marco Inicial do Barroco no Brasil
Como sabemos, os nossos autores sofreram a influência da literatura ibérica e, por isso, podemos afirmar que houve \u201cecos do Barroco\u201d na literatura brasileira, uma vez que não havia aqui a configuração de um movimento, propriamente dito. 
É considerado o marco inicial do Barroco no Brasil a publicação de Prosopopéia, em 1601, de Bento Teixeira. Assunto de nossa próxima aula, juntamente com a análise dos sermões de Padre Antônio Vieira.
AULA 5 \u2013 A POESIA INAUGURAL DE BENTO TEIXEIRA E A PARENÉTICA DE PADRE ANTÔNIO VIEIRA
Recapitulando...
O Barroco brasileiro como vimos na aula anterior, não se registra em concomitância com o movimento europeu e adquiriu aqui características próprias, marcadas pelo processo colonizador e as restrições impostas pela metrópole. No entanto, algumas vozes já se levantam e merecem que nos detenhamos em sua análise. 
Das primeiras manifestações literárias nascidas em nossa terra, a primeira delas foi o longo poema épico Prosopopeia de Bento Teixeira.
SLIDE 4
Bento Teixeira
Nascido no Porto, Portugal, em 1561, Bento Teixeira publicou a obra Prosopopeia com intenções encomiásticas, pois toma por mote louvar o donatário da capitania de Pernambuco, Jorge de Albuquerque Coelho. 
Segundo José Veríssimo, poemas como Prosopopeia eram frequentes na bibliografia da época. Em outras palavras, a poesia que elogiava os nobres e suas famílias concedia ao poeta um status diferenciado, pois, como menciona Veríssimo.
A Análise de José Veríssimo Dias de Matos
A influência de Os Lusíadas, de Camões, é nítida na epopeia escrita em oitavas heroicas, principalmente nas inversões sintáticas peculiares. Define Veríssimo:
\u201cÉ um poema de noventa e quatro oitavas, em verso hendecassílabo, sem divisão de cantos, nem numeração de estrofes, cheio de reminiscências, imitações, arremedos e paródias dos Lusíadas. Não tem propriamente ação, e a prosopopeia donde tira o nome está numa fala de Proteu, profetizando post facto, os feitos e a fortuna, exageradamente idealizados, dos Albuquerques, particularmente de Jorge, o terceiro donatário de Pernambuco, ao qual é consagrado.\u201d
Características do Nativismo
Em dois momentos, a presença da paisagem brasileira assoma o poema, na referência à cidade de Olinda e na \u201cDescrição do Recife de Pernambuco\u201d, configurando o olhar sobre a nossa terra talvez a primeira semente do nativismo.
Vemos a seguir uma estrofe ilustrativa:
A menção à cidade de Olinda, terra da capitania do homenageado, é articulada a Saturno, deus do tempo na mitologia greco-romana. 
Vale o poema pelo aspecto pioneiro de que se reveste, mas o excesso de referências à mitologia impede a comoção do leitor.
Da poesia para a prosa, vamos conhecer um pouco da obra de um homem, mais precisamente, um pregador dessa época. Ele se notabilizou pela força e beleza de seus sermões e cartas: Padre Antônio Vieira.
Padre Antônio Vieira
Antônio Vieira nasceu em Portugal, mas veio para o Brasil ainda menino. Também muito cedo ingressou na Companhia de Jesus, tornando-se padre. Viveu intensamente conflitos entre brasileiros e holandeses, bem como foi capaz de analisar com agudeza a situação de indígenas, negros e judeus na sociedade colonial.
Um aspecto notável em sua obra é a erudição de que se reveste a linguagem em suas apresentações. No entanto, vale ressaltar que as obras que nos chegaram foram depuradas pelo próprio autor quando já idoso e que foram reescritas muitas delas. Como observa e cita Afrânio Coutinho.
O Destaque e a Atuação de Antônio Vieira
É importante saber que parenética é a arte de pregar sermões. Trata-se da rica oratória característica dos padres. 
Vieira teve um papel relevante na sociedade de seu tempo. Sua atuação transbordou a atuação religiosa, estendendo-se aos campos da política da colônia e da metrópole.
Quanto aos seus textos, mais precisamente nos sermões, destaca-se o virtuosismo da linguagem, resultante do emprego de figuras de retórica refinadas. Característico do Barroco, o conceptismo presente em seus textos se apura em movimentos argumentativos de grande impacto; por outro lado, no entanto, também lança mão dos excessos do cultismo, embora o renegue. Como podemos acompanhar neste trecho do Sermão da Sexagésima.
Características do Sermão Sexagésima
\u201cO caráter polêmico desse sermão delata preliminarmente que há excesso em manifestações. Sem excluir de modo algum a sinceridade com que combateu as extravagâncias do cultismo, não deixava Vieira de praticar ali mesmo o que condenava em outros pregadores, veladamente os dominicanos.\u201d (Coutinho, A. A literatura no Brasil. p. 87)
O Barroco está presente, como se vê no Sermão da Sexagésima. Primeiro, observe o emprego de figuras como a dubitação, ou seja, as indagações que visam a atrair a atenção do expectador, fazendo-o aderir aos argumentos apresentados de forma tácita. Depois, o uso de imagens, criadas por meio de símile, como a aproximação entre o trigo e as palavras do pregador. Por fim, observe o emprego de adjetivos em gradação. Há ainda, do ponto de vista fônico, repetições de termos no princípio, no meio ou final de orações seguidas.
Outro recurso bastante frequente na obra de Vieira é o uso de antônimos, criando antíteses com o objetivo de ampliar os sentidos do exposto e comover sua assistência. Como lemos neste trecho do Sermão do Mandato:
AULA 6 \u2013 GREGÓRIO DE MATOS: IRREVERÊNCIA E CONTRADIÇÃO
SLIDE 3
Estudou em Portugal e formou-se pela Universidade de Coimbra, vindo para o Brasil quando contava perto de 50 anos.  Atuou como juiz. Voltou ao Brasil em 1681, ocupando o cargo de vigário-geral. No entanto, foi desligado da função.  
Tendo vendido as terras que ganhara como dote ao casar-se com Maria dos Povos, conta-se que teria deixado o dinheiro largado em casa e gastado desmedidamente.
Conta-se que teria, em certo momento da vida, abandonado tudo para vagar como \u201ccantador itinerante, convivendo com todas as camadas da população\u201d (MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos/ Gregório de Matos; seleção e organização José  Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 20)
Embora tenhamos notícia de que sua produção poética foi bastante extensa, não se conhece nenhum poema assinado por ele ou impresso em vida. Reunidos, ao longo do tempo, por colecionadores, há casos de um mesmo poema apresentar versões bastante distintas. 
Além da dificuldade de se estabelecer a originalidade do texto do autor, há que se considerar as traduções livres de Quevedo e Gôngora, que aumentam a sua bibliografia. Como vemos, a obra de Gregório suscita, por si só, grande polêmica. No entanto, é importante destacar que a noção de autoria não tinha no século XVII, o mesmo valor que tem hoje.
Veremos alguns poemas e sonetos de Gregório se Matos, destacando trechos que irão revelar sua perspectiva e as principais